Passividade diante das agruras socioambientais
Passividade diante das agruras socioambientais
É fácil perceber a nossa passividade diante da discrepância entre o que a sociedade é e o que desejamos que ela seja. Na realidade, um termo correto para definir nossa inércia social não seria só passividade, mas "atividade contracorrente", pois, freqüentemente, adotamos atitudes individuais que vão de encontro aos resultados sociais desejados.
Muitas vezes nos posicionamos alinhados a um discurso eloqüente de como isto ou aquilo deveria ser, funcionar, ocorrer. Falamos de política, futebol, religião, meio ambiente, miséria... Nossa opinião é inegavelmente construída sobre os alicerces da moral vigente, representada por um discurso ético dos problemas sociais, ambientais e econômicos de nosso País e do mundo. "Aquele político é corrupto, porque isso e aquilo... Aquele ruralista derruba a Amazônia; é um predador capitalista... Este córrego está poluído!..." Mas nossa mera opinião, infelizmente, não move montanhas.
Como é fácil jogar ao vento nossos pensamentos sobre aquilo que subverte os nossos pretensos valores. O que não percebemos ainda é que tais valores estão apenas na superfície de nossos seres, como uma capa frágil, freqüentemente escondendo o que há debaixo dela. E isto se chama hipocrisia. Sim, é verdade. Afinal, a hipocrisia nunca é nossa, mas dos outros. Está aí o exemplo. Como a própria sapiência popular dita: "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço", talvez esta expressão represente de maneira bastante objetiva onde eu quero chegar.
Sempre o outro - Para ir direto ao ponto, explico-me com alguns exemplos: vejo todos os dias pessoas reclamando no trânsito de irregularidades cometidas por outras, ao mesmo tempo em que dizem: "Ah, não sabia que aqui era proibido estacionar. Bom, mas é apenas cinco minutos, não serei multado." Pode-se constatar, dentre muitos outros aspectos comportamentais, dois dos principais: o egoísmo, por achar que o sujeito pode estacionar ali, em detrimento do coletivo (pensando apenas na eventual multa), e o relativismo, por acreditar que uma eventual flexibilidade sócio-comportamental se aplica a ele, mas não aos outros. A pessoa que age desta maneira dificilmente se coloca na posição daqueles que possivelmente serão afetados pelas suas atitudes. Mas em seu discurso, a culpa pelo estado das coisas é sempre do outro.
O mesmo ocorre com a poluição sonora, grande problema nacional que poucas vezes é pautado, embora haja leis específicas regulamentando-a. Ora no trânsito, ora na construção ao lado, ora no vizinho desrespeitoso. No trânsito, mais uma vez, usamos nossas buzinas para extravasar nosso ódio acumulado pelo nosso vazio existencial, como que uma forma rude de tentar educar o suposto barbeiro: "Sinta esta buzina no fundo de sua alma, como uma lição para a sua incompetência!" Quem usa a buzina para aviltar publicamente o outro, não aprendeu que ela só existe para alertar sobre o perigo iminente. A percepção sobre as conseqüências de um simples buzinaço em meio ao já caótico sistema urbano, não existe. O agente não se coloca na posição das dezenas, centenas e até milhares de pessoas que sofrerão com aquela estridente interferência no conforto ambiental (leia-se qualidade de vida). Não! O que realmente importa é que aquele motorista supostamente é um péssimo condutor (na visão do reclamante), sendo, portanto, mal-educado, que precisa de uma advertência pública. Soma-se a esta atitude a já degradada qualidade de vida nos centros urbanos enfrentada por doentes em hospitais próximos, idosos padecendo, estudantes concentrados sobre seus livros, recém-nascidos tentando um descanso pós-traumático do parto. Todos acabam por pagar as conseqüências de atos desmedidos como este, em que aquele que se acha o dono da razão, perde-a completamente.
Reflexão - Outro sujeito que se proclama ambientalista fervoroso, também, em seu bonito discurso, geralmente não percebe que se está utilizando de produtos pouco sustentáveis. Mal parou para refletir se suas roupas foram confeccionadas aqui ou na China, se o seu mobiliário residencial é proveniente de um manejo florestal sustentável, ou para onde vai o vidro de polpa de tomate daquele macarrão superprocessado e vendido em caixinhas no hipermercado. Mas "parem de derrubar a Amazônia" ou "este país não tem empregos!". Ele mesmo financia tais passivos socioambientais.
Tudo bem, talvez o pior não esteja aí. O brasileiro, em geral, vive reclamando de tudo e de todos, mas poucos se mobilizam para uma efetiva mudança do cenário. Grande parte não incita sua comunidade, não vai às ruas protestar contra as injustiças sociais como fazem os franceses, os gregos, os argentinos e muitos outros povos. Isto é ótimo para aqueles que, supostamente, governam o País. Pão e circo: bolsa mordomia e futebol. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Só nos encontramos nas ruas quando nosso time vence, aí vale o estardalhaço. Quando alguns políticos colocam a mão no nosso bolso para levar a família de avião para passear na Europa, ou para "revender" passagens pagas com o dinheiro público, nós até nos estarrecemos, porém passivamente em nossos lares, escritórios e botecos.
