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Morte é assunto pra primeiro dia de aula?

30 jan 2018
12h10
atualizado em 31/1/2018 às 12h59
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E aí Manu, como foi a estreia no terceiro ano?
Muito legal, mamãe. Mas sabia que uma aluna da escola morreu? O diretor comentou no páteo.
Oi Ziza, e você amor? Meu dia foi ótimo, mas sabia que a menina da escola que a Manu comentou sofreu um acidente muito, muito grave?

Ontem foi o primeiro dia de aula das meninas. Levamos as duas logo cedo e pedi que me ligassem no trabalho quando voltassem pra casa. Depois da primeira ligação, na hora do almoço, recebi outra no fim do dia:

Tá chegando, mamãe? Então, eu errei o nome da menina que morreu, mas agora sei como ela se chamava….

Sim, elas ficaram impressionadas com a notícia e eu arrasada quando soube do atropelamento trágico da estudante de 15 anos. Ontem ela recebeu uma homenagem do diretor da escola, uma salva de palmas no momento do hasteamento da bandeira. Fiquei imaginando a cena emocionante e profundamente triste, e me lembrando de que eu tinha a idade das meninas quando soube da morte do Rodrigo, meu colega de classe. Como pode?

E enquanto preencho os dados da agenda das meninas, fico pensando que muitas vezes é na escola o nosso primeiro contato com a realidade da vida. Como se em casa a gente fosse protegido das más notícias (eu fui e aqui nem noticiário eu deixo elas verem!!!), como se fôssemos poupados do que acontece "lá fora", algo incontrolável quando se trata de um corredor de escola. Lembra do mundão que era aquilo quando você estava no jardim?

Alunos do ensino médio que não voltam das férias porque foram atropelados, colegas de sala que mudaram de escola por falta de dinheiro, casais que se separam porque não se gostam mais, crianças que não convivem com avós porque a família desmoronou, filhos afastados de pais por conta de ações judiciais e até mesmo estudantes que são capazes de levar pra casa sua blusa de frio, mesmo sabendo que ela tinha dona.

Então volto ao título que escrevi e concluo que pra mim todo assunto é assunto de escola, que não existe dia certo pra tratar sobre a vida como ela é, que não tem hora marcada para falar sobre cidadania, traições, violência, coragem, esforço, morte, bebida, ofensa, elogios, perseverança, generosidade e tantas coisas incríveis e difíceis que fazem parte da existência diária. Aquele ambiente cheio de gritaria, desenhos coloridos, pais felizes, outros frustrados, professoras cansadas e cheias de amor pra dar é um pedaço da vida da gente, uma extensão do universo dos nossos filhos, onde tudo o que é ouvido e vivido pode virar lição.

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Mãe com Prosa

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