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Um em cada cinco jovens no Brasil não trabalha e nem estuda: o que fazer?

8 dez 2023 - 05h00
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Quase 11 milhões de pessoas estão longe das escolas ou universidades e, também, afastadas do mercado de trabalho. Desse grupo, 43,3% são mulheres negras
Quase 11 milhões de pessoas estão longe das escolas ou universidades e, também, afastadas do mercado de trabalho. Desse grupo, 43,3% são mulheres negras
Foto: iStock

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia) divulgados nessa semana mostram que 22,3% dos brasileiros de 15 a 29 anos, ou seja, quase 11 milhões de pessoas estão longe das escolas ou universidades e, também, afastadas do mercado de trabalho. Desse grupo, 43,3% são mulheres negras, 24,3% homens negros, 20,1% mulheres brancas e 11,4% homens brancos. 

Uma mulher negra tem uma probabilidade duas vezes maior de integrar esse grupo do que uma mulher branca, e quase quatro vezes maior do que um homem branco. Os números fazem parte da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), que analisa os resultados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE e se refere ao ano de 2022.

Analistas cunharam a expressão “nem-nem” para se referir a essa geração que não estuda e nem trabalha. O termo pode ser inexato por diversas causas. O próprio IBGE avalia que apesar de muitos desses jovens não terem trabalho, uma parte significativa está exercendo atividades não remuneradas dentro de casa, como cuidar de parentes e dos afazeres domésticos. 

Condições sociais

Além disso, o termo pode passar a impressão que todos esses jovens não querem estudar ou trabalhar, preferindo ficar dentro de casa, o que não é uma verdade absoluta. De acordo com a pesquisa, 4,7 milhões de jovens não procuraram trabalho, nem gostariam de trabalhar em 2022, e quase a metade deles justificava essa posição por já estar ocupado com trabalhos em casa, principalmente as mulheres.

São as condições sociais, educacionais e familiares, via de regra, que afastam a maioria desses jovens tanto dos bancos escolares como de um trabalho. Mulheres que engravidam precocemente, por exemplo, podem abandonar a escola para se dedicar ao filho. Aliás, é bom lembrar que a gestação na adolescência segue como um dos principais fatores de evasão escolar nessa faixa etária. 

A falta de trabalho e de estudo incide muito mais no grupo das pessoas consideradas mais pobres. 61% dos jovens sem estudo ou trabalho viviam com menos de US$ 6,85 por dia (cerca de R$ 33). Quanto menor o rendimento familiar, maior a chance desses jovens não estudarem nem trabalharem. Quase a metade dos jovens dos domicílios 10% mais pobres do Brasil enfrentavam não trabalham nem estudam, o que só perpetua esse ciclo de pobreza. 

Geração nem-nem são os jovens que não trabalham e nem estudam
Geração nem-nem são os jovens que não trabalham e nem estudam
Foto: iStock

Um ciclo nada virtuoso

Os dados de 2022 são inferiores aos do ano anterior. Em 2021, 25,8% dos jovens não estudavam nem trabalhavam, número que pode ter sido afetado pela pandemia do covid-19. Com a retomada essa proporção caiu, mas o valor não é o mais baixo da série histórica, que foi registrado há dez anos (2014). 

Estar fora da escola e do mercado de trabalho pode criar um ciclo nada virtuoso de vulnerabilidade para esses jovens. Além de não obter formação adequada, eles não ganham experiência nem qualificação, o que pode impactar seu futuro profissional. 

A pesquisa ainda revelou que o Brasil está distante de alcançar o nível de educação dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), grupo que reúne as 38 nações mais ricas do mundo. A proporção de brasileiros com 25 a 64 anos que não terminaram a educação básica é de 41,5%, mais do que o dobro dos integrantes do bloco, com média de 20,1%. 

Para interferir nessa trajetória são necessárias políticas públicas de fôlego que garantam a permanência do jovem na escola, investimentos para melhorar a educação no país, incentivos para as primeiras experiências de trabalho, qualificação e capacitação profissional, combate ao racismo e outras formas de preconceito social, melhora dos rendimentos familiares e a criação de redes de suporte social para as populações mais vulneráveis, entre outras inúmeras estratégias. Que 2024 venha com o aceno de mais trabalho e mais estudo para quem mais precisa. Essa é a única forma de mudar a história do país.

*Jairo Bouer é médico psiquiatra e escreve semanalmente no Terra Você

Fonte: Jairo Bouer
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