Memes com inteligência artificial abrem novo front na guerra entre EUA e Irã
Especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que o uso potencializado da IA gera uma instabilidade informacional sem precedentes no cenário geopolítico moderno
Enquanto a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã é marcada por um frágil cessar-fogo e pela disputa no Estreito de Ormuz, o conflito também é travado em outro campo de batalha: o da propaganda.
Bonecos Lego, Homem de Ferro, Top Gun, animações como Divertida Mente, jogos de videogame como Call of Duty e Nintendo Wii. Todas essas referências fazem parte dos memes de guerra que tomaram conta das redes sociais nas últimas semanas.
Especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que a batalha informacional pela opinião pública, quase tão antiga quanto a guerra, hoje se expandiu para um sofisticado front digital, onde as armas são animações, memes e modelos de inteligência artificial treinados com dados da cultura pop ocidental.
Em um dos vídeos com mais engajamento usado como peça de propaganda pelo Irã no conflito, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aparece como um boneco de Lego.
Suando e nervoso, ele come um taco mexicano, em uma referência à expressão 'Trump always chickens out', na sigla TACO, (Trump sempre amarela, na tradução livre).
A animação foi produzida com inteligência artificial pelo grupo Explosive Media. O post acumulou mais de 215 mil visualizações no X e foi amplamente republicado por embaixadas iranianas ao redor do mundo.
The way to crush imperialism has been shown to the world.
Trump Surrendered.
IRAN WON.
TACO will always remain TACO. pic.twitter.com/c3nXgTYznq
— Explosive Media (@ExplosiveMediaa) April 8, 2026
Em resposta, a Casa Branca também publicou outros diversos memes. Entre os mais comentados, filmagens reais do campo de batalhas são misturadas com cortes de videogames como o popular Grand Theft Auto (GTA).
O vídeo "Justice in the American Way" (Justiça na moda americana, na tradução livre) que também mescla cenas fictícias de filmes famosos com filmagens reais de ataques no campo de batalha, reuniu cerca de 65 milhões de visualizações no X.
OPERATION EPIC FURY
• Destroy Iran's missile arsenal.
• Destroy their navy.
• Ensure they NEVER get a nuclear weapon.
Locked in. pic.twitter.com/ika3MMJmZT
— The White House (@WhiteHouse) March 6, 2026
Neste contexto, o que chama a atenção dos especialistas não são os memes em si, mas a capacidade do Irã de utilizar referências ocidentais em sua estratégia de guerra comunicacional.
Eles explicam que, há alguns anos, os iranianos nunca seriam capazes de produzir uma propaganda tão culturalmente específica. Agora, a IA faz isso automaticamente, porque foi treinada explorando os dados da cultura pop.
Estratégia assimétrica do Irã
Desde o ataque dos EUA e Israel em 28 de fevereiro, o regime iraniano bloqueou o acesso à internet dentro do país. Segundo a organização NetBlocks, que mapeia segurança cibernética ao redor do mundo, os iranianos estão há mais de 54 dias sem acesso a fontes independentes de informação sobre a guerra ou sobre notícias globais. A medida, segundo relatório publicado pela organização em março, é sem precedentes em escala e duração para uma sociedade conectada.
Emma Briant, especialista em propaganda e guerra de informação da Universidade de Notre Dame, explica que, neste contexto, a estratégia informacional iraniana se volta para a comunidade internacional. "Esta é uma guerra sendo travada pelas mentes ocidentais. O regime iraniano percebe que a melhor forma de pressionar Trump é reduzir o apoio a ele, tanto internacional quanto domesticamente nos EUA", afirma.
Os temas são escolhidos para ressoar com o público ocidental: fazem referências musicais do estilo rap, animações no estilo Lego ou do filme Divertidamente e até alusões ao caso Epstein.
"Transformar tudo em desenhos animados é altamente estratégico", observa Briant. "O Irã não é um ator confiável internacionalmente. Eles precisam que nos não lembremos de quantas pessoas o regime já matou. A estética de cartum ajuda a apagar isso."
O grupo por trás dos vídeos se descreve como um "coletivo de ativismo estudantil" independente. Uma investigação do jornal britânico The Guardian e da Al Jazeera revelou, porém, que o Explosive Media recebe encomendas diretas de autoridades do governo iraniano.
