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Grow reduz operação e tira patinetes de 14 cidades no Brasil

A empresa também anunciou que as bicicletas da Grow estão temporariamente fora de circulação; segundo fontes ouvidas pelo Estado, falta de capital, disputas internas e problemas de mercado afetaram momento da empresa

22 jan 2020
15h04
atualizado às 18h58
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A startup latina de mobilidade Grow, resultado da fusão entre a mexicana Grin e a brasileira Yellow, anunciou que vai reduzir suas operações no País. A partir desta quarta-feira, 22, a empresa vai encerrar o serviço de compartilhamento de patinetes elétricos em 14 cidades - os veículos estarão disponíveis apenas em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Além disso, a companhia vai interromper temporariamente o serviço de compartilhamento de bicicletas em todo o País, para um processo de "checagem e verificação das condições de operação e segurança".

Em comunicado distribuído à imprensa, a Grow também afirmou que fará demissões, mas se negou a fornecer um número de funcionários e parceiros que serão cortados - em várias cidades, a empresa remunera profissionais que recolhem e recarregam a bateria dos patinetes. "Planejar essa reestruturação nos colocou diante de decisões difíceis, porém necessárias para aperfeiçoar a oferta de nossos serviços e consolidar a nossa atuação na América Latina", disse o presidente executivo da empresa, Jonathan Lewy, em nota.

O anúncio da redução das operações da Grow é o segundo baque no mercado de micromobilidade no Brasil. Na primeira quinzena de janeiro, a americana Lime também anunciou que iria encerrar seus serviços em toda a América Latina, com a justificativa de cortar custos - analistas estimam que a companhia teve prejuízo de US$ 300 milhões no ano passado. Mas talvez seja cedo para decretar que este seja o fim do setor de patinetes compartilhados. Segundo fontes ouvidas pelo Estado, a reestruturação da Grow está bastante relacionada a problemas da própria empresa, como falta de capital e disputas internas sobre hierarquia e visão de futuro.

Os patinetes deixarão de operar nas seguintes cidades: Belo Horizonte, Brasília, Campinas (SP), Florianópolis, Goiânia, Guarapari (ES), Porto Alegre, Santos (SP), São Vicente (SP), São José dos Campos (SP), São José (SC), Torres (RS), Vitória e Vila Velha (ES).

Tropeços

Criada em janeiro de 2019, a Grow surgiu a partir de duas empresas promissoras: a mexicana Grin, que espalhou seus patinetes pela América Latina, e a brasileira Yellow, fundada em abril de 2018 por Eduardo Musa, ex-presidente executivo da Caloi, e dois veteranos da tecnologia de mobilidade - Ariel Lambrecht e Renato Freitas, cofundadores do primeiro unicórnio brasileiro, a 99. Em seus primeiros aportes, a Yellow levantou quantias significativas (US$ 9 milhões em investimento semente e US$ 63 milhões na primeira grande rodada de investimentos), o que fez a empresa ser avaliada como "futuro unicórnio" - status mantido após a fusão latina, uma operação que envolveu US$ 150 milhões.

Mas essa promessa não se concretizou: segundo apurou a reportagem com pessoas próximas à empresa, havia a expectativa de que uma nova rodada de aportes acontecesse em meados de 2019. Em abril do ano passado, o 'Estado' chegou a noticiar que a Grow negociou um aporte de US$ 150 milhões, liderado pelo grupo japonês SoftBank - procuradas pela reportagem, tanto a startup como a empresa de Masayoshi Son disse que não comenta o assunto. O aporte levaria a avaliação de mercado da Grow para cerca de US$ 700 milhões. As negociações foram frustradas por divergências sobre números estratégicos, disseram as fontes, o que levou a uma descapitalização da Grow.

Visões diferentes sobre o futuro da empresa também pesaram: desde o início, a Grin apostava no negócio de patinetes, enquanto a Yellow pretendia usar o serviço de bicicletas, mais barato, como porta de entrada para novos usuários. O alto custo de manutenção das magrelas e as disputas internas entre mexicanos e brasileiros também pesaram - após a fusão, a Grin deteve maior poder no conselho de administração da companhia.

Segundo as fontes ouvidas pela reportagem, havia "ciúmes" e indefinição no organograma da empresa, até pela representatividade de São Paulo e Rio de Janeiro como principais mercados de patinetes na América Latina. As disputas levaram à saída de Lambrecht do dia-a-dia da empresa - a assessoria de imprensa da Grow informou ao Estado que o executivo é apenas "fundador e acionista" da companhia. Dessa forma, a startup ficou sem nenhum dos fundadores da Yellow envolvido na operação - Freitas e Musa, por sua vez, já não são mais acionistas da empresa. Sobre os temas acima, a Grow disse que a "reestruturação é uma estratégia da empresa e uma necessidade do mercado, não se baseando em questões de liderança."

Dificuldades

Outros fatores de negócios também influíram para a crise da Grow, como o fato de que os patinetes ainda têm alto custo para muitas pessoas - uma corrida de dez minutos custa em torno de R$ 8. Além disso, há a difícil manutenção, com peças muitas vezes importadas, e o fato de que boa parte dos veículos que chegaram às ruas brasileiras não estavam preparados para o compartilhamento urbano. As bicicletas também sofreram com o mesmo problema, com o agravante de que sua margem de lucro era bem mais baixa. Por conta disso e também pelo poder exercido pela Grin dentro da empresa, as fontes ouvidas pelo Estado não descartam a hipótese de que o serviço de bicicletas seja desativado definitivamente. "Ainda não há previsão para o retorno do serviço", informou a startup. "Estamos em busca de parcerias públicas e privadas para fortalecer e expandir sua operação."

Aposta da empresa para sanar esses problemas e baratear sua operação, a fábrica na Zona Franca de Manaus ainda não saiu do papel - o plano inicial era que a linha de produção entregasse as primeiras unidades no começo de 2020, mas, questionada pelo Estado, a Grow disse que está avaliando como seguirá com o projeto. "Nosso foco é na reestruturação na América Latina", afirmou a startup.

Também pesou o crescimento acelerado da empresa, que saltou de 4 para 17 cidades brasileiras no intervalo de um ano, entre dezembro de 2018 e o mês passado. Segundo fontes, a expansão não levou em consideração características próprias de cada local, como relevo, demanda e até poder de consumo da população. "Cada cidade tem de ser pensada com um projeto próprio, com personalização, não adianta chegar com uma única solução, já pronta", afirmou um analista que preferiu não se identificar.

Por fim, a falta de regulamentação sobre o uso de patinetes gerou crise de imagem para o setor - em julho, a falta de diálogo entre autoridades e startups levou à apreensão de patinetes na capital paulista, em uma movimentação com a qual a Grow bateu de frente com a Prefeitura local.

Estadão
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