Centafanadina: nova medicação para TDAH chama atenção da ciência
Novo medicamento para TDAH, a centanafadina, amplia o olhar sobre atenção, emoções e qualidade de vida no tratamento
Olá meus queridos! Hoje trago uma grande novidade da área da ciência. Como médica psiquiatra e coordenadora da pós-graduação em TDAH sabemos que, quando se fala em Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ainda é comum reduzir o tema à dificuldade de foco. Mas quem vive o TDAH - ou acompanha de perto - sabe que a realidade é bem mais complexa. Não se trata apenas de atenção. Trata-se de tentar se organizar por dentro enquanto o mundo exige produtividade constante, estabilidade emocional e desempenho impecável.
Ao longo dos anos, os medicamentos ajudaram milhões de pessoas a funcionarem melhor. Para muitos, foram transformadores. Ainda assim, uma parte dos pacientes descreve uma sensação difícil de explicar: a atenção melhora, mas algo não se encaixa por completo. O foco vem, mas junto dele aparece a ansiedade. A produtividade aumenta, enquanto o sono se perde. A mente responde o corpo e as emoções nem sempre acompanham.
Essas falas aparecem todos os dias nos consultórios: "Consigo me concentrar melhor, mas não me sinto bem" e "melhorei no trabalho, mas estou pior por dentro". São frases simples, mas que revelam um desconforto real muitas vezes invisível nas escalas clínicas, mas pesado na vida cotidiana.
Talvez seja por isso que a ciência nunca tenha parado de buscar novas possibilidades de tratamento. Não porque as abordagens atuais tenham falhado, mas porque o cérebro humano é mais complexo do que qualquer explicação única consegue dar conta.
No início de 2026, uma notícia chamou a atenção da comunidade científica: a agência reguladora dos Estados Unidos aceitou para revisão prioritária um novo medicamento para TDAH, a centanafadina. Movimentos como esse não representam promessas imediatas, mas sinalizam que novas hipóteses estão sendo consideradas com seriedade.
Para aprofundar essa análise, convidei a psiquiatra Christiane Ribeiro, doutora em Medicina Molecular pela UFMG, que trouxe uma leitura técnica importante sobre a proposta da medicação. Segundo ela, a centanafadina despertou interesse por apresentar um mecanismo de ação diferente do habitual no tratamento do TDAH.
Trata-se de uma medicação não estimulante, que atua simultaneamente sobre três sistemas químicos do cérebro: dopamina, noradrenalina e serotonina. Essa combinação chama atenção porque amplia o olhar tradicional sobre o transtorno. Como a própria Dra. Christiane pontua, durante muito tempo o foco esteve corretamente nos sistemas ligados à atenção e às funções executivas. Mas isso não explica tudo o que o paciente vive.
Na prática clínica, fica cada vez mais claro que muitas pessoas com TDAH não sofrem apenas pela dificuldade de se concentrar, mas também por problemas de regulação emocional, impulsividade afetiva e instabilidade interna. Esses aspectos, embora centrais na experiência do transtorno, ainda aparecem de forma discreta ou inexistente nos manuais diagnósticos, especialmente no caso das mulheres. É nesse ponto que a serotonina ganha relevância.
Como Dra. Christiane ressalta, esse sistema participa da modulação do humor, da impulsividade e da estabilidade emocional. Não resolve todos os sintomas, mas ajuda a compreender por que tantos pacientes seguem se sentindo incompletamente assistidos quando o tratamento foca apenas no desempenho cognitivo.
Ainda assim, é fundamental manter os pés no chão. Do ponto de vista da psicofarmacologia, a centanafadina não deve ser vista, ao menos por enquanto, como uma medicação de primeira linha. Os estudos disponíveis são relativamente curtos, em torno de seis semanas, e mostram melhora da atenção e da hiperatividade, mas ainda não permitem comparações robustas com os estimulantes clássicos que seguem apresentando maior eficácia global.
Essa leitura é compartilhada tanto pela literatura quanto pela prática clínica. Os estimulantes continuam sendo a principal escolha para a maioria dos pacientes e provavelmente permanecerão assim. No entanto, como Christiane também destaca, existe um grupo significativo que não tolera essas medicações, apresenta contraindicações clínicas ou abandona o tratamento devido aos efeitos adversos.
É justamente para essas pessoas que novas opções ganham importância. Os dados iniciais da centanafadina sugerem um perfil de efeitos colaterais mais previsível, com diminuição do apetite, dor de cabeça, náusea, fadiga e sonolência entre os mais relatados.
E eu vejo esse avanço menos como uma substituição e mais como uma ampliação do repertório terapêutico. Quanto mais entendemos o transtorno em sua complexidade cognitiva, emocional e relacional, mais evidente fica que não existe uma solução única que sirva para todos.
A história da psiquiatria mostra isso com clareza: medicamentos não são salvadores nem vilões. São ferramentas. E ferramentas exigem escuta, critério e indicação cuidadosa. Por isso, falar da centanafadina hoje pede mais maturidade do que empolgação. Ela não representa uma solução definitiva para o TDAH. Representa um passo importante na direção de uma compreensão menos reducionista do transtorno e mais respeitosa da experiência humana.
Tratar TDAH não é apenas melhorar foco ou produtividade. É cuidar de pessoas inteiras. Com atenção, sim, mas também com emoções, limites, cansaços e histórias. E que venham mais ferramentas para melhorar os sintomas do TDAH melhorando a qualidade de vida de quem sofre com o transtorno
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.