Proteção de espécies migratórias depende de cooperação internacional e políticas de conservação em escala global
COP das de espécies migratórias, ocorrida em março de 2026 no Brasil, aprovou medidas que contribuem para preservação destas espécies e consolidou a visão de que, sem conectividade ecológica, não há conservação efetiva
No mundo contemporâneo, a expansão acelerada da agricultura, urbanização, infraestrutura, mineração, exploração intensiva de recursos naturais, além dos conflitos em larga escala e das mudanças climáticas, têm tornado cada vez mais difícil a conservação de muitas espécies animais. E esse desafio é ainda mais complexo quando as espécies em risco atravessam fronteiras transnacionais e dependem de múltiplos ecossistemas.
São as espécies migratórias, cuja sobrevivência, muitas vezes, depende de decisões tomadas em diferentes países. Isso significa que uma espécie pode estar protegida em um território e ameaçada em outro, ou depender de habitats localizados em múltiplas jurisdições ao longo do ano. E, sem coordenação internacional, medidas locais tornam-se insuficientes.
Migração em risco
Na biologia, migração é o deslocamento regular, sazonal e recorrente de indivíduos ou grupos entre áreas distintas, associado a ciclos ambientais, reprodução e disponibilidade de recursos como água e alimento. Trata-se de um fenômeno moldado por processos evolutivos que permite às espécies explorar ambientes variáveis no tempo e no espaço. A própria espécie humana compartilha essa base evolutiva: deslocar-se foi essencial para expandir sua ocupação pelo planeta.
Por milhões de anos, inúmeras espécies estruturaram seus ciclos de vida a partir do uso de habitats distribuídos em larga escala. Aves como o albatroz-de-sobrancelha-negra (Thalassarche melanophris) passam grande parte da vida sobre o oceano e retornam sazonalmente para reprodução em ilhas subantárticas, como as Malvinas/Falklands e Geórgia do Sul.
Grandes bagres amazônicos, como a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), realizam uma das mais longas migrações de água doce do mundo, deslocando-se do estuário amazônico até áreas próximas aos Andes para reprodução.
Já a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) alterna seu ciclo entre áreas de alimentação na Antártida e águas tropicais da costa brasileira, onde se reproduz.
Mas, desde a Revolução Industrial e sobretudo nos últimos dois séculos, os ecossistemas globais vêm se alterando constantemente. Rios foram barrados, áreas úmidas drenadas, florestas convertidas, zonas costeiras ocupadas ou poluídas e vastos territórios impactados direta ou indiretamente por ciclos produtivos em larga escala, guerras, deslocamentos populacionais e pressão crescente sobre recursos naturais. Paralelamente, emissões de gases de efeito estufa alteraram padrões climáticos e hidrológicos.
Todas essas alterações modificam as condições ambientais que historicamente estruturaram ciclos migratórios.
Quase meio século de luta por conservação
Foi nesse contexto que surgiu, no final dos anos 1970, a Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), tratado internacional sob a égide das Nações Unidas voltado à conservação de espécies que dependem de cooperação entre países para sobreviver.
O avanço do conhecimento científico já apontava, à época, declínios populacionais importantes associados à caça e pesca excessivas, degradação e contaminação de habitats e expansão de grandes obras de infraestrutura.
A Convenção mobiliza governos, comunidades socioambientalista e científica e organizações internacionais em torno de uma agenda concreta de cooperação. Seus anexos incluem espécies ameaçadas de extinção e espécies cujo estado de conservação demanda acordos internacionais.
Mas seu núcleo não está apenas nas listas: envolve planos de ação, redução de ameaças, proteção de habitats críticos e manutenção da conectividade ecológica, isto é, da capacidade das paisagens de manter áreas naturais funcionalmente conectadas, permitindo o deslocamento de espécies, o fluxo gênico (trasferência de material genético) e a continuidade de processos ecológicos.
