Imprensa francesa alerta para ameaça à Europa e à ordem internacional após ação dos EUA na Venezuela
Os jornais franceses desta terça-feira (6) seguem repercutindo o ataque do Exército dos Estados Unidos a Caracas, na Venezuela, na noite de 2 para 3 de janeiro, e a captura de Nicolás Maduro. Le Monde destaca em sua capa uma "Ordem mundial segundo Trump" e, em seu editorial, critica o que chama de "retorno de um imperialismo predatório". Já Le Figaro afirma que "Trump desestabiliza os europeus", ao apontar que "a União Europeia está encurralada por sua dependência de seu aliado tradicional".
"Estávamos errados em rir da vontade de Donald Trump de rebatizar o Golfo do México com o nome de Golfo da América desde seu retorno à Casa Branca, há menos de um ano", começa o editorial do Le Monde, explicando que a ação do governo americano em Caracas, que culminou na captura de Nicolás Maduro, "mostra que Washington agora reivindica plenos poderes no que considera seu quintal".
Para o jornal, os Estados Unidos impõem ao continente americano um retrocesso de mais de um século, desta vez acrescido de uma superpotência militar, sem deixar de mencionar a "insistência constrangedora no petróleo venezuelano" por parte do republicano durante a coletiva de imprensa.
O Le Monde denuncia a ilegitimidade da eleição presidencial de 2024 na Venezuela, que causou inúmeros males não apenas ao país, mas a todo o continente americano. No entanto, argumenta que "a brutalidade de um poder não autoriza tudo" e qualifica como "intervenção brutal desprovida de legitimidade internacional" o que Trump efetivou em um "país fragilizado por um poder autoritário".
O jornal recorda que a invasão do Iraque constituiu o primeiro golpe contundente contra a ordem internacional que os Estados Unidos haviam estabelecido ao sair da Segunda Guerra Mundial, e alerta para o precedente que o atual contexto pode abrir a Vladimir Putin na Ucrânia.
Ameaça dirigida a Europa
A reportagem do Le Figaro destaca que os europeus recebem a intervenção militar americana em Caracas com preocupação, diante de uma possível "ameaça se dirigindo a eles". Para o jornal, por conta da dependência da ajuda americana na Ucrânia, a UE se absteve de condenar com severidade o golpe de força de Donald Trump.
O Le Figaro sugere que "os europeus devem gerenciar uma hierarquia de ameaças, lidando com as mais urgentes: primeiro a Rússia, depois a China, e começar a compreender a transição dos Estados Unidos do status de aliado para o de adversário, ou mesmo de ameaça".
Desestabilização da ordem internacional
A capa do jornal de esquerda Libération questiona "onde Trump vai parar?": "Groenlândia, Colômbia, Cuba... A ação militar de Trump na Venezuela faz temer outras operações militares que desestabilizem ainda mais a ordem internacional", denuncia.
O Libération cita ainda a apresentação de Maduro, na segunda-feira (5), a um juiz federal em Nova York, quando o presidente venezuelano declarou-se "inocente" e "sequestrado". Vestido com o uniforme de detento do Metropolitan Detention Center, no Brooklyn, ele tentou afirmar sua condição de chefe de Estado, mas foi interrompido pelo juiz, que exigiu que se limitasse às formalidades processuais da primeira audiência. Sua esposa, Cilia Flores, também se declarou inocente por meio de um tradutor. Após um procedimento rápido, o juiz marcou a próxima audiência para 17 de março, e ambos foram reconduzidos sob escolta.