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Terapias que estimulam cérebro a produzir novos neurônios podem reduzir sintomas de depressão e transtornos afetivos

Trabalhos bem consolidados mostram que os neurônios gerados no hipocampo durante a idade adulta são necessários para a expressão normal dos hormônios relacionados ao estresse.

2 fev 2026 - 13h06
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Em atividades como correr ao ar livre, os fractais visuais das árvores, a irregularidade do terreno e os sons da mata ativam redes de atenção involuntária, permitindo o descanso do córtex pré-frontal e favorecendo a neuroplasticidade, num fenômeno que pode ser descrito como "simbiose neural". Imagem gerada por IA, via Envato Labs, CC BY
Em atividades como correr ao ar livre, os fractais visuais das árvores, a irregularidade do terreno e os sons da mata ativam redes de atenção involuntária, permitindo o descanso do córtex pré-frontal e favorecendo a neuroplasticidade, num fenômeno que pode ser descrito como "simbiose neural". Imagem gerada por IA, via Envato Labs, CC BY
Foto: The Conversation

Uma das descobertas mais notáveis da neurociência moderna é a de que o cérebro adulto é capaz de produzir novos neurônios, em diversas espécies de mamíferos, incluindo humanos. Por mais de 30 anos, a ciência negou essa possibilidade, que foi confirmada por diversos trabalhos importantes.

Além de aumentarem em quantidade, parece que eles desempenham funções relevantes. Várias evidências apontam que esses novos neurônios têm um papel essencial na flexibilidade cognitiva, aprendizagem e especialmente na "memória de separação de padrões", que nos permite recordar situações parecidas evitando que se misturem, como diferentes encontros com a mesma pessoa.

Estudo recente do neurocientista sueco Jonas Frisén, publicado no periódico Science, confirmou que essa neurogênese é contínua no cérebro humano. No entanto, experimentos com animais mostraram que o estresse crônico pode impedir a neurogênese e até mesmo prejudicar a fisiologia normal do cérebro na região do hipocampo.

Isso é um sinal de alerta para quem sofre de transtornos afetivos, incluindo depressão, ansiedade, burnout e transtorno de estresse pós-traumático, que acometem mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ao mesmo tempo, essas descobertas levantam a interessante possibilidade de que terapias inspiradas na neurogênese - incluindo exercícios aeróbicos e meditação - possam se tornar uma ferramenta importante na psiquiatria e psicologia.

Um interesse acadêmico e pessoal

Esse tema é especialmente importante para mim, pois, além de neurocientista do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (ISCO-UFOPA), também lutei por dois anos contra esse inimigo invisível que assola as mentes. Sentia sintomas de depressão e burnout. A sensação fenomenológica, no entanto, era de estar enjaulado, desconectado, sem motivação.

No meu caso, a recuperação definitiva não veio de intervenções farmacológicas, mas de uma mudança radical de ambiente e comportamento que passei a chamar de "Simbiose Neural". É um conceito que trata de uma reconciliação com a natureza, pelo movimento e estímulos sensoriais que ela propicia, para induzir neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de adaptar-se a novas situações.

Publiquei uma revisão da literatura científica sobre esse tema na revista Frontiers in Neuroscience. Nele, reúno evidências científicas recentes sobre o potencial de terapias inspiradas na neurogênese para reduzir os sintomas desses transtornos afetivos. Mas, antes de entrar em detalhes sobre isso, gostaria de destacar algumas teorias que ajudam a entender a relevância desse tipo de abordagem.

Contraste dos antepassados

Se analisarmos a questão sob uma perspectiva evolutiva, é evidente a discrepância brutal entre o ambiente no qual nosso cérebro evoluiu, a partir das savanas africanas e as "selvas de pedra" onde vivemos hoje. Nossos ancestrais passaram 99% da sua história evolutiva como nômades e caçadores-coletores. Nossos genes e circuitos neurais foram esculpidos não apenas para o movimento, mas para o processamento de um ambiente sensorialmente rico.

Daniel Lieberman, biólogo evolutivo de Harvard, chama nossa condição atual de "doença de incompatibilidade evolutiva" (Evolutionary mismatch disease). Ele mostra em seus estudos que a origem de muitas doenças modernas pode ser interpretada como uma falta de sincronia dos nossos corpos com o ambiente atual, rico em alimentos calóricos e escasso em exercício físico.

Ou seja, é um descompasso entre a evolução de nossa biologia e as demandas do dia a dia, resultando em problemas como ganho de peso e dependências comportamentais. E o sedentarismo é apenas parte do problema. Produzimos microplásticos que se acumulam no cérebro e alimentos ultraprocessados que causam câncer. Além disso, há uma pobreza sensorial e motora. Paredes lisas, luz artificial, telas e ar condicionado também fazem parte da nossa evolução desordenada.

É como se estivéssemos tentando rodar um software do Pleistoceno em um hardware moderno. Somos primatas, cujo córtex cerebral expandiu além da nossa adaptação evolutiva. O resultado da nossa privação sensorial e motora em ambientes naturais é um colapso sistêmico do sistema nervoso induzido pelo estresse crônico das sociedades modernas. E isso contribui para desordens afetivas.

