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Podia ter melhorado, mas ficou igual: as frustrações de 2014

12 dez 2014
18h40
atualizado em 18/12/2014 às 09h04
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Todo começo de ano nós, brasileiros, renovamos as esperanças de que problemas crônicos do País possam, finalmente, melhorar. Que a Justiça puna independentemente da classe social, que obras de infraestrutura saiam do papel e que áreas críticas como saúde, educação e segurança mostrem alguma evolução. No caso de 2014, a expectativa era ainda maior. Aconteceria a primeira eleição depois das marcantes manifestações de junho de 2013 e o País receberia um evento internacional que, se supunha, aceleraria investimentos e obras. Pois o ano está para acabar e muito ficou por fazer. Em pelo menos 10 áreas, os brasileiros terão que renovar as esperanças para 2015. Confira.

Legado da Copa do Mundo

<p>Prometido para a Copa, as obras do monotrilho na zona sul de São Paulo já tiveram um acidente fatal e só devem ficar prontas em 2016</p>
Prometido para a Copa, as obras do monotrilho na zona sul de São Paulo já tiveram um acidente fatal e só devem ficar prontas em 2016
Foto: Bruno Santos / Terra

Os gringos vieram para o País, dançaram samba, beberam caipirinha e fizeram a farra junto com os brasileiros. A Copa do Mundo transcorreu bem (apesar do 7 a 1 para a Alemanha), mas muitas obras de infraestrutura programadas não ficaram prontas para o grande evento. Pior: algumas devem terminar o ano ainda como promessas. Ao todo, 23 promessas não terminaram a tempo para a Copa do Mundo e 45 projetos ficaram incompletos.

Entre elas estão a ampliação de cinco aeroportos em cidades sede que não foram concluídas para receber os turistas. Em Fortaleza e Manaus as obras não estão prontas até hoje.

As obras de mobilidade tiveram atrasos ainda maiores. Em São Paulo, o monotrilho que ligaria o aeroporto de Congonhas à rede de trens da cidade deve ficar pronto apenas em 2016, de acordo com o governo do Estado de São Paulo. Em Natal (RN), obras de drenagem ao redor da Arena das Dunas, pavimentação de calçadas, esgoto e uma faixa de ônibus também não estão prontos. No Recife, três corredores de ônibus prometidos até hoje não existem, assim como um em Porto Alegre, cidade que coleciona obras inacabadas. Veículos Leves Sobre Trilhos (VLTs) também não foram entregues até dezembro em Fortaleza, Brasília e Cuiabá.

Fim do Financiamento empresarial de campanhas
Um velho ditado chinês diz: “quem paga a orquestra escolhe a música”. O mote tem sido usado para exemplificar a relação entre as empresas doadoras para campanhas de candidatos e ações muitas vezes nada republicanas de alguns políticos. Apenas as empresas investigadas na Operação Lava Jato da Polícia Federal, por exemplo, doaram cerca de R$ 100 milhões às duas candidaturas para a Presidência que foram para o segundo turno neste ano. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Dias Toffoli, defendeu, em entrevista, o fim do financiamento empresarial de campanhas: “sou contrário à participação das empresas (no financiamento eleitoral)", disse o ministro. Além dele, figuras díspares como José Serra (PSDB) e a presidente Dilma Rousseff (PT) também se mostraram favoráveis à mudança.

<p>O presidente do TSE, Dias Toffoli, e o ministro Gilmar Mendes</p>
O presidente do TSE, Dias Toffoli, e o ministro Gilmar Mendes
Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

Em abril deste ano, o Superior Tribunal Federal (STF) retomou o julgamento de uma ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que considera inconstitucional o financiamento empresarial de campanhas. Ao todo, seis ministros haviam votado a favor da mudança e um contrário. Como faltavam apenas quatro ministros para votar, a alteração nas regras parecia inevitável, mas o ministro Gilmar Mendes pediu vista e a decisão final foi adiada. Mendes parece estar estudando com afinco a matéria, já que até hoje o julgamento não foi retomado.

USP em baixa
Depois de anos com frequentes paralisações e problemas, a esperança era de que em 2014 as coisas se acertassem na Universidade de São Paulo (USP). Uma das mais prestigiosas instituições de ensino do País, porém, passou, novamente, por uma série de percalços e escândalos neste ano que se encerra.

