Terapia ancestral: plantas medicinais acendem esperança para alternativas mais acessíveis no combate ao câncer
Conhecidas também como Aranto ou Folha Miraculosa, espécies de plantas do gênero Kalanchoe são usadas no tratamento de diversos tipos de inflamação e exemplificam a profundidade e a sofisticação dos saberes tradicionais brasileiros no combate a doenças complexas
Hoje, 4 de fevereiro, é o Dia Mundial de Combate ao Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica, hoje e pelos próximos dias, artigos exclusivos sobre o assunto, assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia.
Atualmente, cerca de 21.3 milhões de pessoas estão acometidas de algum tipo de câncer ao redor do mundo. Provavelmente, menos da metade delas irá sobreviver. É o que dizem os números do "cancer tomorrow" do Globocan, uma ferramenta da Organização Mundial da Saúde.
A ferramenta é capaz de prever a incidência e a mortalidade do câncer no mundo todo. Além da incidência cada dia mais alarmante, o prognóstico da doença é diretamente afetado por diferenças socioeconômicas.
Pobreza, ruralidade e raça se apresentam como barreiras de acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos eficazes. Nesse contexto, o uso de plantas medicinais no enfrentamento do câncer acende uma esperança para a obtenção de novas alternativas terapêuticas mais acessíveis.
Além disso, tal prática constrói, por meio da Etnofarmacologia, uma ponte entre tecnologias ancestrais e lacunas atuais. Essa associação reafirma a importância dos saberes tradicionais, sem se apropriar ou descontextualizar o conhecimento que eles trazem.
Mãe-de-milhares: ancestralidade que se tornou popular
Conhecidas também como Aranto, Folha Miraculosa (uma tradução livre de "Miracle-Leaf"), Folha-da-fortuna e, tradicionalmente, nomeada de Àbàmòdá (nomenclatura Yorubá para Kalanchoe pinnata), as espécies do gênero Kalanchoe carregam simbologia e exemplificam com notável clareza a profundidade e a sofisticação dos saberes oriundos das populações tradicionais brasileiras.
Nessas tradições, as práticas terapêuticas não apenas resistem ao tempo, mas se atualizam e se expandem por meio dos fluxos migratórios internos e da diáspora afrodescendente.
Os terreiros de matriz africana, enquanto espaços de culto, cura e conhecimento, despontam como verdadeiros repositórios de saberes Etnobotânicos e Cosmológicos. Estes saberes articulam corpo, território e espiritualidade.
Reconhecer a relevância desses sistemas de conhecimento na construção de soluções terapêuticas contemporâneas não é apenas uma demanda ética, mas um imperativo científico e político.
Usos litúrgicos e curativos
Diversos relatos indicam que os usos litúrgico e curativo dessas plantas são incorporados à medicina tradicional africana por meio da Cosmologia. Nesta, doenças físicas e espirituais são tratadas conjuntamente.
As plantas são mediadoras entre corpo, território e ancestralidade. Essa rede simbólica e funcional sustentou a circulação destas plantas no contexto da diáspora.
E seu uso permanece ativo em casas de axé no Brasil, reforçando a continuidade do conhecimento ancestral africano nos sistemas religiosos afro-brasileiros.
O uso das espécies de Kalanchoe como plantas medicinais se popularizou tanto no Brasil que é possível encontrar diversos resultados utilizando as chaves de busca: "Aranto medicinal" no Google, apresentando desde reportagens em veículos de grande mídia, artigos em blogs pessoais a vídeos no Youtube®.
Dentre os resultados mais relevantes, encontram-se reportagens que alertam a população sobre o uso indiscriminado destas plantas. E reforçam o cuidado com a divulgação de dados que ainda não foram plenamente confirmados pela ciência.
Uso popular e tradicional x evidências científicas:
Dentre as espécies mais proeminentes estão Kalanchoe pinnata e Kalanchoe daigremontiana, cujo valor ornamental e facilidade de cultivo contribuíram para que se espalhassem pelo mundo.
Ambas são popularmente e tradicionalmente utilizadas como tratamento para feridas, furúnculos, inchaços, dermatoses, hipertensões, doenças proliferativas e do trato gastrointestinal.
Além disso, ajudam a combater inflamações no geral. Diversas evidências científicas contemporâneas vêm de forma progressiva pavimentando um caminho técnico para a elucidação de suas atividades biológicas.
O uso tradicional de Kalanchoe pinnata no alívio de dores de cabeça e como analgésico encontra respaldo em evidências que demonstram seu potencial efeito antinociceptivo, com mecanismos de ação semelhantes à inibição da enzima ciclooxigenase (COX) e à consequente redução de mediadores inflamatórios.
Esses achados também ajudam a esclarecer sua aplicação no tratamento de inchaços, frequentemente associados a quadros de dor e inflamação.
