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Transcriptômica espacial: quando o local onde surge o câncer importa tanto quanto a célula

Nova geração de tecnologias começa a revelar algo até então invisível e essencial tanto para a pesquisa como para o tratamento do câncer: onde os genes estão ativos dentro dos tecidos doentes?

4 fev 2026 - 10h40
(atualizado às 10h49)
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Mapear o território tumoral pode abrir caminhos para terapias mais precisas. Novas ferramentas como a transcriptômica espacial revela por que o contexto do tumor faz diferença.
Mapear o território tumoral pode abrir caminhos para terapias mais precisas. Novas ferramentas como a transcriptômica espacial revela por que o contexto do tumor faz diferença.
Foto: American Chemical Society, CC BY / The Conversation

Hoje, 4 de fevereiro, é o Dia Mundial de Combate ao Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica, hoje e pelos próximos dias, artigos exclusivos assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia sobre os aspectos mais recentes e relevantes dessa luta pela vida de milhões de pessoas mundo afora, que mobiliza médicos e profissionais de saúde de todo o planeta, todos os dias.

Durante décadas, estudar o câncer foi como tentar compreender uma cidade observando apenas seus habitantes, um a um. Não sabíamos onde viviam, como se organizavam ou com quem interagiam. Faltava o mapa.

Esse cenário começa a mudar com o surgimento de uma nova geração de tecnologias capazes de revelar algo até então invisível e essencial tanto para a pesquisa como para o tratamento: onde os genes estão ativos dentro dos tecidos doentes?

É nesse contexto que emerge a transcriptômica espacial. É uma abordagem que permite mapear a atividade gênica diretamente em cortes de tecido intacto, preservando a localização original das células.

Transcriptômica na pesquisa em câncer

Ao mostrar não apenas quais genes estão ativados, mas em que lugar e em interação com quais células, essa tecnologia vem transformando a compreensão da biologia das doenças.

Seus impactos são particularmente promissores no câncer, ao abrir caminhos para o desenvolvimento de novos medicamentos e estratégias terapêuticas mais precisas.

É nesse campo ainda extremamente novo — e repleto de desafios — que nós, pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (Inca), temos concentrado nossos esforços nos últimos anos.

A integração da transcriptômica de célula única com a abordagem espacial permite compreender a heterogeneidade tumoral com um nível de precisão sem precedentes. Orienta tratamentos mais eficazes e subsidia intervenções em saúde pública.

Acreditamos que essas tecnologias são fundamentais para identificar assinaturas moleculares específicas da população local. E contribui para o aprimoramento da detecção precoce, o direcionamento de programas de rastreamento e a descoberta de novos alvos terapêuticos.

Mais do que um avanço científico importante, trata-se de um passo estratégico para o fortalecimento da ciência nacional. E mais: importante para embasar políticas públicas, decisões de investimento e incorporação de novas terapias no sistema de saúde público e privado.

Potencial clínico e científico

Um exemplo concreto desse potencial é um estudo atualmente em andamento no Inca.

Pelo projeto, geramos dados de célula única e transcriptômica espacial de pacientes com câncer de ovário que não respondem à quimioterapia. E comparamos-os com dados de pacientes que apresentam boa resposta ao tratamento.

O objetivo é identificar marcadores celulares e moleculares capazes de explicar essa diferença de resposta.

A perspectiva é de que, no futuro, esses achados possam ser incorporados à prática clínica.

Contribuir para o manejo terapêutico e a personalização do cuidado das pacientes é o nosso foco.

Como tudo começou

Foi assim que surgiu a necessidade de obter informações neste nível de resolução para os casos da nossa população. E não de populações dos Estados Unidos e Europa, onde a maioria das pesquisas com essa tecnologia ocorre.

Ao tentar implementar esta tecnologia, notamos que era fundamental mapear e evidenciar a histórica sub-represntação dos países da América Latina.

Iniciativas internacionais como a expansão do Human Cell Atlas e os programas de Ancestry Networks da Chan Zuckerberg Initiative já apontavam lacunas para pesquisas da América Latina que mostrassem nossas características diferenciadas de outros povos.