O bandido matando, a seu bel prazer, trabalhadores em lojas de conveniências. Ou crianças sendo formadas nas escolas da criminalidade e do sofrimento. Cadeias superlotadas financiadas pelos cidadãos de bem, sendo que poderiam ser auto-sustentáveis pelo trabalho transformador e educativo do próprio detento, provendo-lhe verdadeiras condições de reinserção social. Não. Financiamos infernos que, mais cedo do que tarde, arderão no seio social. Cultura - Ah, não, isso não vale o desconforto de uma mobilização! Um gol do time do coração, ao contrário, sim, só esse vale a pena pular, gritar e juntar nossos amigos torcedores. Quem sabe até brigar como ocorre rotineiramente depois do jogo. Aí nossas gargantas bradam incansavelmente pela cidade, por horas a fio. Aí vale se descontrolar, beber até cair, fazer barulho pela vitória do timão. Festa sim, pois realmente há um motivo. Ou no carnaval, em que milhões saem às ruas, quando costumamos dizer que o brasileiro merece esquecer seus problemas. Esquece mesmo, não os resolve. Circo novamente, disfarçado com as vestes de nossa nobre cultura. Enquanto isso, nosso bolso, nossa dignidade e nossa qualidade de vida são surrupiados. Assim vamos levando nossos dias entre indignação passiva e festividade ativa, ano após ano. Isto é, falta militância social, ambiental e política na mesma proporção de nossa alegria cultural e festiva. Cansado, comecei pelo simples: anotei o nome de todos os políticos que, de alguma forma, infringiram os meus valores morais. Não votarei mais neles. Venho anotando, também, aqueles que apresentaram propostas sistêmicas (não apenas setorizadas) e benéficas para a sociedade. Esses valerão meus próximos votos. Além disso, ligo quase todos os dias para a companhia de trânsito, solicitando que multem aqueles que estão parados na faixa amarela de minha rua. Talvez os multados não repitam o gesto mal-educado. Enviei um e-mail para a franquia do fast-food que se instalou ao lado da minha casa, explicitando o problema da poluição atmosférica no entorno de minha residência. Se não me derem ouvidos, irei à fiscalização ambiental, pois não admito que a brisa vespertina, capital natural intangível, seja-me negada. Reclamei a sensibilização dos vizinhos ruidosos, que me privam de um merecido descanso após um longo dia de trabalho. Se não funcionar, buscarei meus direitos como cidadão. Cedo, em cem por cento das vezes, meu lugar na fila aos idosos, não por força de lei, mas porque reconheço seus valores. Acho que tive a oportunidade de não ser tão imbecilizado a ponto de desvalorizá-los. Não dou mais trocados, mesmo em detrimento de minha comoção, ao sistema de produção de miséria em massa nos sinaleiros de minha cidade. Não quero ser responsabilizado por financiar fábricas de crianças sem futuro. Adotei uma forma de reduzir o consumo desnecessário, diminuir a geração de resíduos e encaminhá-los corretamente. Também mandei substituir o sistema de descarga do vaso sanitário, logo que percebi um pequeno vazamento. Por fim, passei a refletir sobre todas as minhas ações e suas conseqüências sobre tudo e todos. Assim, posso encontrar maneiras de mitigar possíveis resultados negativos. Pena que não posso, como "cidadão comum", fazer valer meus direitos por medida provisória, uma forma peculiar de executar interesses. Caso contrário, talvez a aplicação de minhas MPs tivessem meios e fins mais nobres do que os do governo. Minha MP 01 seria: "Todo cidadão minimamente indignado com a condição socioambiental do País DEVE se mobilizar contra medidas injustas, na mesma proporção em que se mobiliza quando seu time marca um gol, ou na mesma proporção da beleza de nossa cultura carnavalesca." É claro que os exemplos acima são apenas alguns dentre os milhares que podemos observar durante a nossa, ainda pobre, coexistência. Talvez eu esteja sendo hipócrita. Jogando meus pensamentos ao vento mais uma vez. Talvez não. Mas acredito que fazer o que se prega dentro dos ditames morais é responsabilidade social. Adotar uma postura pró-ativa diante das agruras ambientais é responsabilidade ambiental. Não esperemos. Façamos. Alinhemos nossos discursos com nosso cotidiano. Nossas crianças e pessoas, nosso canto, nosso bairro, nossa cidade e nosso País agradecem. E a festa, assim, seja no gol ou no carnaval, tornar-se-á muito mais rica, divertida e verdadeiramente merecida. Giuliano Moretti - Engenheiro Químico é mestre em Gestão Ambiental, professor universitário e consultor da Preserva Ambiental Consultoria.