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BlaBlaCar completa cinco anos de Brasil com 8 milhões de usuários

Impactada pela pandemia, a startup de caronas intermunicipais está retomando o volume de viagens e espera voltar a crescer 2021; empresa aposta na venda de passagens de ônibus

30 nov 2020 05h11
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A startup francesa de caronas intermunicipais BlaBlaCar completa nesta segunda-feira, 30, cinco anos de operação no Brasil. Desde 2015, a empresa já ofereceu 48 milhões de assentos em viagens no País e acumulou 8 milhões de usuários, segundo dados revelados com exclusividade para o Estadão. É um aniversário simbólico: em 2020, a startup foi impactada pela pandemia e anunciou uma nova frente de negócios, de venda de passagens de ônibus. "Queremos recomeçar em 2021 e retomar o crescimento", diz Ricardo Leite, diretor da BlaBlaCar no Brasil.

A parceria com operadoras de ônibus para venda de bilhetes é uma grande aposta da startup para avançar nos próximos anos no País (e também no mundo) — a nova frente foi lançada em outubro e já envolve empresas como Itapemirim e grupo Santa Cruz. Segundo Leite, a meta é vender mais 900 mil passagens de ônibus por meio da plataforma da BlaBlaCar ao longo de 2021. "Temos hoje quase 50 viações rodoviárias parceiras, e temos como objetivo dobrar o número de contratos no ano que vem", comenta Leite.

A nova frente também é uma tentativa de reação: no início da pandemia, em abril, a empresa viu seu movimento de passageiros cair 15% em relação à operação do mesmo mês do ano passado. O processo de crescimento da startup, que vinha forte em 2019, foi impactado — no ano passado, a empresa saltou de 3,4 milhões de usuários em janeiro para 6 milhões em dezembro.

Porém, a BlaBlaCar diz que tem visto sua operação aos poucos voltar aos trilhos. Segundo a empresa, desde setembro a plataforma tem conquistado 45 mil novos usuários por semana e chegou a oferecer 4,1 milhões de assentos entre agosto e outubro. "Acreditamos que no mês de dezembro vamos chegar no mesmo nível de operação do final do ano passado", afirma o executivo.

Em entrevista ao Estadão, o diretor da BlaBlaCar no Brasil fala sobre os cinco anos de experiência da empresa francesa no Brasil, a cultura de carona no País, e também sobre os efeitos da pandemia e a retomada no negócio.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual é balanço desses cinco anos de BlaBlaCar no Brasil?

Entrei na BlaBlaCar em setembro de 2015 e lançamos o serviço em novembro do mesmo ano. Era uma aposta principalmente na grande população do Brasil— afinal, a França cabe na Bahia. Mas houve desafios: no começo, contratamos uma empresa de pesquisa de mercado que disse que a carona não daria certo no Brasil, porque os brasileiros têm medo. Mesmo assim, deu certo: em 2017 atingimos 1 milhão de usuários. No início, foi muito um trabalho de ensinar para as pessoas o que era a BlaBlaCar, quais eram as vantagens porque éramos confiáveis. Começamos focando no Sudeste, nos concentrando em poucas rotas para conseguir fazer um bom atendimento das buscas dos passageiros. Aos poucos, fomos crescendo para o Sul e Nordeste, passamos a aumentar nossa presença em cidades menores e chegamos agora em 2020 com 8 milhões de usuários — isso em um app de caronas que a empresa de pesquisa de mercado disse que não daria certo no Brasil. Mas tem muito feijão para comer, há um potencial de 150 milhões de usuários de internet. Vamos crescer muito ainda.

Como o sr. explica o avanço da BlaBlaCar no País mesmo com as previsões iniciais pessimistas?

