São Francisco de Assis: de frade humilde à influência global. Entenda o paradoxo de sua fama
São Francisco de Assis viveu na pobreza e fundou a ordem franciscana, mas sua trajetória pós-morte é marcada pelo paradoxo de uma grandiosa fama mundial. Canonizado rapidamente, inspirou artistas e a ecologia moderna, além do Papa Francisco. Ao longo dos séculos, sua imagem multifacetada foi desde manipulada pela propaganda fascista de Mussolini para glorificar sacrifícios de guerra até celebrada como símbolo histórico de diálogo, pacifismo e preservação ambiental perante o mundo contemporâneo.
Santo católico renunciou à riqueza para se tornar um frade mendicante. Ao longo da história, seus ensinamentos e sua vida inspiraram papas, Dante e até mesmo Mussolini.Há um paradoxo entre a vida e a trajetória pós-morte de São Francisco de Assis. Ele abraçou a pobreza, mas hoje está sepultado em uma grandiosa basílica em sua cidade natal, Assis, na Itália, adornada com afrescos de renomados artistas medievais.
Defendeu a humildade, mas uma multidão se mobilizou no início deste ano para venerar seus restos mortais, expostos ao público para marcar os 800 anos de sua morte, ocorrida em 3 de outubro de 1226.
Por que, então, esse santo católico inspirou encíclicas papais, ativismo ecológico, rituais de bênção de animais ao redor do mundo e até mesmo a propaganda do ex-líder fascista italiano Benito Mussolini? E o que Francisco pensaria dessa fama, que evitou enquanto esteve vivo?
Da riqueza à pobreza
Nascido em Assis, cidade montanhosa do centro da Itália, em 1181 ou 1182, recebeu inicialmente o nome de Giovanni di Pietro di Bernardone. Seu pai, comerciante de tecidos com laços comerciais com a França, passou a chamá-lo de Francesco.
Os primeiros hagiógrafos franciscanos, escritores medievais que registraram sua vida e moldaram a forma como as gerações posteriores o compreenderiam, o descrevem como um jovem animado e sociável, que gostava de cantar, participar de festas e desfrutar dos privilégios da riqueza.
No entanto, ele não queria seguir os negócios do pai. Seu sonho era se tornar cavaleiro. Em 1202, Francisco juntou-se às forças de Assis em uma batalha contra a vizinha Perugia. Foi capturado, passou um ano na prisão e voltou para casa abalado e doente. Esse episódio, juntamente com uma série de acontecimentos posteriores, provocou uma lenta mudança em sua visão de mundo.
Um desses momentos ocorreu na pequena e arruinada igreja de São Damião, nos arredores de Assis, onde Francisco acreditou ouvir Jesus Cristo chamá-lo para "reconstruir minha Igreja". Interpretando a mensagem literalmente, começou a restaurar capelas da região. Quando o dinheiro acabou, vendeu tecidos da loja do pai, o que enfureceu o comerciante e levou a um episódio dramático na praça principal de Assis.
Diante do bispo e dos habitantes da cidade, Francisco se despiu de suas roupas finas e renunciou ao pai, à herança e a todos os confortos materiais. Comprometeu-se então com uma vida de pobreza, humildade, cuidado com os pobres e os doentes e profunda ligação com a natureza.
Um santo próximo das pessoas
Como pregador itinerante, reuniu seguidores e acabou fundando a Ordem dos Frades Menores, conhecida hoje como os franciscanos.
Amplamente considerado o primeiro santo a receber milagrosamente os estigmas, feridas físicas semelhantes às do corpo crucificado de Jesus Cristo, Francisco foi canonizado pelo papa Gregório 9° em 16 de julho de 1228. Esse reconhecimento excepcionalmente rápido ampliou sua fama para além de Assis.
Nos séculos seguintes, tornou-se um dos santos mais retratados na arte ocidental, inspirando obras que vão da "Divina Comédia", de Dante, a filmes, livros infantis e até uma história em quadrinhos da Marvel publicada em 1980.
"A maioria dos santos é vista como inacessível ou distante, mas a história de conversão de Francisco e seu desejo de manter uma relação positiva com os outros, com Deus e com o restante da criação toca pessoas de diferentes épocas e culturas", afirmou o teólogo Daniel P. Horan, ex-frade franciscano.
