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Sobre amor, palavras e crianças atentas

18 dez 2017
12h39
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SOBRE AMOR, PALAVRAS E CRIANÇAS ATENTAS

por Renata Bianchi

Foto: Mãe com Prosa

Quando digo que minha filha de dois anos aprende coisas que não deu tempo de ensinar, geralmente o sentimento que impulsionou esse relato foi a perplexidade.

Perplexo é um adjetivo confuso, mas acho que define bem a situação de reconhecer que aquele bebê que nem saiu das fraldas demonstra entendimento de coisas que a gente nem imagina.

Recentemente eu e o pai da Iara decidimos de última hora assistir a um musical infantil no teatro do shopping - na real, a gente não curte muito os passeios ao ar não-livre, mas era o que tinha para aquele dia. Sem contar que era o espetáculo de uma personagem famosa, que a Iara e todos o bebês amam - nem precisava de muitos recursos para lotar a se$$ão.

A verdade é que valeu cada centavo olhar para aquela carinha hipnotizada (essa da foto de capa), a estreia da minha pequena no mundo dos espetáculos <3

Mas por que eu resolvi lembrar desse passeio agora mesmo?

Porque quando encontrou a irmã mais velha, ela foi rica nos detalhes:

"Iaiá foi no teatro, assistir a (nome de sua primeira heroína), mas era um mujical, tinha mújica!"

 

Essa veio da orelhada da conversa minha e do pai enquanto a gente achava que ela brincava. Nossa intenção era sair sem explicar onde íamos e fazer uma surpresa. Ingênuos… Ela já sabia que era um musical e pelo jeito entendeu o conceito.

E os trechos das conversas com as amigas que às vezes aparecem fragmentados? Esses dias ouvi a Iara contando para a irmã (acho que temos uma confidente em potencial aí) que a Dinda tinha cortado o cabelo. Outro dia ela contou pra nem lembro quem que uma outra amiga estava triste (dedo-duro!).

É lindo acompanhar a perspicácia dos nossos filhos, mas também é um pouco assustador, não? A gente precisa de atenção redobrada para evitar os entendimentos fragmentados. A interpretação de texto é um problema muito comum em mais adultos do que deveria, imagina para os pequenos?

Essa reflexão me fez lembrar de outra ocasião em que, no auge da minha exaustão, fui aconselhada a viajar sozinha para conseguir relaxar um pouco. Um mamãe-pass! Foi a única vez que fiz isso até agora, mas foi uma maravilha. Fiquei dois dias esticada na areia, caipirinha em punho e ninguém para cuidar. Relembrar velhos tempos faz bem para a sanidade.

Mas por que eu resolvi lembrar desse outro passeio mesmo?

Ah sim… fui jantar à beira mar, sozinha, plena e em silêncio. Restaurante vazio, som do mar como trilha. Mas a paz do momento foi interrompida no meio do jantar, quando chegou um casal com um filho de no máximo três anos. O restaurante estava vazio, mas eles sentaram do meu lado, o que seria tudo bem se o casal não fosse brigar o tem-po-to-do! O marido estava indignado com alguma coisa e não poupou suas ofensas. A mulher respondia pouco, cabeça baixa, envergonhada. Quem estava mais atenta era a criança, que ficou ali quieta e com um misto de tristeza e tédio.

E eu? Eu não sabia se me intrometia e falava que eles estavam sendo dois idiotas, se levava a criança pra longe dali, se simulava um infarto pra mudar a atenção ou se pagava a conta e simplesmente ia embora emitindo luz para a criança. Escolhi a última opção derrotada, confesso.

Como a gente se mete em outra dinâmica familiar, mesmo que deturpada?

Difícil, né?

A verdade é que eu, o pai da Iara e toda a humanidade que tem filho, precisamos repensar o que sai da nossa boca quando se tem criança no ambiente. E as coisas nem sempre saem como a gente quer. Isso é quase uma vigília, amigas e amigos. E é mais difícil do que parece.

Prefiro ficar perplexa com a Iara me perguntando porque a mamãe tem perereca e o papai tem pipi aos dois anos, do que constatar algum resquício mal compreendido da miséria humana.

Mas esse texto fala de amor, palavras e crianças atentas.

Cadê o amor?

Nesse momento eu queria abraçar todas as crianças que tem o desentendimento como realidade. Fecho os olhos e mando ondas energéticas de amor e paz, para as crianças e seus pais ou cuidadores.

Se todo mundo fizer isso de vez em quando, acho que ajudaria muito a espalhar um pouquinho de amor e compreensão nesse nosso mundão caótico. Ondas energéticas de amor!

Beijos de luz <3

Mãe com Prosa

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