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Entenda o que é a Libra, a moeda do Facebook

Moeda digital criada por associação de 28 empresas só passará a valer em 2020, mas pode ter impacto no mercado de meios de pagamento e até na economia global

2 jul 2019
05h11
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Maior empresa de redes sociais do mundo, o Facebook mira agora um novo mercado: o de serviços financeiros. Para expandir seus negócios, a empresa criada por Mark Zuckerberg anunciou recentemente a criação da Libra, uma moeda digital que promete ser mais estável que as criptomoedas já existentes e acessível à população. Para poder usá-la, tudo o que bastaria seria um smartphone, conta na rede social e um documento de identificação, como o CPF.

O Facebook pretende lançar a libra no primeiro semestre de 2020
O Facebook pretende lançar a libra no primeiro semestre de 2020
Foto: Facebook / Estadão

Se adotada em larga escala, a Libra poderá mudar a dinâmica da economia global - afinal de contas, seria uma moeda privada, sob a qual os bancos centrais dos países não teriam muito poder de atuação, apenas de regulamentação. Além disso, as empresas de pagamento convencionais estariam em risco, já que as transações poderão ser feitas via WhatsApp ou Messenger - e isso vale para operações simples do dia a dia, como o pagamento de boletos por leitura de código de barras, e também transferências milionárias.

O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e a previsão é de que a nova moeda chegue em 2020. Mas fique por dentro do que já se sabe sobre a Libra.

O que é Libra?

Libra é a criptomoeda que o Facebook pretende lançar em 2020. Com ela, será possível realizar pagamentos e transferências com taxas de juros mais baixas que as praticadas atualmente, pois a moeda poderá ser movimentada via Messenger e WhatsApp, por exemplo, e ainda ser usada em diferentes plataformas de pagamento e carteira digital, como o PayPal e o Mercado Pago.

Por que a Libra foi criada?

A Libra foi criada com o objetivo de se tornar um dinheiro universal e de fácil transação. " Queremos uma moeda global e uma estrutura financeira que permita milhões de pessoas a ter acesso à economia do mundo e guardar seus bens com segurança", disse ao Estado o líder da área de blockchain do Facebook, David Marcus, responsável pelo projeto.

Fed acredita que a libra, moeda do Facebook, deve encontrar regulação
Fed acredita que a libra, moeda do Facebook, deve encontrar regulação
Foto: Facebook / Estadão

A quem é destinada?

A todas as pessoas - mas em especial a quem tem um celular na mão e não possui uma conta no banco. Enquanto o Facebook tem 2,7 bilhões de usuários em seus diversos apps, o Banco Mundial diz que há 1,7 bilhão de pessoas desbancarizadas em todo o planeta.

Uma moeda online atrelada a uma rede social poderia permitir que o dinheiro se movesse com maior rapidez entre países, especialmente em regiões emergentes, onde é difícil que pessoas comuns abram contas de banco ou façam compras online. Tudo o que bastaria para poder movimentar a Libra seria um documento de identificação, como o CPF, um smartphone e acesso à rede social - os detalhes, no entanto, devem ser definidos.

Como vai funcionar?

Para operar as transações da moeda, o Facebook criou uma empresa subsidiária, a Calibra. Ela oferecerá a carteira digital pela qual será possível realizar as transações, que vão desde serviços do dia a dia, como o pagamento de contas e compras com a leitura de código de barras, até a transferência de grandes quantias monetárias.

O Facebook vai administrar a Libra?

Não, a responsável pelo gerenciamento da moeda e da subsidiária será da Libra Association, fundação global sem fins lucrativos, que está encarregada de administrar o tesouro da moeda, criar especificações técnicas e promover a iniciativa do Facebook.

A fundação, por mais que tenha sido criada pelo Facebook, terá funcionamento autônomo ao da rede social. A sede não será nos Estados Unidos, mas sim em Genebra, na Suíça.