Foto: Luiz Claudio Barbosa / Futura Press

Foi em 2014, por exemplo, que a instituição caiu de posição em um dos mais prestigiados rankings internacionais que comparam universidades de todo o mundo: o da Quacquarelli Symonds (QS). Também veio à tona a grave crise financeira. Com o pagamento da folha salarial correspondendo a 106% do orçamento total, as reservas monetárias da universidade secaram. A divulgação dos salários dos funcionários da universidade mostrou ainda que 2 mil deles ganham salários acima do teto constitucional de R$ 20.622, o salário atual do governador de São Paulo.

E como que para coroar o ano ruim, houve uma morte polêmica no campus da universidade e, no apagar das luzes de 2014, desnudou-se o escândalo de abusos sexuais na prestigiosa Faculdade de Medicina.

Criminalização da homofobia
Em 2013, pelo menos 312 gays, lésbicas e travestis foram assassinados no Brasil, segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia (GGB), uma média de um homicídio a cada 28 horas. De acordo com a entidade, a maioria dos crimes foi cometida por homofobia. De janeiro deste ano até o dia 21 de setembro, ao menos 216 assassinatos também tiveram a homofobia como motivação, de acordo com o GGB.

Beijaço LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) no vão livre do MASP, na Avenida Paulista, na região central de São Paulo
Beijaço LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) no vão livre do MASP, na Avenida Paulista, na região central de São Paulo
Foto: Gabriela Biló / Futura Press

Para tentar conter a violência contra o grupo LGBT, causada pela intolerância, desde 2001 tramita no Congresso o projeto de lei 122, que prevê a criminalização da homofobia. Em abril deste ano, o governo reformulou o texto e tudo indicava que haveria movimentação para sua votação, mas vieram as eleições e não aconteceu. O medo dos diversos partidos de perder apoio dos segmentos evangélicos e conservadores da sociedade, contrários à aprovação da lei, fez o projeto ser deixado de lado por mais um ano. Atualmente, ele se encontra na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado.

Questão indígena
Não foram poucos os protestos de índios ocorridos em Brasília neste ano. Se a situação dos primeiros povos do País nunca foi boa, em 2014 eles não tiveram o que comemorar.

<p>Índios entram em confronto com seguranças durante protesto contra política indígena do governo da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto em Brasília em 4 de dezembro de 2013</p>
Índios entram em confronto com seguranças durante protesto contra política indígena do governo da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto em Brasília em 4 de dezembro de 2013
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Em setembro, a 2 ª turma do Superior Tribunal Federal (STF) mudou entendimento da própria corte quanto às áreas indígenas. Em julgamento de demarcação da Terra Indígena Guyraroká, no Mato Grosso do Sul, a turma entendeu que eles não teriam direito ao terreno, pois não viviam lá em 1988, ano de promulgação da Constituição Federal, que estabeleceu as regras para a demarcação. Os índios argumentam que não estavam no local justamente por terem sido expulsos à força. O novo entendimento pode influenciar, em desfavor dos índios, centenas de outros processos de demarcação. O Ministério Público Federal recorreu da decisão.

Além disso, o resultado das eleições deste ano fortaleceu a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) - historicamente contrária aos interesses indígenas -, que passou de 205 parlamentares para 263. A líder da bancada ruralista no Congresso, Kátia Abreu (DEM-TO), ainda deve ser a próxima ministra da Agricultura.

Saúde
Hospitais com corredores superlotados são imagens que se repetem em reportagens sobre o sistema público de saúde brasileiro. Neste ano, o fechamento da enfermagem da emergência da Santa Casa de São Paulo mostrou que a crise persiste no setor. O hospital, considerado referência no Estado, lacrou a ala por uma dívida de R$ 400 milhões com fornecedores. Apesar de reaberta, a instituição ainda vive problemas financeiros crônicos.

Paciente em frente ao prédio da Santa Casa em São Paulo
Paciente em frente ao prédio da Santa Casa em São Paulo
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press

A situação da Santa Casa reflete um problema que pouco se alterou em 2014. De acordo com pesquisa Datafolha realizada em agosto deste ano, 93% dos brasileiros consideram os serviços públicos e privados de saúde no País regulares, ruins ou péssimos.

