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O potencial do 'fact-checking' para indexar a desinformação

Mais do que um denunciador de fake news, o jornalismo de verificação é fundamental nos mecanismos da sociedade de resposta à desinformação

25 fev 2026 - 10h48
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Em um ecossistema de mídia plataformizado, agências de fact-checking foram alçadas a uma posição de destaque antes mesmo que pudessem amadurecer em sua vocação original de verificar discursos políticos nos meios digitais. Ao fornecer dados precisos para quem se importa com fatos, essa prática pode não ter comprovado sua eficácia para acabar com falsidades na internet na última década, mas é potente para sinalizar padrões de manipulação que podem guiar medidas para mitigar os impactos sociais da desinformação em seus próximos estágios. O avanço da Inteligência Artificial exigirá indexadores especializados, e o fact-checking já tem essa expertise.

Quando as primeiras iniciativas de fact-checking foram criadas no Brasil, em 2014, as plataformas de mídia social eram uma preocupação secundária. O foco da checagem de fatos recaía nas contradições de políticos em seus discursos públicos, principalmente em programas eleitorais e pronunciamentos oficiais.

Jornalistas lançavam mão de técnicas de apuração baseadas em dados para destacar exageros e imprecisões aplicando etiquetas a trechos de transcrições de declarações de pessoas públicas sustentadas pelas evidências encontradas, com links das referências para que a audiência pudesse "checar os checadores". O método jornalístico calcado na transparência das fontes aparecia como o principal trunfo para a credibilidade das checagens.

Nos primórdios, o fact-checking era visto apenas como um novo formato jornalístico, uma nova forma de apresentar informações verificadas, uma variação da notícia ou da reportagem. Um formato perfeitamente aplicável à cobertura eleitoral, em que jornalistas e a sociedade supostamente prestavam mais atenção ao que diziam os candidatos. Naquele ano de 2014, Cristina Tardáguila, que depois fundou a Agência Lupa, criava o blog Preto no Branco, no jornal O Globo; e Natália Viana, diretora da Agência Pública, implementava a seção Truco no site.

Ambas tinham o intuito de verificar os discursos de candidatos à presidência da República. No Rio Grande do Sul, o jornal Zero Hora também fazia seus experimentos no formato à época, contrapondo declarações dos candidatos ao Palácio Piratini em uma coluna chamada "É isso mesmo, candidato?". Eram conteúdos esporádicos, não havia ainda uma produção contínua de fact-checking, o que se concretizou com a criação da própria Lupa e do Aos Fatos, em 2015, os primeiros veículos dedicados integralmente ao formato no Brasil.

Mundo afora, começava a se formar a rede global de fact-checkingInternational Fact-checking Network (IFCN) — com ainda algumas poucas dezenas de iniciativas que participaram de um encontro global nos Estados Unidos, onde desde 2008 a prática era fomentada como uma espécie de franquia pelo Politifact, plataforma de checagem nominada no prêmio Pulitzer de jornalismo em 2009 por seus "termômetros da verdade" na cobertura eleitoral.

O pesquisador Lucas Graves, autor de um livro pioneiro chamado "Deciding what's true", recupera o histórico do fact-checking nos Estados Unidos desde o escândalo de Watergate, na década de 1970, para situar o crescimento dessa prática de verificação como um movimento que persegue uma cultura profissional atrelada a um jornalismo mais analítico. Para ele, a emergência de profissionais de _fact-checking _em tempo integral no início dos anos 2000 era uma forma de resistência ao jornalismo declaratório, que se limitava a reproduzir aspas de políticos sem criticar suas colocações.

Constranger políticos e incidir no debate público

Havia uma esperança no formato como fator de incidência no debate público, e diversos pesquisadores se empenharam em demonstrar esse potencial. Sem muito sucesso, há que se ponderar.

Para citar alguns exemplos, Brendan Nyhan e Jason Reifler fizeram um estudo experimental, publicado em 2014: dividiram 1200 legisladores de nove estados americanos em três grupos, onde um foi alertado sobre a presença do PolitiFact e dos possíveis impactos da verificação (tratamento), outro recebeu uma carta informando sobre o estudo que fariam acerca dos riscos do discurso falso (placebo), e o terceiro não recebeu cartas (controle).

Apenas 27 legisladores foram checados durante o período do estudo, uma amostra pequena, mas cujo resultado sugeria que o alerta sobre a verificação teve algum efeito no grupo "tratamento", com 0,8% de avaliações negativas, contra 1,7% nos grupos "placebo" e "controle".

Em outro estudo, com coautoria também de Andrew Guess, os pesquisadores concluíram que o fact-checking não era eficaz em responder às notícias falsas, pois raramente os entrevistados acessaram checagens de uma declaração falsa específica que tinham recebido.

O resultado corrobora a polarização que já minava a credibilidade do jornalismo de modo geral, como observam Rebecca Iannucci e Bill Adair em um relatório publicado em 2017: à medida que cresce como forma reconhecida de jornalismo, a checagem de fatos torna-se alvo das críticas de conservadores repetidas por décadas, de que a "grande mídia" teria um viés liberal (ou de esquerda, se quisermos aproximar do contexto brasileiro).

O recente abandono de políticas de checagem das próprias plataformas que haviam incentivado a guinada do fact-checking para a verificação de mentiras virais na internet firmando parcerias com agências especializadas após as revelações sobre o uso político de dados no caso Cambridge Analytica demonstra como a resistência à checagem se potencializa com a polarização.