Estudos com extratos aquosos e etanólicos da planta demonstraram propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antimicrobianas.
Os resultados são evidenciados pela redução da área de feridas, diminuição dos níveis de citocinas inflamatórias como IL-1β e TNF-α.
Além disso, há estudos sobre a promoção da angiogênese por meio da indução da expressão do Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF).
A crença em seu uso como diurético, com infusões preparadas a partir das folhas, encontra paralelo em estudos em que demonstraram efeitos hepatoprotetores, antioxidantes e hipoglicemiantes.
Esses estudos sugerem uma ação sistêmica capaz de auxiliar na eliminação de toxinas e no equilíbrio metabólico.
Tais evidências também justificam seu uso tradicional para o tratamento da hipertensão. Neste uso, há fortalecimento da função renal e ação antioxidante que podem contribuir para a regulação da pressão arterial.
Multitarget
Kalanchoe daigremontiana é constantemente citada por sua grande concentração de moléculas bioativas com perfil "multitarget".
Esta espécie possui mecanismos sofisticados de ação como os bufadienolídeos e flavanóide glicosilados. Ela também apresenta relevante ação anti-inflamatória, antioxidante e imunomoduladora.
Seu uso popular no combate a doenças proliferativas (como tumores) encontra respaldo científico em evidências que destacam sua ação antitumoral em células JB6 Cl41( câncer de pele), HeLa (adenocarcinoma de colo do útero), SKOV-3 (câncer de ovário), MCF-7 (adenocarcinoma de mama) e A375 (melanoma maligno) de forma seletiva.
Esta ação acontece por meio da modulação de genes ligados a morte celular e do balanço redox de células de origem tumoral.
Em nosso laboratório, o Labmut, do Departamento de Biofísica e Biometria, do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fizemos a análise da composição química de extratos aquosos de Kalanchoe daigremontiana.
Nossos estudos foram realizados pela técnica de cromatografia líquida de ultra-alta eficiência acoplada à espectrometria de massas de alta resolução. E revelou uma ampla diversidade de compostos bioativos com potencial farmacológico.
Entre esses compostos, estão moléculas com características relacionadas à absorção, distribuição, metabolismo, excreção e baixa toxicidade.
Essas moléculas são relevantes para a prospecção de novos agentes, especialmente no contexto da quimioterapia.
Mais do que um achado químico, o uso de extratos aquosos carrega um significado importante. Ele dialoga diretamente com as formas tradicionais de preparo e uso da planta, amplamente descritas em sistemas de medicina ancestral.
A água, historicamente empregada como solvente em chás, infusões e macerações, não apenas respeita o saber Etnofarmacológico associado à Kalanchoe, como também demonstra ser capaz de extrair compostos biologicamente relevantes. E isso, agora, já é validado por ferramentas analíticas modernas.
Esse encontro, entre tecnologia de ponta e conhecimento tradicional, reforça a ideia de que práticas ancestrais não representam um saber "pré-científico", mas sim um ponto de partida legítimo para a investigação biomédica contemporânea.
Com isso, contribuímos para o desenvolvimento de terapias mais acessíveis, culturalmente contextualizadas e biologicamente eficazes.
Valorização do passado para um futuro sustentável
Em um mundo marcado por profundas desigualdades sociais e por recorrentes formas de violência epistêmica, há algo especial e poderoso quando a comunidade científica se dispõe a investigar esses temas sem se apropriar, silenciar ou deslegitimar os saberes dos quais eles emergem.
É importante reconhecer o pertencimento desses conhecimentos. É fundamental respeitar o contexto histórico, cultural e social em que foram construídos.
E é ainda mais relevante quando conseguimos mobilizar o saber e a tecnologia de um povo no enfrentamento de uma de suas maiores mazelas: o câncer.
Nesse cenário, a interlocução entre ciência contemporânea e saberes tradicionais desponta como um caminho promissor.
Além disso, torna-se eticamente comprometido para a concretização de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. E que não sejam apenas retóricas, mas efetivamente ancorados em equidade.
É importante destacar a preservação da biodiversidade e a justiça social. Ao integrar métodos científicos rigorosos com a medicina ancestral, ampliam-se não apenas as possibilidades de validação científica desses saberes, mas também o acesso a estratégias de cuidado em saúde mais inclusivas.
Pensamos especialmente nas comunidades historicamente marginalizadas e socialmente vulneráveis.
Esta pesquisa recebe apoio financeiros de agências como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), que também financia a publicação deste artigo.
Lays Souza da Silva recebe financiamento da FAPERJ.
Carlos Fernando Araujo Lima de Oliveira recebe financiamento da FAPERJ, CAPES e CNPq.
Israel Felzenszwalb recebe financiamento da Faperj e do CNPq