Todos os 27 membros-fundadores terão os mesmos poderes que o Facebook. Cada um dos participantes colaborou com uma quota mínima de US$ 10 milhões para compor as reservas da moeda. A meta da associação é atingir a marca de 100 membros até 2020, o que injetaria no mínimo US$ 1 bilhão em seu tesouro.

E quem são os membros-fundadores?

Entre eles, estão nomes tradicionais do mercado financeiro ( Visa, Mastercard e PayPal), empresas de tecnologia ( Uber, Lyft,Spotify e eBay) e fundos de capital de risco do Vale do Silício (Ribbit Capital e Thrive Capital).

Todos os membros fundadores da Libra Association 
Todos os membros fundadores da Libra Association
Foto: Facebook / Estadão

A Libra é segura?

Em termos de lastro, a Libra tem um tesouro real próprio - cada um dos participantes do consórcio Libra Association, que definirá suas regras, teve de fazer um depósito de US$ 10 milhões. Esses recursos estarão atrelados a depósitos bancários e títulos públicos bancos centrais estáveis e governamentais, para evitar a alta volatilidade.

Mas e a privacidade?

Os dados de usuários da rede social não serão compartilhados com o lado financeiro do Facebook. E as transações financeiras não servirão de base para exibição de propagandas. Porém, é possível que os dados podem ser compartilhados com terceiros para a prevenção de ações criminosas ou fraudulentas ou para atender exigências legais dos países onde atua, explicou Marcus. Mas há ceticismo por boa parte da população, já que o Facebook já esteve envolvido em grandes escândalos de uso de dados pessoais.

Como adquirir a Libra?

Ainda não é possível, uma vez que a moeda só estará no mercado em 2020. Os detalhes ainda não foram definidos, mas é possível esperar que seja possível comprar a moeda a partir dos aplicativos dos membros fundadores da Libra Association, pelo celular.

No futuro, Facebook pode oferecer serviços financeiros

Inicialmente, o Facebook diz que não mira realizar lucro com taxas. A rede social espera que pequenos vendedores aumentem suas vendas, e, consequentemente, anunciem mais em sua plataforma. Mas é uma estratégia de curto prazo.

Questionado pelo Estado, o Facebook não descarta oferecer serviços financeiros por meio da Calibra. "Definitivamente, vamos oferecer serviços de crédito", afirmou Kevin Weil, vice-presidente de produto da subsidiária.

Apesar disso, David Marcus não descarta que bancos se associem à iniciativa. "Mesmo que ofereçamos serviços similares no futuro, será bom, pois haverá maior competição na área financeira", diz o executivo, que ainda vê as instituições tradicionais com papel fundamental no sistema financeiro.

O que vai mudar se a Libra for realmente lançada?

Se adotada, a moeda poderá afetar as empresas de meios de pagamento, uma vez que a Libra também vai realizar o processamento das transações, no lugar de empresas de adquirência (as chamadas maquininhas), por exemplo.

E o real? Como fica a moeda nacional?

Ainda não é possível saber qual será a equivalência para o real, ou para qualquer outra moeda, mas o Facebook alega trabalhar diretamente com reguladores, legisladores e outras autoridades em diversos países para evitar quaisquer problemas regulatórios.

Os governos locais não vão ter muito controle sobre a Libra, porque se trata de uma moeda privada. Logo, quem a controla não estará subordinado a governo nenhum, analisou o PhD em economia pela Universidade de Chicago e professor da FEA-USP Rodrigo de Losso.

O presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, já disse que a libra estará sujeita à regulação. No território francês, a moeda digital precisa respeitar as regras contra lavagem de dinheiro, e seus apoiadores precisam buscar licenças se pretenderem lançar serviços bancários, afirmou o presidente do banco central da França. Já o diretor do Banco da Itália pediu mais informações sobre o projeto do Facebook.

Procurado pelo Estado, o Banco Central do Brasil não quis comentar o assunto.

Estadão
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