Guerra no Irã, tensão com Trump e caso Epstein marcam início de visita de Charles III aos EUA
O rei Charles III e a rainha Camilla iniciaram na segunda-feira (27) uma visita aos Estados Unidos, a primeira do atual reinado. A viagem histórica é marcada por uma crise diplomática entre Londres e Washington e cobranças de respostas dentro do escândalo Jeffrey Epstein.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
A visita, que marca os 250 anos da independência americana, inclui uma agenda simbólica e política intensa, com jantar oficial, compromissos em Nova York e um discurso do monarca nesta terça-feira (28) diante do Congresso americano.
No entanto, o deslocamento de Charles III e Camilla acontece em um momento delicado. Além das tensões diplomáticas provocadas pela guerra no Irã e de um recente incidente de segurança em Washington, a viagem tem como pano de fundo as ligações do ex-ministro britânico e ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, Peter Mandelson, com o criminoso sexual Jeffrey Epstein.
Discurso no Congresso é o ponto alto da agenda
A terça-feira concentra os momentos mais simbólicos e políticos da visita. Enquanto Donald Trump recebe o rei Charles III para uma reunião bilateral na Casa Branca, a primeira-dama americana, Melania Trump, e a rainha Camilla participam de um evento com estudantes, em uma agenda paralela que busca reforçar o "soft power" da relação entre os dois países.
O ponto alto do dia é o discurso do monarca no Capitólio. Charles será o segundo soberano britânico a falar diante de uma sessão conjunta do Congresso americano. A única a fazê‑lo antes dele foi a rainha Elizabeth II, em 1991.
O pronunciamento acontece em um momento delicado para a aliança histórica entre Estados Unidos e Reino Unido, pressionada pela guerra no Irã, pelas tensões dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e pelo impacto global no mercado de energia. A expectativa é de uma declaração cuidadosamente diplomática, com uma mensagem indireta sobre cooperação internacional e estabilidade global.
Situações constrangedoras
Nos bastidores, políticos britânicos temem que a viagem do rei acabe exposta a situações constrangedoras devido ao estilo imprevisível de Donald Trump. A relação foi abalada depois que o presidente americano criticou a decisão do Reino Unido de não apoiar ações militares contra o Irã. Trump chegou a criticar diretamente o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, dizendo que ele não é um novo Winston Churchill.
Discussões vazadas no Pentágono sobre uma possível revisão do apoio dos Estados Unidos à posição britânica na disputa pelas Ilhas Falklands — chamadas de Malvinas pela Argentina — também elevaram a tensão da visita.
Mesmo assim, Trump tem separado a relação com o governo britânico da relação pessoal com o rei, que ele descreve como um amigo. A aposta é que a presença da monarquia ajude a estabilizar os laços entre os dois países.
Escândalo Epstein pressiona visita e chega ao Congresso
O escândalo envolvendo o príncipe Andrew e suas ligações com Jeffrey Epstein também voltou ao centro do debate e chegou ao Congresso americano. O deputado democrata Ro Khanna levará vítimas do criminoso sexual ao Capitólio nesta terça-feira e defende que o rei Charles tenha um encontro com elas.
Segundo ele, "o povo britânico tem sido muito firme nesse caso, exigindo responsabilidade e justiça, até mais do que o governo americano". Para Khanna, o monarca poderia apoiar as vítimas sem entrar nos detalhes do envolvimento do irmão com Epstein.
Nos bastidores, o tema também gerou desconforto dentro da própria família real. A jornalista Emily Maitlis revelou que, até duas semanas atrás, a rainha Camilla demonstrava interesse em encontrar vítimas junto de Melania Trump, destacando sua atuação histórica em defesa de mulheres e sobreviventes.
A ideia, no entanto, foi abandonada. O Palácio de Buckingham deixou claro que não haverá esse tipo de encontro durante a visita, citando riscos legais ligados a investigações em andamento nos Estados Unidos e no Reino Unido.
Agenda ambiental encerra visita
A viagem terminará com uma agenda simbólica, focada em uma das principais bandeiras do rei Charles III: o meio ambiente. Na quarta-feira (29), o monarca segue para o estado da Virgínia, no leste dos Estados Unidos, onde visita um parque nacional e participa de eventos comunitários e apresentações culturais, reforçando o compromisso com causas ambientais que ele defende há décadas.
Essa é a primeira visita de Estado de Charles aos Estados Unidos desde que assumiu o trono, em 2022, apesar de ele já ter estado no país outras 19 vezes ao longo da vida. Depois da visita, o rei e a rainha seguem para Bermuda, território britânico no Caribe, dando continuidade à agenda internacional dentro da Commonwealth, bloco que reúne o Reino Unido e países e territórios que mantêm laços históricos.
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