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Seria Edward Enninful a próxima Anna Wintour?

Como o editor-chefe da 'Vogue' britânica está revolucionando a indústria da moda com seu trabalho pela inclusão

22 nov 2018
18h59
atualizado em 23/11/2018 às 15h32
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Edward Enninful, o novo editor-chefe da Vogue britânica, está super confiante tanto em seu senso estético quanto sua visão de mundo. Em pouco tempo, ele ressuscitou uma publicação centenária, transformando a linha editorial para atender as demandas da audiência global e criando algumas das imagens de moda mais memoráveis, inspiradoras e diversificadas do ano passado. Seu trabalho exala autenticidade. Ele fez a inclusão parecer orgânica e sem esforço. E fez a moda parecer gloriosa.

Ainda, Enninful, neste dia em particular durante a Semana de Moda de Paris, está desconcertado por causa de um casado. Não qualquer casaco, ele me conta, mas o seu próprio. Ele é cor de caramelo, um presente de Riccardo Tisci, o diretor criativo da Burberry. A cor tirou o seu equilíbrio, já que ele prefere a simples camuflagem preta e branca: terno preto. Camisa branca. Óculos com lentes escuras. É o seu uniforme.

O casaco Burberry é um clássico e ficou esplêndido em Enninful, mas ele claramente não se sente bem. Ele está conversando com seus colegas, matando tempo antes da maratona de desfiles do dia, segurando o casaco em volta do torso, com seus ombros curvados, como se tentasse desaparecer dentro dele. A maioria das pessoas não teria tantos sentimos sobre uma simples peça, mas Enninful passou um tempo considerável de sua vida falando sobre como as roupas nos fazem não só parecer mas também sentir.

E aquele casaco fez com que Enninful se sentisse exposto quando, pela primeira vez, ele está em destaque.

Ele começou sua carreira na moda como modelo, um instrumento para contar histórias. Depois, ele se tornou stylist, selecionando as roupas para as narrativas. Como diretor de moda de revistas, ele pode escrever os contos com as próprias mãos. Agora que virou o todo-poderoso da Vogue britânica, ele tem o poder de decidir quais histórias serão contadas.

"Eu sempre senti que as histórias mais fortes ressoam com o tempo em que vivemos. Então as minhas sempre serão um pouco políticas", ele me conta. "Estamos em uma época em que o mundo está divido. Muitos muros foram construídos. É muito importante que a Vogue britânica diga, você sabe, está tudo bem. Está tudo bem mostrar a beleza", ele continua. "A diversidade funciona. Está tudo bem."

Enninful, 46, assumiu o comando da altamente conceituada publicação britânica em agosto de 2017, com uma série de primeiras vezes. Ele é o primeiro homens no topo da revista de moda de 102 anos e também o primeiro editor-chefe negro. Mas estas seriam meras notas de rodapé em sua biografia por causa da perspectiva única que ele traz ao seu trabalho.

Ele quer celebrar a arte e a criatividade, é claro. Mas ele o faz de um jeito que parece tanto real quanto aspiracional. Ele tem falado de maneira descarada sobre a falta de diversidade histórica nas páginas da Vogue UK e em seus funcionários, e ele está determinado a remediar isso especificamente, como também na indústria da moda geral.

"Tem um buzz sobre ele. Normalmente, isso passa depois de algumas revistas publicadas. As pessoas superam e passam a procurar pela próxima novidade. Mas eu acho que as pessoas acham o seu trabalho tão agradável, e ele o faz em todas as direções", explica a editora de moda veterana Grace Coddington. "Amo o que ele faz. De verdade. Para mim, é assim que todas as revistas deveriam ser."

A aposta de Enninful no globalismo e sua visão expandida sobre cultura o fizeram ser notado. No sempre presente jogo de quem irá substituir Anna Wintour, a mais famosa e poderosa editora do mundo, ele está no topo da lista. Os empresários da editora Condé Nast, dona de todas as Vogues, estão ocupados negando as especulações de que Anna estaria se aposentando ou diminuindo o ritmo de trabalho em breve. "Ela é parte integrante das transformações futuras de nossa empresa e concorda trabalhar comigo por tempo indeterminado em seus trabalhos como editora-chefe [da Vogue America e diretora artística da Condé Nast", disse o CEO Bob Sauerberg em comunicado. Ainda sim.

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A ideia de Enninful como substituto de Anna Wintour - que seria, o próximo editor com influência tão grande na indústria da moda que se torna um ícone até mesmo fora dela - não significa mudar para Nova York e ter um escritório no One World Trade Center. O local aumentaria sua audiência e poder financeiro, mas ele já é extraordinariamente influente. Se ela é produtora de blockbusters de grandes estúdios, ele é aquele produtor de filmes independentes que te embrulham o estômago. É rico e dinâmico. Pode te irritar ou acalmar. E vai te fazer pensar.

As pessoas tendem a esquecer que Anna não era a onipotente diabo-que-usa-prada quando chegou no topo da Vogue norte-americana, há 30 anos. Ela cresceu nesse papel, e o tipo de poder que ela conquistou reflete uma indústria que está se tornando mais corporativa, mais enamorada por celebridades, mais hierárquica.

A Vogue America permanece acumulando anúncios, mas não está imune a crise no setor das revistas. A próxima (ou próximo) Anna Wintour surgirá de uma indústria que está mais difusa e vazia. É um negócio sem fronteiras, no qual celebridades estão ficando famosa pelas redes sociais tanto quanto pela tv e pela indústria de Hollywood. O papel de ditar moda é menos importante quando um jovem designer pode vender diretamente para o consumidor, negociar um tênis milionário ou cortejar um mar de influencers.

E Enninful está bem localizado nesse novo negócios. Ele possui um olhar extraordinário e artístico que faz o seu trabalho sobressair do caos visual. Ele regularmente conversa com seus mais de 855 mil seguidores no Instagram. Ele olha para a África como um lugar para expandir seus leitores e vai para Gana para lutar pela educação artística lá. Ele está conectado com grandes grifes e com o mundo do entretenimento. Ele conhece a Oprah! E ele está focado na questão social mais urgente da moda: diversidade.

Em sua primeira edição, em dezembro de 2017, ele colocou Adwoa Aboah como estrela. A modelo e ativista tem uma cor de mel única, sardas no nariz, o pescoço de uma gazela e cabelos raspados. Ela não é especialmente longilínea, mas emana força. Na capa, ela usa um minivestido rosa pálido e marrom da Marc Jacobs com turbante nos mesmos tons. Nas pálpebras, ela estava com uma sombra metálica turquesa e seus lábios foram pintados de vermelho brilhante. Adwoa parecia ter saído dos anos 1970 mas com uma parada nos 1940. Seu estilo foi inspirado na diáspora africana com um toque de glamour disco.

A imagem é um mix de referências, colocadas juntas por Enninful e fotografadas por Steven Meisel. Ela confiantemente exala a moda de rua e a informalidade. É altíssima moda - com conteúdo, segura e refinada. E ainda sim diz: todos são bem vindos.

Estadão

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