Seus vídeos começaram como comentários políticos simples em 2025 e, com a escalada do conflito em fevereiro, migraram para animações em estilo Lego geradas por IA.
A explicação para o sucesso do modelo de propaganda iraniano está na arquitetura dos modelos de linguagem. Treinados majoritariamente em dados ocidentais, textos, imagens, vídeos e referências culturais, esses sistemas permitem que qualquer pessoa, independentemente de seu país de origem, produza conteúdo que soa nativo para o consumidor americano ou europeu.
Outro ponto-chave para este tipo exploração de dados foi a desregulação da IA promovida pelo governo americano. Ao retornar à Casa Branca, Trump revogou diversas ordens executivas da gestão de Joe Biden, entre elas medidas rigorosas de supervisão de inteligência artificial.
Essa ação, explica Briant, inadvertidamente armou os adversários dos EUA com suas próprias ferramentas culturais.
"A IA foi essencialmente usada contra o Ocidente, utilizando os seus próprios dados e referências culturais", afirma.
Gamificação na Casa Branca
Do outro lado, a Casa Branca optou pelo que analistas chamam de "gamificação da guerra". Vídeos oficiais mesclaram imagens reais de explosões em instalações iranianas com cenas de Call of Duty, Top Gun, Gladiator, Iron Man, Braveheart e até do Bob Esponja.
Mas Briant destaca que enquanto o Irã sustenta uma narrativa consistente em que se apresenta como vítima de agressão, em uma espécie de versão moderna de Davi contra Golias, os vídeos americanos parecem mais fragmentados. "Trump está se comunicando apenas com sua base, e não está tentando trazer o mundo inteiro para apoiar a guerra".
Efeitos da "guerra memética"
"Na guerra, a primeira que morre é a verdade". Luli Radfahrer, professor de Comunicação Digital da Universidade de São Paulo lembra da famosa citação para explicar que a propaganda de guerra sempre esteve presente nos conflitos humanos.
O professor compara o uso atual dos memes e da IA ao mimeógrafo na Primeira Guerra Mundial: uma ferramenta de produção em massa acessível que democratizou a capacidade de criar propaganda eficaz.
Ele explica que o que estamos assistindo hoje, não é nem uma novidade histórica, nem a primeira vez que a Casa Branca recorreu a memes para comunicar uma agenda geopolítica.
No início do ano, durante a ofensiva retórica de Trump pela anexação da Groenlândia, o perfil oficial da Casa Branca no X publicou uma montagem que mostrava o presidente caminhando em paisagem ártica ao lado de um pinguim, um animal que não é nativo do Ártico, rumo a uma bandeira americana fincada no gelo.
A imagem foi amplamente ridicularizada nas redes sociais, inclusive na Dinamarca, e o episódio tornou-se um caso exemplar de como a comunicação por meio de memes pode fragilizar a credibilidade institucional de um governo.
Para os especialistas, a prática ainda representa uma faca de dois gumes: ganha engajamento e viralidade, mas perde credibilidade institucional.
A professora Tine Munk, da Universidade de Nottingham Trent, pesquisadora de guerra memética desde o conflito na Ucrânia em 2022, identifica três mecanismos centrais neste novo front:
- A desumanização: ao transformar combatentes e civis em bonecos de Lego ou personagens de videogame, ambos os lados retiram a humanidade do adversário.
- A normalização. Assim como moradores de cidades em conflito se acostumam ao som de explosões, o público que consome memes de guerra cotidianamente passa a encarar ataques a instalações civis como entretenimento.
- A erosão da confiança. Quando conteúdo verdadeiro e falso circulam indistintamente, o público não aprende a identificar mentiras, aprende a desconfiar de tudo.
Essa fórmula ainda pode sair pela culatra. Quando Trump publicou uma imagem sua com traços de Jesus Cristo ressuscitado, em meio a uma disputa verbal com o papa Leão XIV sobre quem representa a paz no conflito, a reação nas redes foi avassaladora.
"O problema dessa comunicação pulverizada e banalizada por memes é que faz com que o indivíduo respeite menos a comunicação de verdade", diz Radfahrer. "No fundo, o que estamos vendo é um terrorismo informacional. E não sei quando isso pode se recuperar."
No meio tempo, a guerra memética está cada vez mais se tornando uma característica padrão do conflito moderno.
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