Essa abordagem parte de um princípio simples, mas exigente: espécies migratórias só podem ser conservadas se os sistemas ecológicos dos quais dependem permanecerem funcionais em grandes escalas geográficas. Áreas de reprodução, alimentação e descanso podem estar separadas por milhares de quilômetros, mas a perda de qualquer um desses pontos compromete todo o ciclo de vida.
O que a COP 15 produziu em Campo Grande
Realizada no Brasil em março de 2026, a COP 15 da CMS consolidou esse entendimento em decisões concretas. A conferência aprovou mais de 70 decisões, incluindo a inclusão de 40 espécies, subespécies e populações nos anexos da Convenção, ampliando significativamente o escopo global de proteção.
Também foram aprovadas 16 ações concertadas internacionais e resoluções voltadas ao fortalecimento de corredores ecológicos, proteção de rotas marinhas e terrestres, mobilização de recursos para países em desenvolvimento e integração mais explícita entre biodiversidade e clima.
A conferência reforçou ainda o papel de espécies emblemáticas e processos ecológicos críticos, incluindo avanços na agenda de proteção de espécies aquáticas e costeiras e planos regionais de ação de conservação da onça-pintada (Panthera onca), o que evidencia uma ampliação importante da própria CMS: reconhecer que conectividade não se restringe a espécies classicamente migratórias, mas também a espécies de ampla área de vida, cuja sobrevivência depende de paisagens funcionais e conectadas em escala regional e transfronteiriça.
Mais do que ampliar listas, a COP15 consolidou uma diretriz central: sem conectividade ecológica, não há conservação efetiva de espécies migratórias.
Pressões acumuladas e efeitos em cadeia
As ameaças às espécies migratórias são conhecidas: perda de habitat, fragmentação, mudanças climáticas e sobreexploração. O que as conecta é sua origem comum: o modelo contemporâneo de uso e ocupação de territórios e seus recursos naturais.
Infraestrutura, desmatamento e conversão de áreas naturais reduzem a conectividade das paisagens. Nos sistemas aquáticos, barragens e contaminação alteram fluxos ecológicos e qualidade da água. Em paralelo, mudanças climáticas modificam regimes de chuva, temperatura e disponibilidade hídrica em escala ampla.
Esses fatores interagem entre si e amplificam seus efeitos. O resultado é a perda de funcionalidade dos ecossistemas.
Um desafio global — e uma oportunidade
Responder a esse cenário exige ações em escala compatível com os processos ecológicos envolvidos. Isso implica integrar políticas públicas, territórios e atores. Áreas protegidas, terras indígenas e territórios tradicionais são fundamentais, mas sua efetividade depende da conectividade entre áreas e da qualidade da governança.
Povos indígenas e comunidades locais desempenham papel central nessa agenda, frequentemente mantendo territórios que concentram alta integridade ecológica. O Brasil reúne condições singulares para atuar nesse debate. Possui grande extensão de ecossistemas naturais, instrumentos institucionais relevantes e capacidade de promover conservação em escala.
A conservação de espécies migratórias não se restringe à proteção de espécies individuais. Trata-se de manter processos ecológicos que regulam fluxos hidrológicos, sustentam cadeias alimentares, contribuem para estabilidade climática e asseguram a resiliência dos sistemas naturais dos quais depende a própria humanidade.
Em um contexto de mudanças climáticas aceleradas, perda de biodiversidade e crescente simplificação dos ecossistemas, conservar conectividade definitivamente não é apenas uma pauta da agenda ambiental. Tornou-se uma condição estratégica e transversal para enfrentarmos riscos que já afetam economias, segurança alimentar, saúde pública, qualidade de vida e sobrevivência em escala global.
Mais do que nunca, este é um momento de fortalecer processos multilaterais capazes de construir compromissos globais voltados ao cuidado simultâneo da natureza e das pessoas. Diante de desafios que ignoram fronteiras, precisamos menos negacionismo e conflitos e mais ciência, cooperação internacional e capacidade coletiva de construir respostas compatíveis com a escala dos problemas que enfrentamos.
Carlos César Durigan trabalha no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM.
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