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O que pode ter causado colisão entre trens de alta velocidade que deixou ao menos 68 mortos na Espanha

Governo aponta possível "erro humano" como causa do segundo acidente ferroviário com dezenas de mortos na Espanha em menos de um ano

28 out 2026 - 17h21
(atualizado às 17h37)
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Resumo
A colisão entre dois trens de alta velocidade na rota Madri-Sevilha deixou ao menos 68 mortos e dezenas de feridos na Espanha. O acidente ocorreu perto de Urda após uma falha no sistema de tráfego que paralisou a circulação. Contrariando protocolos, o centro de controle autorizou a retomada indevida de uma das composições, que atingiu a traseira de outra que estava parada. Sendo a segunda grande tragédia na rede ferroviária em menos de um ano, o caso levantou críticas e investigações do governo.
Um trem de alta velocidade bateu em outro que estava parado nos trilhos
Um trem de alta velocidade bateu em outro que estava parado nos trilhos
Foto: Ismael Herrero / Getty / BBC News Brasil

Ao menos 68 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas na colisão entre dois trens de alta velocidade que faziam a rota Madri-Sevilha, nas proximidades da cidade de Urda, a cerca de 120 km da capital da Espanha.

O ministro dos Transportes espanhol, Óscar Puente, informou que o sistema automatizado de gestão do tráfego ferroviário havia falhado, o que levou à interrupção imediata da circulação de todos os trens na área.

A partir do centro de controle do tráfego ferroviário, localizado na estação de Atocha, em Madri, foi tomada a decisão "inexplicável" de autorizar a retomada da circulação de um dos trens. Ele acabou colidindo com outro que continuava parado nos trilhos, acrescentou Puente.

O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, prometeu, no local da colisão, "esclarecer o que aconteceu" e determinar se houve "negligência e falhas". Sánchez afirmou que "não é aceitável" que o país sofra dois acidentes graves com trens de alta velocidade em menos de um ano.

Em outro acidente na mesma linha de alta velocidade, em 18 de janeiro deste ano, 46 pessoas morreram e cerca de 300 ficaram feridas.

O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, adversário político de Sánchez, afirmou que "a Espanha tem o direito de saber o que está acontecendo com sua infraestrutura, em que estado estão os trilhos e os sistemas de segurança, quais alertas foram recebidos desde Adamuz e quais medidas foram adotadas".

O Sindicato Ferroviário classificou, em comunicado, como "prematuro" e "irresponsável" atribuir a colisão a um "erro humano" antes da conclusão das investigações.

Veja o que se sabe até agora.

Colisão envolveu um trem de alta velocidade AVE e composição da empresa Iryo
Colisão envolveu um trem de alta velocidade AVE e composição da empresa Iryo
Foto: Guardia Civil/ EPA/ Shutterstock / BBC News Brasil

O que falhou, segundo o governo

A tragédia, a segunda de grandes proporções na rede ferroviária espanhola em menos de um ano, colocou em xeque a segurança dos trens de alta velocidade no país e a gestão do governo de Pedro Sánchez.

O ministro dos Transportes falou à imprensa a partir do Centro de Controle do Administrador de Infraestruturas Ferroviárias (ADIF), na estação de Atocha, em Madri, para apresentar os "fatos constatados" até o momento.

Segundo Puente, o sistema automatizado LZB, responsável pela gestão do tráfego ferroviário na região, parou de funcionar às 8h30, no horário local, devido a uma "falha de comunicação entre os computadores da rede". Isso provocou a parada automática dos trens que circulavam no trecho afetado, incluindo os dois que acabaram colidindo.

Com o sistema fora de operação, o Centro de Controle de Atocha assumiu o comando do trecho afetado, de cerca de 69 km. Por volta das 8h36, autorizou o trem da Renfe a retomar a circulação "normalmente".

O ministro classificou a decisão como "inexplicável" e afirmou que, de acordo tanto com a regulamentação quanto com os próprios protocolos da ADIF, o trem não poderia ter retomado a circulação normalmente, pois o circuito ferroviário estava ocupado pelo trem da Iryo, parado na entrada da estação. Além disso, havia um sinal vermelho que impedia a retomada da circulação.

O presidente Sánchez afirmou que "não é aceitável" que a Espanha sofra dois acidentes com trens de alta velocidade em menos de um ano
O presidente Sánchez afirmou que "não é aceitável" que a Espanha sofra dois acidentes com trens de alta velocidade em menos de um ano
Foto: Florencia Tan/ Getty / BBC News Brasil

Segundo Puente, caso a circulação fosse retomada, o trem deveria seguir pelo procedimento conhecido como "marcha à vista", ou seja, a uma velocidade "muito reduzida", sempre inferior a 40 km/h, que permitisse ao maquinista parar a tempo caso identificasse "qualquer circunstância" nos trilhos.

Puente relatou que, de acordo com as gravações que ouviu no Centro de Controle, outro trem também foi autorizado, "de maneira equivocada", a retomar a circulação sem restrições. Nesse caso, foi o próprio maquinista quem corrigiu o controlador e disse que deveria seguir em velocidade reduzida.

O ministro afirmou que a falha informática que deixou o sistema LZB fora de serviço "pode acontecer".

"Não é algo que aconteça todos os dias, mas acontece, e é justamente para isso que estão previstas as respostas na regulamentação", disse.

Puente explicou que o sistema LZB está em operação desde a inauguração da linha, em 1992, e passa por um processo de substituição por um sistema mais moderno, conhecido como ERTMS.

O ministro afirmou, no entanto, que o sistema é "amplamente testado e comprovado".

Os detalhes do acidente

O acidente ocorreu por volta das 8h54, no horário local, a cerca de 140 km ao sul de Madri, nas proximidades da cidade de Urda, na província de Toledo.

Um trem da empresa estatal Renfe, que havia partido de Madri com destino a Sevilha, bateu na traseira de um trem da Iryo que fazia a mesma rota e estava parado nos trilhos.

Não foi informada a velocidade do trem da Renfe no momento da colisão, mas, segundo o ministro Puente, os trens podem atingir 200 km/h nesse trecho em condições normais.

O impacto provocou cenas descritas como de "caos" por passageiros ouvidos pela imprensa local. Vários vagões caíram pelo talude ao lado dos trilhos.

"As pessoas começaram a sair. Havia gente chorando, pessoas mortas sob os trens, que podiam ser vistas por toda parte", disse Eduarda, uma estudante de 17 anos que viajava em um dos trens, em declaração citada pela rádio Cadena SER.

A região foi tomada por ambulâncias e equipes de emergência enviadas de Madri e Toledo. O governo espanhol também mobilizou integrantes da Unidade Militar de Emergências (UME).

Segundo um porta-voz dos serviços de emergência do governo regional de Castela-Mancha, o trem da Renfe transportava 393 passageiros, enquanto o da Iryo levava 147 pessoas, entre elas um bebê.

*Com informações adicionais de Alicia Hernández e Norberto Paredes.

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