No ecossistema de mídia plataformizado, onde a intermediação jornalística perde espaço para políticos e influenciadores com grande capacidade de viralização, inclusive pelos mecanismos de impulsionamento de conteúdo criados pelo modelo de negócio das plataformas de mídia social, atacar os checadores torna-se apenas mais uma estratégia no repertório de descredibilização da imprensa.

Mas então o fact-checking não funciona?

Em artigo publicado em janeiro de 2026 na newsletter Factually, da IFCN, Angie Drobnic Holan escreve sobre isso. "Se sua expectativa é que a checagem de fatos puna mentirosos ou mude os resultados das eleições, você está fadado ao fracasso", diz o texto da diretora da IFCN e ex-editora-chefe do PolitiFact. Ela argumenta que a verificação não serve para eliminar todas as informações falsas, o que seria impossível. "Em vez disso, o fact-checking fornece às pessoas informações precisas quando elas precisam, e nas redes sociais ele retarda a disseminação de mentiras virais".

Em uma década de pesquisa sobre a prática de fact-checking no Brasil, já tive diferentes expectativas sobre as finalidades desse formato jornalístico. Corrigir todas as mentiras da internet nunca foi uma delas. É uma exigência desproporcional ao que os jornalistas de fato podem fazer, tanto por questões técnicas quanto sociais.

Há tempos nossos estudos da área têm demonstrado que a checagem de peças isoladas é ineficaz, pois a narrativa é um motor muito mais potente para a desordem informacional, como argumenta Raquel Recuero em livro recente em que apresenta sua tese sobre o sistema da desinformação. Também não é uma expectativa real que o fact-checking acabe com as mentiras virais se considerarmos que as pessoas não são expostas a checagens ou não estão dispostas a rever suas crenças, visto que estão condicionadas às suas "bolhas" no ecossistema de mídia plataformizado.

O que tenho observado e reforçado em cursos, palestras e entrevistas sobre o papel do jornalismo frente à desinformação é que o fact-checking pode ser um indexador importante para quem quer informação de qualidade. É um recurso relevante dentro de um sistema integrado de resposta à desinformação, que deve incluir também educação midiática, regulação, responsabilização de plataformas, políticas públicas de comunicação, pesquisa baseada em dados, desenvolvimento de tecnologia e tantas outras possibilidades que estão sendo estudadas e testadas, não raro, de modo isolado.

É preciso juntar todas essas peças em uma engrenagem na qual a educação leve as pessoas a buscar fontes confiáveis, algoritmos sejam treinados para filtrar desinformação, plataformas estejam comprometidas com a qualidade dos conteúdos, atores sociais assumam responsabilidade ética com o conteúdo que disseminam, jornalistas indexem a desinformação para quem procura. Pode soar utópico, e o desafio é imenso, de fato. Mas sem um sistema complexo de resposta nenhuma ação isolada será capaz de torná-lo resiliente.

Indexar para informar de forma correta

Se informar a sociedade de maneira correta é uma das finalidades do jornalismo, como evidencia Gisele Reginato, o fact-checking não apenas funciona, como é indispensável na sociedade contemporânea. O potencial indexador da desinformação pode ser ainda mais relevante para o jornalismo em tempos de desinformação sintética, em que o desafio de verificar fatos se tornará cada vez mais complexo para ser trilhado por conta própria.

Com uma metodologia amplamente testada e aperfeiçoada globalmente em mais de uma década, a prática jornalística de fact-checking compõe, hoje, o mais próximo que temos de uma base de conhecimento sobre a desinformação. A academia já se vale disso, com pesquisas e artigos que se baseiam em checagens feitas por iniciativas especializadas para analisar o fenômeno da desinformação, quanto a seus formatos, temas e estratégias.

A Agência Lupa agora capitaliza de forma mais robusta esse espaço de referência com a criação do Observatório Lupa, que acaba de publicar o Panorama da Desinformação no Brasil, uma análise detalhada de conteúdos checados pela agência em 2024 e 2025.

O relatório oferece dados empíricos para embasar discussões relevantes sobre o peso de eventos de grande repercussão pública como catalisadores da desinformação; os alvos mais frequentes, que incluem não só atores políticos, mas instituições do judiciário, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE); e tendências relacionadas à viralização de boatos e golpes econômicos, bem como o crescimento vertiginoso da Inteligência Artificial.

Posicionar o fact-checking como indexador da desinformação é dar um passo além na compreensão de Axel Bruns do jornalista como gatewacher, ou para colocar o jornalista em um ponto mais acima da cadeia editorial, como sugeriam C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky uma década e meia atrás no dossiê "Jornalismo pós-industrial". Quiçá, seria retomar o jornalismo como forma de conhecimento, concebido por Adelmo Genro Filho.

Na perspectiva teórica das mudanças estruturais do jornalismo, à luz de Charron e Bonville, a prática de fact-checking se traduz em uma proposta teórico-metodológica para discutir uma transição paradigmática no jornalismo.

Enquanto tipo ideal, inspirado no método weberiano da sociologia compreensiva, o "jornalismo de verificação" representa um paradigma jornalístico marcado por um discurso comprobatório, em um ecossistema de mídia em que o apelo à emoção subjetiva se converte em capital social monetizável nas plataformas, com impactos na opinião pública e riscos à democracia. Um jornalismo que busca alternativas para se reposicionar no debate público como indexador da desinformação pode ainda encontrar sua vocação como ação social racional segundo fins e valores na era das plataformas.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Taís Seibt recebe financiamento da Fapergs (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul). Ela é diretora de estratégia da Associação Fiquem Sabendo.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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