Muito além da força bruta: como a jardinagem está redefinindo a masculinidade
Ao trocar o controle pelo cultivo, homens descobrem no contato com a terra uma forma de acolher a vulnerabilidade, reaprender o cuidado e quebrar velhos estereótipos
Historicamente vista como tarefa feminina, a jardinagem tem redefinido a masculinidade contemporânea ao afastar a lógica da força bruta e do controle. Ao cultivar a terra, homens resgatam noções de cuidado, afeto e vulnerabilidade, antes reprimidas pelo patriarcado. Essa prática desafia estereótipos tradicionais e transforma a ideia de força, promovendo uma conexão mais sensível e saudável com o ritmo da vida e a expressão de suas emoções.
A partir da Revolução Industrial, a cultura patriarcal desenhou uma fronteira rígida na sociedade. Ao homem, reservou-se o imperativo do domínio econômico. Por outro lado, às mulheres, coube a manutenção do cuidado doméstico. Nesse sentido, a jardinagem passou a ser vista pelo olhar dominante como uma tarefa passiva ou inferior — algo rotulado pejorativamente como "coisa de mulher".
A jardinagem como via de desarmamento
Longe de ser apenas um fetiche estético para redes sociais, o cultivo de flores emerge agora como uma transformação profunda. Segundo uma reportagem da revista 'Elle', essa prática se tornou uma via de acesso a conceitos historicamente interditados à masculinidade tradicional: a capacidade de nutrir, a aceitação da vulnerabilidade e a busca pela beleza como um direito humano fundamental.
Para Ron Finley, ativista que desafiou leis municipais ao transformar canteiros abandonados de Los Angeles em hortas comunitárias, enfiar as mãos na terra é um ato de desarmamento. Ele pontuou o aprendizado que o solo oferece: "Na jardinagem, você é forçado a abandonar o controle. A terra ensina compaixão e atenção, lições de que os homens precisam desesperadamente". Essa virada de chave, em que a força bruta dá lugar à observação atenta, ressignifica a própria ideia do que é ser um homem forte.
A beleza na imperfeição e no afeto
Ao contrário da floricultura industrial, que busca caules totalmente padronizados, o designer floral californiano, Max Gill, contou que encontra na imperfeição do vegetal o seu maior refinamento. Da mesma forma, na Inglaterra, o autor Arthur Parkinson é mais um que acha no solo uma maneira de se autorregular e expressar emoções. Sobre esse resgate do afeto, o escritor e naturalista refletiu: "Colher algo do seu jardim para entregar a quem você ama cumpre um instinto de provedor que o mundo moderno nos tirou. Só que, em vez de dominar, é um banquete de sentidos."
Uma nova forma de existir
Contudo, essa mudança vai muito além de um mero hobby. Ao reivindicarem o solo como espaço de vida, esses homens não estão apenas desafiando os estereótipos que os afastavam da beleza e do trabalho delicado. Em suma, eles estão aprendendo a construir uma masculinidade menos fóbica à sensibilidade e conectada com o tempo e o ritmo da vida.
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