E com isso, reforçar a urgência de uma ação coordenada entre os países da região.

Diante disso, reunimos pesquisadores da América Latina em um esforço colaborativo para compreender necessidades locais, avaliar a capacidade instalada e identificar barreiras estruturais, a partir de inquéritos regionais sistemáticos.

Desigualdades e barreiras

Apesar do potencial transformador dessas tecnologias para a ciência e a saúde, o estudo da transcriptômica em câncer na América Latina enfrenta desafios profundos.

Essas barreiras foram a mola propulsora para a produção de um artigo de reflexão, coordenado por nosso grupo do Inca e, recentemente, publicado.

O estudo foi feito em parceria com pesquisadores do Instituto Wellcome Sanger, do Wellcome Connecting Science, no Reino Unido, e de diversas universidades e institutos da América Latina.

Intitulado Exploring Latin America cell by cell (em português, Explorando a América Latina célula por célula), o trabalho foi publicado no final de 2025 na revista científica Cell - um dos periódicos mais influentes da área.

No artigo, discutimos o enorme potencial da região para oferecer insights únicos sobre diversidade genética, adaptações ambientais e desafios urgentes de saúde, como doenças crônicas não transmissíveis — incluindo câncer e obesidade — e doenças infecciosas endêmicas, como Zika e dengue.

Além do enorme potencial dos dados da América Latina para o campo da transcriptômica, identificamos enormes desafios.

O principal obstáculo foi o financiamento insuficiente, especialmente diante dos altos custos de reagentes e outros produtos consumíveis.

Em nosso estudo, 93% dos pesquisadores apontaram esses insumos como a barreira mais crítica. Em muitos casos, os preços praticados na região chegam a ser o dobro dos valores internacionais.

Outro achado marcante foi o impacto desproporcional dos custos operacionais. Em muitos casos, o gasto anual com reagentes equivale ao orçamento total de um laboratório latino-americano.

Soma-se a isso, o acesso limitado a equipamentos, a concentração de infraestrutura em poucos centros e as dificuldades de colaboração interinstitucional.

Como consequência, observamos um predomínio de pesquisas em bioinformática. Quase 90% dos cientistas trabalham exclusivamente com dados públicos, enquanto apenas 6% conseguem gerar resultados experimentais.

Ainda assim, houve um aumento expressivo no acesso às plataformas de genômica de célula única entre 2022 e 2024 — de 15% para 61% — embora de forma desigual e concentrada em países como Brasil, Chile e México.

Há ainda entraves éticos e regulatórios, além do risco da chamada "pesquisa de helicóptero "— quando cientistas de países de alta renda coletam amostras na América Latina, mas publicam os resultados em revista de impacto internacional, mas com envolvimento e reconhecimento mínimo de cientistas locais.

Caminhos para a superação

Para enfrentar esses desafios, propomos três pilares centrais. O primeiro é o financiamento orientado pela equidade, com subsídios para insumos e priorização de regiões historicamente sub-representadas.

O segundo envolve o investimento em infraestrutura comunitária, incluindo biobancos e instalações compartilhadas em escala continental, que permitam compras coletivas e uso racional de recursos.

Por fim, defendemos o fortalecimento de práticas institucionais e políticas públicas que simplifiquem acordos interinstitucionais, promovam colaborações justas e ampliem a conscientização social e política sobre a relevância estratégica desse campo de pesquisa.

Porque compreender o câncer, afinal, exige mais do que observar células isoladas: exige enxergar o território em que elas vivem.

Esta pesquisa contou com apoio da Wellcome Trust, Wellcome Connecting Science, Chan Zuckerberg Initiative, Royal Society e Fundação do Câncer.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Patricia Abrão Possik recebeu financiamento da WCS, CZI, Royal Society, CNPq

João Paulo de Biaso Viola recebe financiamento da FAPERJ, CNPq, FINEP, CAPES.

Mariana Boroni recebeu financiamento da WCS, CZI e CNPq.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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