Nikkei, de índice da bolsa à tendência gastronômica
Nos anos 1990, ouvir o termo Nikkei nos remetia à Bolsa de Valores de Tóquio, às oscilações do iene ou às ações da Toyota, mas atualmente esta palavra nos permite evocar delícias culinárias que unem o melhor das cozinhas japonesa e peruana.
Sushi de camarão no lugar do tradicional camarão ensopado do sul do Peru, tempurá, ceviche (prato peruano baseado em peixe cru marinado em suco de limão), rolinhos maki de crustáceos e sashimis são algumas delícias dessa gastronomia que ganha cada vez mais adeptos por conta da intensidade de seus sabores.
Para entender o que levou à mistura de duas culinárias tão distantes geograficamente e diferentes em seus conceitos, sabores e ingredientes, é preciso viajar ao início do século XX, quando milhares de imigrantes japoneses começaram a chegar à costa do país andino buscando melhores condições de vida.
Com saudades das delícias de seu país de origem, os imigrantes começaram a inserir ingredientes peruanos aos tradicionais pratos japoneses, dando origem então à cozinha Nikkei, termo em japonês que designa os descendentes de japoneses nascidos fora do país de para japoneses que vivem regularmente no exterior.
O chef peruano Luis Arévalo, do restaurante madrilenho Nikkei 225, explica em entrevista à Agência Efe que apesar da grande quantidade de imigrantes japoneses que chegaram ao Peru durante as três primeiras décadas do século passado, a cozinha Nikkei não se popularizou no país imediatamente, mantendo-se dentro da comunidade japonesa imigrante.
Se há 40 anos eram apenas quatro os restaurantes japoneses em Lima, atualmente são 50, inclusive o precursor Matsuei.
"(A cozinha Nikkei) era conhecida por muito pouca gente. Mas em 1990 chegou à Presidência do Peru, com Alberto Fujimori, e começou a ganhar mais destaque e pouco a pouco foi se incorporando aos restaurantes. Começaram a ser encontrados então ceviches e tiraditos nos restaurantes japoneses", contou o chef.
No entanto, a fusão mais intensa entre as cozinhas peruana e japonesa é relativamente recente, "não tem mais de dez anos", e foi alavancada entre outros fatores pela fama do chef peruano Gastón Acurio, que usa uma pitada Nikkei em suas criações.
Para Arévalo, o sucesso da cozinha Nikkei se deve à união do que há de melhor, em sua opinião, na cozinha japonesa (algas, soja, pescado e saquê) e na peruana (batatas , coentro, peixe e pisco).
"Os pratos basicamente têm toques picantes e sabores explosivos", revela o renomado chef.
"A grande diferença entre as duas cozinhas é que a japonesa é uma cozinha plana, na qual o que mais interessa é conservar o máximo possível do sabor de um produto, enquanto nós buscamos potencializá-lo. E essa mistura é divertida", explica o peruano Arévalo, indicando "champanhe ou um bom vinho branco" para acompanhar as delícias Nikkeis, "nada de saquê, nem pisco", orienta.