Segundo a historiadora cultural Amanda Minervini, esse amplo apelo também explica a capacidade de adaptação de Francisco em diferentes épocas. "Em Francisco, parece haver algo para todos: o pacifista, o asceta, o pedreiro, o ambientalista, o minimalista, o amante dos animais que também é amado por eles, o diplomata, o místico, o radical, o artista performático e até o modelo de uma forma diferente de masculinidade."
Mascote pacifista de um regime fascista
Minervini observa que a imagem de Francisco foi reconstruída diversas vezes ao longo da história. Sua pesquisa destaca um exemplo particularmente desconcertante: a apropriação política do santo pelo regime fascista de Benito Mussolini. Segundo a historiadora, a retórica fascista manipulou os estigmas de Francisco, reinterpretando-os como símbolos de sofrimento heroico e sacrifício. "As feridas do santo eram evocadas para glorificar o sacrifício e inspirar os jovens italianos a ir para a guerra."
Ao observar que Mussolini decidiu se rebatizar em 1927 para fortalecer sua aliança com o Vaticano, Minervini acrescenta: "São Francisco oferecia um meio particularmente útil de conferir legitimidade religiosa ao poder político."
A pesquisa da historiadora mostra que o pacifismo de Francisco, "provavelmente porque conhecia o significado da guerra", foi deliberadamente minimizado. O livro reproduz uma nota confidencial enviada a capelães militares em 1929, na qual havia preocupação de que eles pregassem ideais de paz às tropas.
"Esse documento fornece evidências claras de que a paz era um aspecto do legado de Francisco que os grupos fascistas buscavam suprimir, e não promover."
Além disso, depois que a Itália, antiga integrante do Eixo ao lado da Alemanha nazista, mudou de lado e se juntou aos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, estes muitas vezes se mostraram dispostos a tolerar ou ignorar crimes italianos, em vez de investigar profundamente o passado fascista do país. "Nesse contexto, muitos fascistas permaneceram em seus cargos, e a imagem politicamente comprometida de Francisco foi discretamente deixada de lado", explica Minervini.
Embaixador medieval da paz
Apesar disso, Francisco permaneceu associado à promoção da paz. Em 1219, durante a Quinta Cruzada, ele viajou com o exército cruzado até Damieta, cidade portuária do norte do Egito, e obteve autorização para atravessar as linhas inimigas e encontrar-se pessoalmente com o sultão Malik al-Kamil. Seu objetivo era converter o governante muçulmano e pôr fim ao conflito sangrento.
Minervini descreve a iniciativa como "algo extraordinariamente audacioso". Embora o encontro não tenha produzido a conversão nem o avanço político que Francisco talvez desejasse, seu retorno ileso garantiu destaque ao episódio nas fontes da época.
Horan acrescenta que, apesar de os cristãos enxergarem os muçulmanos como inimigos naquele período, São Francisco "não compartilhava dessa visão desumanizadora" e valorizava "a humanidade comum e a fraternidade que reconheceu no sultão".
De frade mendicante a ícone climático
Hoje, porém, Francisco é mais conhecido por seu amor aos animais e por ser visto como uma figura precursora da consciência ambiental. "Ele estava à frente de seu tempo tanto do ponto de vista teológico quanto sob a ótica das ciências naturais modernas, ao reconhecer a complexidade do cosmos e o fato de que os seres humanos também são criaturas em relação com o mundo ao seu redor", afirma Horan.
Em 1979, o papa João Paulo 2° declarou Francisco padroeiro da ecologia. Já o argentino Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome do santo ao se tornar o papa Francisco, em 2013.
Dois anos depois, o pontífice publicou a encíclica "Laudato Si'", inspirada no hino de 1225 conhecido como "Cântico das Criaturas", no qual Francisco se dirige aos elementos da natureza como "irmão Sol", "irmã Lua" e "irmã mãe Terra".
O documento papal relaciona diretamente a destruição ambiental ao sofrimento humano, critica o consumismo e a "cultura do descarte" e conclama a humanidade a passar por uma "conversão ecológica".
"Também acredito que, em uma época de profunda polarização e desigualdade econômica, São Francisco oferece outro modo de estar no mundo, que prioriza as relações humanas e a comunidade em vez do ganho individual e do poder", diz Horan.
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