Fogo-amigo da imunidade

Outro fator importante, que contribui para desordens afetivas, é o excesso de inflamação no cérebro. Eu também discuti sobre essa questão em outra revisão científica publicada na revista Neural Regeneration Research.

Parte do problema começa na micróglia, que é uma das principais células de defesa do Sistema Nervoso Central contra infecções. Ela patrulha ativamente por microrganismos invasores e, caso algum seja detectado, despeja uma série de respostas químicas e recruta outras células para ajudar a eliminá-los. Apesar de essenciais, algumas vezes essa inflamação acaba matando junto alguns neurônios.

Além disso, essas células também desempenham um papel duplo, matando neurônios após distúrbios neurológicos agudos e crônicos. Parece que o estresse causado por algumas desordens neurais confunde esse sistema, que é acionado de forma errônea. Isso gera o que denominei de "hipótese do fogo-amigo": uma neuroinflamação causada pelo próprio corpo, que pode originar várias desordens afetivas, incluindo depressão e ansiedade.

Como novos neurônios podem ajudar

Acredito que o elo perdido entre o ambiente hostil em que muitos de nós vivemos e a saúde mental seja a neuroplasticidade. Trabalhos bem consolidados mostram que os neurônios gerados no hipocampo durante a idade adulta são necessários para a expressão normal dos hormônios relacionados ao estresse. Camundongos que não têm essa neurogênese respondem pior a diversas situações de estresse.

Alguns estudos já começam a testar o efeito de treinamentos mentais e físicos que visam aumentar a neurogênese no hipocampo de mamíferos. Por exemplo, um programa de condicionamento (MAP-training), proposto pela neuropsicóloga americana Tracey Shors, sugere 30 minutos de meditação com 30 minutos de exercício aeróbico, feito duas vezes por semana durante oito semanas. Estudos científicos mostram que o MAP-Training reduz os sintomas depressivos em pessoas com transtorno depressivo maior e ansiedade.

Especialmente interessantes foram os estudos pioneiros, ainda no final da década de 90, pela neurocientista holandesa Henriette van Praag, à época no Instituto Salk de Estudos Biológicos, em San Diego, Estados Unidos. Ela mostrou que roedores que correm em rodinhas acopladas às suas caixas de laboratório têm 40% a mais de neurônios no hipocampo do que os que não correm. Além disso, gaiolas turbinadas de estímulos motores e sensoriais, também induzem mais neurogênese hipocampal adulta do que os animais criados em gaiolas simples.

Uma revisão publicada na Nature Neuroscience discute que é difícil replicar em humanos os estudos sobre enriquecimento ambiental. Em laboratório, eles comparam situações artificiais e controladas. Em humanos, isso quase nunca é possível. Cada pessoa tem um histórico de vida único, difícil de medir, o que tornam imprecisas comparações diretas.

Ainda assim, o aumento de estímulos relativos tem se mostrado relevante em contextos como a reabilitação após um AVC, por exemplo. Nesses casos, o foco não é comparar resultados finais, mas as trajetórias individuais ao longo do tempo, com integração de diferentes áreas do conhecimento. Além disso, em alguns países, como o Japão, terapias da floresta que usam o contato com a natureza para aumentar a neuroplasticidade já são uma realidade.

Quando fiquei curado de desordens afetivas ao caminhar e correr nos parques da minha cidade, percebi que a natureza é o nosso ambiente enriquecido. Os fractais visuais das árvores, a irregularidade do terreno e os sons da mata ativam redes de atenção involuntária, permitindo o descanso do córtex pré-frontal.

Portanto, acredito que para ter melhores resultados, não basta apenas se exercitar. O exercício em esteira ou ambiente fechado oferece o esforço muscular, mas nega a informação ambiental. A hipótese que defendo é que o chamado "exercício verde", aquele feito em contato com a natureza, gera neuroplasticidade e bem-estar psíquico.

A simbiose neural é essa interação com a natureza estimulando os circuitos cerebrais, simulando o nosso passado evolutivo como caçadores-coletores. Essa ideia foi confirmada por revisão sistemática recente do cientista Andrew Clegg e seus colegas da Universidade de Lancashire, no Reino Unido. Esse estudo mostrou que o exercício físico pode ser ainda mais eficaz do que os antidepressivos modernos e sem efeitos colaterais.

Não podemos esperar milênios para que a evolução nos adapte aos escritórios e às cidades modernas, nossas selvas de pedra. Ao adotar essa mudança, estamos dando ao nosso cérebro um ambiente rico em movimento e estímulos onde ele realmente sabe como funcionar, se reparar e florescer. Precisamos nos conscientizar de que somos primatas que podem dirigir carros, pilotar aviões, escrever artigos, mas que não fomos programados evolutivamente para isso. Temos que buscar a interação com a natureza e cultivar o antepassado caçador-coletor dentro de nós.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Walace Gomes Leal recebe financiamento do Instituto de Saúde Cerebral- INCT CNPQ e OKA Hub - Sebrae Nacional.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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