Saída dos EUA de órgãos multilaterais abre janela para China
Sob Trump, Washington abandonou diversas organizações multilaterais, abrindo novas oportunidades para Pequim liderar a agenda internacional. O que busca o regime de Xi Jinping?Em janeiro, mesmo mês em que os Estados Unidos anunciaram sua saída de 66 organizações multilaterais, a China recebeu líderes canadenses, finlandeses e britânicos.
Na ocasião, o presidente chinês, Xi Jinping, disse ao premiê britânico, Keir Starmer, que a ordem internacional está "sob grande pressão" e defendeu a construção de um "ordeiro mundo multipolar".
A mensagem não é novidade na retórica diplomática chinesa, mas tornou-se mais recorrente em meio à retirada dos EUA dos palcos internacionais, especificamente de iniciativas que tratam de mudanças climáticas, trabalho e migração - áreas que o presidente Trump considera parte da agenda progressista "contrária aos interesses" nacionais.
Enquanto isso, a China segue fazendo parte dessas entidades agora desprezadas pelos EUA, e tem se destacado globalmente.
E a expectativa é de que a influência global chinesa cresça ao longo da próxima década, segundo uma pesquisa de opinião recente realizada em 21 países - dez deles membros da União Europeia - pelo think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR, na sigla em inglês).
"A diferença de poder [entre a China e os EUA] era bem mais clara no passado", pontua Claus Soong, analista do think tank berlinense Instituto Mercator para Estudos da China (Merics). "Agora, esse gap está cada vez menor."
Embora os EUA ainda sejam a nação mais poderosa do mundo, afirma Soong, a China os está alcançando "muito rapidamente".
China corteja o Sul Global
O Sul Global - termo que engloba os países emergentes e em desenvolvimento - foi por muito tempo um ator central na estratégia diplomática da China. Um dos esforços mais visíveis neste sentido é a Nova Rota da Seda, um vasto programa de investimentos em infraestrutura lançado em 2013, destinado a expandir a influência de Pequim nos continentes asiático, africano, europeu e latino-americano.
"Um líder precisa de seguidores para apoiar ou justificar sua liderança", afirma Soong. E o apoio do Sul Global é decisivo para China diante da resistência do Ocidente.
No início do ano, a China divulgou uma série de dados que sugerem que sua economia tem resistido à pressão crescente dos Estados Unidos durante o segundo mandato de Donald Trump. A economia chinesa cresceu 5% e quebrou recorde de exportações em 2025. O bom resultado foi atribuído, em grande parte, às exportações para fora dos EUA, especialmente para o Sudeste Asiático.
Mas a estratégia da China também tem seus limites e riscos. Nos últimos anos, o país deu alguns passos para trás em sua Nova Rota da Seda, priorizando investimentos menores e mais focados diante do aumento dos riscos financeiros e do receio de países parceiros em se endividarem .
"A economia é uma questão central. Quão sustentada estava a economia chinesa? O que mais a China está disposta a dar a outros países?", questiona Soong.
Parcerias baseadas em oposição à agenda dos EUA
Os laços estreitos da China com a Rússia e a Coreia do Norte também despertaram temores sobre o impacto de parcerias autoritárias no cenário global. Xi esteve em 2025 com os líderes dos dois países em uma parada militar em Pequim, sinalizando o alinhamento da China com as duas nações vizinhas em termos de política e segurança.
A pesquisadora Sabine Mokry, do Instituto para Pesquisa em Paz e Políticas de Segurança da Universidade Hamburgo, afirma que cada parceiro autoritário da China cumpre um papel diferente na estratégia chinesa. "O governo chinês está tentando descobrir o que pode conseguir de cada regime", diz ela.
Um resultado tangível dessas relações pôde ser visto na Assembleia Geral das Nações Unidas. A China tem cada vez mais se alinhado com seus parceiros nas votações do órgão, especialmente em temas relacionados a direitos humanos e em resoluções envolvendo a Ucrânia.
Ainda assim, Mokry afirma que essa parceria tem sido transacional, mais baseada numa oposição aos EUA do que em valores comuns. "Se há uma oportunidade de mostrar que eles [China e outros países] cooperam, eles obviamente vão aproveitar isso. Mas a verdade é que ainda existe uma desconfiança profunda", ressalta ela.
China não tem pressa em substituir os EUA
Nos últimos anos, a China tem enfatizado a narrativa de que é uma potência responsável e estabilizadora, especialmente em contraste com o que chama de "hegemonia" americana. Mas analistas creem que o objetivo de Pequim, em última instância, não é substituir a ordem global liderada pelos EUA por uma versão chinesa. Em vez disso, o objetivo do governo chinês parece ser assegurar a permanência no poder do partido comunista.
"Não é uma ambição do tipo 'tomar o mundo'", afirma Mokry. As motivações da China, segundo ela, têm que ser vistas sempre do ponto de vista da sobrevivência do regime. A pesquisadora cita o exemplo do primeiro mandato de Trump, de 2016 a 2020, quando os EUA também abandonaram diversos órgãos e tratados multilaterais. À época, a expectativa era de que a China assumiria o vácuo de liderança deixado pelos americanos, mas isso não ocorreu.
Soong, do Merics, faz uma análise semelhante e diz que é improvável que a China vá assumir a liderança de todas as instituições das quais os EUA se retiraram - exceto nos casos em que isso atenda explicitamente a interesses de segurança nacional.
Um exemplo disso, aponta, é a influência chinesa sobre a Organização Mundial da Saúde (OMS) , da qual Taiwan - território reivindicado pela China - continua a ser excluída. Este fato tem sido repetidamente citado pelos EUA, especialmente durante a pandemia de covid-19, como uma das razões para a sua saída do órgão.
China quer assegurar hegemonia na Ásia
Essa atuação seletiva é apontada por analistas como sinal de um objetivo mais amplo da China: em vez de dominar o sistema global, reduzir a influência americana em regiões que considera estratégicas, especialmente na região Ásia-Pacífico.
Nos últimos meses, a China intensificou sua presença militar ao redor de Taiwan e no Mar do Sul da China, palco de tensões recentes com as Filipinas por causa de disputas territoriais.
"Pequim ficaria extremamente satisfeita se pudesse fazer o que quiser na Ásia", afirma Mokry. Mas o engajamento americano na região é tão importante, segundo ela, que livrar-se dos EUA "não deve ser assim tão fácil".