Muita gente no Brasil nunca fez uma viagem, e o principal motivo disso é falta de dinheiro. O maior benefício que a BlaBlaCar traz é economia: uma viagem de São Paulo para Campinas, por exemplo, se o condutor leva dois passageiros na ida e dois na volta, são R$ 80. O valor bruto que a plataforma gera para os usuários fez com que as barreiras iniciais fossem superadas. Além disso, reforçamos funcionalidades como confirmação de documentação, avaliações de motoristas e opções de viagens só com mulheres. E esses recursos da plataforma vão melhorando com o tempo, conforme aumenta a base de usuários.

A BlaBlaCar sofreu um forte impacto no início da pandemia. Há sinais de recuperação?

Em fevereiro de 2020 completamos 18 meses seguidos de crescimento. Naturalmente, no início da pandemia houve um choque — no final de março e a primeira semana de abril foi o mínimo em que nossa operação chegou nesses últimos anos. Agora, em novembro, ainda não estamos no mesmo nível do ano passado, estamos cerca de 10% abaixo de 2019. Mas duas coisas devem ser levadas em conta: em 2019 nós crescemos muito e o mercado rodoviário ainda está sofrendo muito com o cenário. O modelo da carona se mostrou resiliente à crise em comparação com outros modelos de transporte. Nós caímos, claro, paramos o marketing para não incentivar viagens, mas estamos animados. Acreditamos que em dezembro devemos chegar no mesmo nível do ano passado.

Por que a BlaBlaCar está apostando na venda de passagens de ônibus?

Esse serviço vem para resolver três lados de uma equação. Primeiro, um gargalo da BlaBlaCar pela oferta de assentos (mais passageiros procurando por um lugar vazio do que motoristas oferecendo carona). De outro lado, as viações rodoviárias com problemas de demanda. E a terceira ponta é o passageiro, que quer resolver em um só lugar qual é a viagem dele, seja com carona ou ônibus. Há 14 meses atrás, no mercado ninguém acreditava que a BlaBlaCar iria bater na porta das viações rodoviárias e que iríamos conseguir chegar em acordos comerciais sem sermos vistos como inimigos. Fomos quebrando as barreiras que existiam e voilá, como diriam meus colegas franceses.

Empresas digitais como Buser e ClickBus têm feito grandes apostas no mercado de ônibus. Por que a BlaBlaCar tem espaço nessa briga?

Esse mercado hoje é primordialmente offline: as pessoas compram passagem diretamente no guichê. Os serviços online têm muito espaço para crescer. Nosso diferencial é oferecer também a carona e assim ter um trunfo de uma oferta intermodal. Esse projeto de venda de passagens de ônibus é projeto global da BlaBlaCar, temos mais de 90 milhões de usuários no mundo todo e estamos investindo nisso.

Agora com os ônibus na BlaBlaCar, qual é o lugar das caronas?

A carona gera muito valor na capilaridade em cidades menores, ela cumpre essa função de conexão com municípios que não conseguem ser bem servidas por veículos grandes. Ao mesmo tempo, pode ser uma conveniência para viagens a cidades maiores, evitando o transporte até a rodoviária. Até o final do ano passado, tínhamos caronas em 2,7 mil municípios no Brasil e agora no final de 2020 temos caronas em mais de 3 mil cidades.

Quais são os planos da BlaBlaCar para 2021?

Queremos consolidar a venda de passagens de ônibus: a meta é vender mais de 900 mil bilhetes no ano que vem, o que dá mais de R$ 80 milhões em faturamento. Temos como objetivo também dobrar o número de contratos com empresas rodoviárias. Na parte de caronas, apesar do nível de incerteza quanto à pandemia ainda ser grandes, queremos recomeçar em 2021 e retomar o crescimento.

Como o sr. imagina a operação da BlaBlaCar daqui a cinco anos no Brasil?

Até 2022 queremos triplicar o número de caronas que oferecemos e nos tornar a maior plataforma de viagens rodoviárias de longas distâncias no Brasil. Quanto ao número de cidades, esperamos conseguir atender rotas em 3.500 municípios.

Estadão
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