Tensão cresce: Irã alerta Trump contra interferência em apoio aos protestos
A onda de protestos contra a hiperinflação no Irã se espalhou para cidades do interior, enquanto Teerã teve um dia tranquilo na quinta-feira (1º), segundo diversas fontes. Os confrontos entre manifestantes e forças de segurança já deixaram seis mortos. Nesta sexta-feira (2), Donald Trump afirmou que, se o Irã matar manifestantes, Washington irá "resgatá-los" - mas Teerã advertiu que qualquer interferência americana desestabilizaria toda a região.
Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, e AFP
A declaração de Donald Trump ocorreu depois que o movimento de protesto iniciado no domingo (28) na República Islâmica provocou as primeiras vítimas fatais. "Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, como é seu costume, os Estados Unidos virão em seu resgate", escreveu Trump em sua plataforma Truth Social. "Estamos prontos para agir", ressaltou o republicano.
Um conselheiro do líder supremo iraniano reagiu pouco tempo depois. Ali Larijani, chefe da autoridade de segurança do Irã, advertiu na rede social X: 'Trump deveria saber que qualquer interferência dos Estados Unidos neste assunto interno desestabilizaria toda a região e prejudicaria os interesses americanos.'
Os Estados Unidos mantêm uma relação conflituosa com o Irã há décadas. Trump prometeu na segunda-feira (29) "erradicar" qualquer tentativa de Teerã de reconstruir seu programa nuclear ou seu arsenal de mísseis balísticos.
Em abril, Irã e Estados Unidos iniciaram negociações mediadas por Omã sobre o programa nuclear iraniano, foco de tensões com os países ocidentais. As conversações estão paralisadas desde junho, após os Estados Unidos bombardearam as instalações subterrâneas de enriquecimento de urânio em Fordo, ao sul de Teerã. Também foram atingidas instalações nucleares em Isfahan e Natanz, no centro do país.
Manifestações contra o alto custo de vida
No quinto dia do movimento de contestação, na quinta-feira, pelo menos cinco manifestantes foram mortos e cerca de 30 outros ficaram feridos em dois confrontos violentos no oeste do país. Um jovem membro da milícia Basij, vinculada aos Guardiões da Revolução, também foi morto.
Apesar das expectativas, Teerã - onde os protestos começaram no domingo - permaneceu relativamente calma. Segundo a agência Tasnim, 30 pessoas foram presas na capital por 'perturbação da ordem pública'. No total, as detenções detenções podem chegar a cerca de cem pessoas, de acordo com estimativas da mídia estatal.
Em Azna, na província de Lorestan, no oeste, uma delegacia foi atacada ao anoitecer. De acordo com a agência de notícias Fars, "um grupo de manifestantes aproveitou um protesto para atacar uma delegacia". O prédio e carros da polícia foram incendiados. Em vídeos divulgados nas redes sociais, é claramente audível o uso de armas de fogo pelas forças de segurança.
Mais cedo, a polícia também recorreu a armas de fogo na cidade de Lordegan, no oeste. Segundo a agência Fars, manifestantes "atiraram pedras contra prédios administrativos, incluindo a sede do governo local, uma mesquita, a prefeitura e bancos". Vídeos compartilhados mostram protestos em cerca de 20 outras cidades do interior. Mais uma vez, a polícia usou gás lacrimogêneo e fez disparos com armas de fogo.
Tentativas de apaziguamento
Foi decretado feriado nesta sexta-feira (2) e no sábado (3). As autoridades também anunciaram que as aulas em todas as universidades da capital serão realizadas a distância até 9 de janeiro para evitar aglomerações.
A greve dos comerciantes do bazar da capital, motivada pela queda do rial - desvalorizado em quase um terço em relação ao dólar no último ano -, rapidamente ganhou caráter político com a adesão dos estudantes. O movimento se estendeu às cidades do interior, onde ocorreram a maioria dos confrontos.
A queda da moeda, somada à hiperinflação de dois dígitos, vem corroendo o poder de compra dos iranianos há anos, alimentando a insatisfação popular.
Até agora, os protestos permanecem menores que os que abalaram o país no fim de 2022, após a morte sob custódia da jovem Mahsa Amini.