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Diagnóstico terminal: falar sobre a morte também é viver

Sentir medo é normal. Mas apesar do tabu, a vida após um diagnóstico terminal pode sim ter qualidade e bem-estar

6 fev 2026 - 12h59
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Há uma famosa expressão em latim que diz: "Memento mori", ou, em bom português: "Lembre-se de que você irá morrer". Parece sombrio? Pois saiba que refletir sobre a morte pode ensinar muito sobre a vida. E, para algumas pessoas, evitar pensar sobre isso não é uma opção. Para quem é diagnosticado com uma doença terminal, ou seja, uma doença para a qual a medicina esgotou, sem sucesso, as possibilidades de cura e a morte parece estar próxima, lembrar do fim é inevitável. Mas, ao contrário do que possa parecer, esse processo não precisa envolver apenas sofrimento.

Diagnóstico terminal: falar sobre a morte também é viver
Diagnóstico terminal: falar sobre a morte também é viver
Foto: Revista Malu

O caso Mujica

Pepe Mujica ficou famoso no mundo inteiro como presidente do Uruguai entre 2010 e 2015. Mas sua trajetória digna de filme (e que até virou um, Uma Noite de 12 Anos, de 2018) já chamava atenção. Surgiram fãs do político ao redor do mundo. Ex-guerrilheiro e militante comunista, a vida de Pepe virou de cabeça para baixo quando o então regime ditatorial uruguaio o prendeu, em 1972. Seguiram-se doze anos de prisão na solitária, com pouquíssimo acesso a água potável e comida, sem nenhuma notícia sobre o mundo exterior. Milagrosamente, Mujica sobreviveu para contar a história. E, após sair da prisão no final da ditadura, logo ingressou em uma produtiva carreira política entre ministérios, congresso e senado. Por fim agraciada por um governo presidencial altamente popular e em uma vida que, segundo o próprio, foi feliz, apesar desses percalços. 

Revelou seu diagnóstico terminal

E com a mesma naturalidade com que fala dos sofrimentos durante sua prisão, Pepe veio a público em entrevista ao jornal uruguaio Búsqueda, em janeiro de 2025, para avisar com todas as letras que está morrendo, pois tem um câncer de esôfago que não aceita mais tratamentos. Nas palavras dele, "Meu ciclo acabou. O guerreiro tem direito ao seu descanso." 

Atualmente, o ex-presidente de 89 anos está debilitado. Mas decidido a terminar seus dias tranquilamente em sua pequena fazenda nos arredores de Montevidéu, capital do Uruguai, ao lado da esposa, Lucia Topolanski, e dos seus cães de estimação.

Ele não é o único

Embora a decisão do ex-presidente uruguaio tenha chamado a atenção, ela definitivamente não é novidade. A ciência, inclusive, já tem uma área dedicada a cuidar exclusivamente de pacientes com doenças incuráveis e potencialmente fatais. São os cuidados paliativos, prestados por uma equipe multiprofissional de saúde para pacientes e familiares que estão lidando com doenças graves e ameaçadoras da vida. Resumidamente, são os cuidados médicos executados quando não há nada a ser feito pela cura do paciente. Aliás, quanto a isso, o médico paliativista Rodolfo Moraes ensina: "O maior mito relacionado aos cuidados paliativos é que ele é limitado. Ainda que não haja o que fazer pela cura, há muito o que fazer pelo paciente, e isso até o último suspiro." 

Segundo Rodolfo, isso significa que os tratamentos passam a ser voltados para prevenção e alívio do sofrimento físico, mental, social e espiritual. "Trazendo conforto e bem-estar, enxergando o paciente como um todo, de uma forma acolhedora, mas também com competência técnica e científica", explica.

