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Nenhum filho/aluno a menos

24 abr 2018
15h56
atualizado às 15h59
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Não quero ser leviana. Não conheço detalhes sobre as razões que levaram dois adolescentes de São Paulo, que estudavam na mesma escola, a tirarem suas vidas num intervalo de duas semanas. O que eu quero é refletir sobre o assunto e não negá-lo, como no fundo gostaria de fazer.

Foto: Mãe com Prosa

Quando a mensagem lamentando as mortes divulgada pela escola dos meninos chegou  no meu whatsApp eu só conseguia pensar na mãe deles, no pai, em mim, no meu marido e nas minhas meninas.

O que aconteceu para que antes mesmo de chegarem à vida adulta terem perdido a esperança? O que fez com que não conseguissem enxergar uma razão, apenas uma, para se manterem vivos? Por que não sentiram a diferença que poderiam fazer pelo simples fato de continuarem existindo?

O que houve com os planos? Será que não tinham? Me lembro que quando estava no terceiro ano do ensino médio tinha certeza absoluta do meu poder de mudar o mundo. Imaginava que quando eu fosse apresentadora de telejornal  não abriria mão das boas notícias e da ética, sonhava em fazer uns bicos como garçonete do Belas Artes (em BH) e também em trabalhar na videolocadora do meu bairro.

Foi na adolescência que passei a dar aulas particulares para pagar as ligações interurbanas que me permitiam falar com o meu namorado de São Paulo (meus pais não tinham essa grana toda ou se tinham me fizeram acreditar que eu deveria me esforçar para pagar a conta), que me sentia fora do padrão por ser gordinha, que sofria de um certo tédio, mas que achava meus aborrecimentos pequenos demais se comparados com as minhas alegrias.

Eu tinha as minhas amigas de infância ao meu lado, o pastel de carne da escola feito pela Laurita e a natação na hora do almoço que me deixava sempre bronzeada. Eu tinha a minha família super carinhosa sempre por perto, as férias em Guarapari com direito a um sorvetinho à tarde (poucos sabores), tinha o Technotronic que a gente dançava em qualquer garagem e o "Imagem e Ação" que a gente jogava em casa mesmo.

O que será que as minhas filhas terão daqui a 10 anos? Se contentarão com um jogo em casa mesmo? Serão felizes apenas por tomarem sorvete (poucos sabores) na praia? Vão sonhar em fazer o bem? Terão amigas de infância ao lado delas? Vão curtir um som sem estarem bêbadas? Vão curar o tédio com um delicioso salgado da cantina da escola feito pela cantineira querida?

Confesso que fico angustiada e sem uma resposta imediata. Hoje todos já têm tanto e tudo, né? As amizades vão te dando likes, as festas mais bebida, os jogos vão sendo compartilhados com gente do outro lado do planeta que você nunca vai abraçar para comemorar a vitória.. E as exigências? Cada vez maiores! Tem de entrar no vestibular, tem de ter a roupa mais incrível, tem de fazer carreira internacional, ser competitivo porque a vida é assim e tem de ter último lançamento da Apple . E as frustrações? Ah, vão sendo compensadas pela companhia virtual de youtubers felizes e pelo sim que a gente dá por causa da culpa que nos impede de mantermos aquele não necessário, mas que deveria ser dito justamente no dia em que você voltou tarde do trabalho.

Mas o que temos feito para que nossos filhos não sucumbam? O que tenho feito para que Elisa e Manu sejam gratas ao que temos, tenham alguma blindagem emocional aos reverses da vida, valorizem as pequenas conquistas e reconheçam o nosso esforço ao oferecermos algo a elas?  Quais exemplos tenho  dado para que sonhem em contribuírem com o mundo? Que não sejam escravas da beleza e nem das notas do ENEM? Quanto carinho tenho oferecido a elas? E a tal da esperança?  Espero que    mortes assim nunca se tornem rotina, nunca sejam algo banal, mas sim uma tragédia que sirva para promover reflexões sobre o nosso papel no mundo e sobre o mundo que construímos todos os dias para os nossos filhos.

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Acesse nosso site: www.maecomprosa.com.br

Mãe com Prosa

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