Violência policial
“O gigante acordou” foi o mote dos protestos que tomaram as ruas em 2013. “E apanhou”, alguém poderia completar. A violência policial – problema histórico no Brasil, principalmente em áreas mais pobres - tomou o noticiário ao se voltar contra manifestantes e jornalistas, sem distinção de classe.

<p>Fotógrafo do Terra, Mauro Pimentel, é atingido pelo cacetete de um PM durante cobertura de protesto contra a realização da Copa do Mundo </p>
Fotógrafo do Terra, Mauro Pimentel, é atingido pelo cacetete de um PM durante cobertura de protesto contra a realização da Copa do Mundo
Foto: Mauro Pimentel / Terra

Em 2014, o descontrole de parte das policiais continuou. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o número de mortos em confronto com as polícias civil e militar no Estado praticamente dobrou nos nove primeiro meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2013, passando de 246 mortes para 489. No Rio de Janeiro, o aumento foi de 40%, passando de 342 para 479. Ambos são os Estados em que a polícia mais mata no País.

Campanha eleitoral propositiva
Chegam as eleições e é hora de ouvir propostas para solucionar nossas mazelas. É o que se espera, mas não o que se viu no 2º turno da campanha presidencial de 2014. Ao invés de propor o debate, os então candidatos Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) partiram para o ataque, deixando o eleitor no meio do fogo cruzado.

Mediado pelo jornalista William Bonner, debate da Globo foi o último do segundo turno
Mediado pelo jornalista William Bonner, debate da Globo foi o último do segundo turno
Foto: Ale Silva / Futura Press

A petista preferiu atacar as gestões do tucano no governo de Minas Gerais e a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC); Aécio mirou seu poder de fogo no período em que Dilma esteve à frente do Palácio do Planalto. “A senhora mente” e “prevaricou” foram alguns dos ataques do tucano; ”eu não dirijo bêbada” afirmou Dilma. Que a próxima seja melhor.

Macroeconomia
Neste ano a economia entrou de vez na pauta das eleições, sendo usada pelo candidato Aécio Neves (PSDB) para atacar sua adversária no segundo turno da corrida presidencial. A escolha se deveu ao mau resultado da área macroeconômica, que viu o Produto Interno Bruto (PIB) estagnar, a inflação atingir o teto da meta e um superávit deficitário.

<p>Guido Mantega, ministro da Fazenda</p>
Guido Mantega, ministro da Fazenda
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Se em 2013 o crescimento do PIB foi de 2,3%, em 2014 a última previsão do Ministério do Planejamento aponta para crescimento de 0,5% - a meta no começo do ano era de 2%. No ano passado, o País teve inflação de 5,91%, enquanto para este ano o governo espera 6,45%, no limite do teto da meta (6,5%). No superávit o resultado é ainda pior, já que o governo aprovou lei que altera as regras por prever que não irá cumprir a meta estabelecida para este ano, de R$ 116,1 bilhões.

Corrupção
A operação Lava Jato, da Polícia Federal, tomou o noticiário neste ano ao mostrar um esquema bilionário de corrupção na Petrobras, maior estatal do País. Se por um lado isto é bom por trazer à tona um esquema criminoso que agia há pelo menos 15 anos na petroleira, de acordo com o Ministério Público Federal, por outro nos dá a sensação de que a corrupção está tão presente como nunca. E não é apenas nossa essa sensação.

<p>Ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa durante depoimento na CPI da petroleira, em Brasília</p>
Ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa durante depoimento na CPI da petroleira, em Brasília
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Em ranking anual divulgado pela ONG Transparência Internacional, que mede a percepção de corrupção em um país, o Brasil subiu apenas um ponto, passando de 42 pontos em 2013 para 43 em 2014 – quanto mais próximo de 100, menos corrupção existiria no país. Subimos também três colocações no ranking, entre as 177 nações pesquisadas, – passamos da 69ª colocação para a 72ª – mais em função da piora de outros países. É pouco para um mal tão grande para o Brasil.

Fonte: Terra

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