Tudo bem sentir medo após um diagnóstico terminal

Apesar da morte ser 'a única certeza da vida', temos medo de pensar sobre ela, o que é totalmente natural. A abordagem paliativa para casos terminais, como explica Rodolfo, não é uma forma de impedir que as pessoas tenham medo da morte, e sim, para demonstrar que, apesar do medo, é possível viver com qualidade, e isso também se estende a quem tem pouco tempo de vida. "Os cuidados paliativos englobam também falar sobre a morte, é claro, mas eles vão além. Como esse medo é muito entranhado na cultura, a sociedade evita falar sobre, mas isso é prejudicial no longo prazo. Tanto para a difusão dos cuidados paliativos quanto para todos nós, que não sabemos lidar com nossos próprios desejos, principalmente nesses momentos finais", pontua. 

Outro erro comum, segundo ele, é acreditar que cuidados paliativos são indicativos de morte próxima. "Na verdade, estar em cuidados paliativos indica apenas que a doença é grave e incurável, mas muitas vezes ainda é possível viver vários anos, até décadas. Por isso dizemos que esses cuidados se voltam para manter o bem-estar do paciente, desde a descoberta do caso, até a última fase, que é o diagnóstico terminal, quando há a previsão de tempo de vida", esclarece.

Sem ignorar o sofrimento

E não se engane, os cuidados paliativos não servem para diminuir o peso do diagnóstico, mas sim para que essa carga seja levada de forma mais leve. "Nos casos de doença terminal, abordamos a iminência da morte de forma empática e delicada, nos deixando tocar pela dor do outro, e cada paciente é individual e vai ser afetado de formas diferentes pela notícia. O tratamento paliativo é um equilíbrio entre ciência e humanidade, lembrando que ali está mais que um paciente, mas também uma pessoa, sua família e seus amigos", reforça o especialista. 

Entes queridos, inclusive, são essenciais também nessa fase do tratamento. "Mais do que nunca, o diagnosticado com uma doença terminal vai precisar de acolhimento, sem comentários impertinentes. É preciso permitir que esse paciente fale e que haja interesse verdadeiro por ele, inclusive sobre suas últimas vontades", complementa. 

No caso do citado Pepe, por exemplo, ele se reservou o direito de evitar entrevistas, tem se dedicado à agricultura e à floricultura (suas profissões, para além de político), focou o tratamento em evitar dores e solicitou que, após a sua morte, ele seja enterrado em casa ao lado de sua falecida cadela de estimação, Manuela. Mas cada paciente pode refletir no que é melhor para ele nesse momento: reunir a família e amigos, viajar, permanecer em casa ou no hospital. Todas as possibilidades serão avaliadas pelo paciente, a equipe multidisciplinar e as pessoas próximas, respeitando as vontades da pessoa sempre que possível.

A vida é um milagre

Lembra da expressão 'Memento Mori', que abriu essa matéria? Ela é muito famosa entre os filósofos estóicos, cuja corrente de pensamento, o estoicismo, se voltava especialmente para a aceitação do que está além do nosso controle, como uma forma de lidar com o sofrimento. 

'Lembrar-se de que se é mortal', portanto, não é uma ameaça, mas sim um convite, e isso é independente se você tem um diagnóstico grave ou não. "Em todos esses anos trabalhando com cuidados paliativos, posso dizer que minha maior lição de vida é o valor do tempo. Em geral, desperdiçamos o nosso tempo correndo atrás de coisas muito supérfluas e passageiras, deixando de lado o que realmente importa: nós mesmos, nossas famílias", diz Rodolfo, que logo conclui: "Quando a doença se instala, para muitos, vem a sensação de que é tarde demais, de que não realizaram tudo o que gostariam de realizar. Isso faz com que eu olhe melhor para minha vida, de uma forma crítica, mas também acolhedora, pensando onde posso mudar para me tornar alguém melhor, todos os dias", reflete. 

Então, fica a pergunta, que apesar de incômoda, é necessária: independente se você sabe ou não quanto tempo de vida tem, você tem vivido como gostaria de viver?

"A vida é uma bela aventura e um milagre. Estamos muito focados na riqueza e não na felicidade. Estamos focados apenas em fazer as coisas e, antes que você perceba, a vida já passou." Pepe Mujica

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