Gaza: médicos estrangeiros alertam para ferimentos 'piores que em qualquer outro conflito moderno'
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou na quinta-feira (25) o fechamento de sua clínica na Cidade de Gaza. A insegurança crescente, marcada por intensos bombardeios e o avanço de tanques israelenses, tornou impossível a continuidade das atividades médicas. Cerca de 40 médicos e enfermeiros ainda atuavam no local. Todos foram obrigados a se retirar para o sul da Faixa de Gaza.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou na quinta-feira (25) o fechamento de sua clínica na Cidade de Gaza. A insegurança crescente, marcada por intensos bombardeios e o avanço de tanques israelenses, tornou impossível a continuidade das atividades médicas. Cerca de 40 médicos e enfermeiros ainda atuavam no local. Todos foram obrigados a se retirar para o sul da Faixa de Gaza.
Um momento doloroso para Mathieu Bichet, diretor médico adjunto do Médicos Sem Fronteiras (MSF), que esteve presente durante a evacuação. "Tivemos que arrumar tudo muito rapidamente, tentando atender o maior número possível de pacientes", relatou em Jerusalém. "Ontem, ainda conseguimos tratar 150 pessoas. São ferimentos de guerra: amputações, mulheres, crianças, homens atingidos por ataques aéreos ou por drones armados, que disparam contra civis."
"Eu mesmo tratei uma mulher ferida na perna por um drone", acrescentou. "Também vemos feridas antigas, infectadas, em estado catastrófico. A maioria desses pacientes deveria estar hospitalizada em condições normais. Mas a capacidade de atendimento em Gaza é extremamente limitada."
Ferimentos 'de gravidade incomum'
As observações do Médicos Sem Fronteiras (MSF) coincidem com as de um estudo publicado na sexta-feira (26) pelo British Medical Journal (BMJ). Setenta e oito profissionais humanitários, em sua maioria vindos da Europa e da América do Norte, relataram que os ferimentos sofridos por civis palestinos em Gaza são "mais graves do que os observados em outros conflitos modernos".
Dois terços dos entrevistados já haviam atuado em zonas de guerra. "A grande maioria afirma que o que viram em Gaza é a pior coisa que já presenciaram", destaca Omar El-Taji, cirurgião britânico e autor principal do estudo.
Os médicos e enfermeiros entrevistados contabilizaram mais de 23.700 casos de trauma e cerca de 7 mil ferimentos causados por armas, números próximos aos divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses dados reforçam a gravidade da situação em Gaza e o impacto devastador sobre a população civil.
Mais de dois terços desses ferimentos são causados por explosões, uma taxa duas vezes maior do que a observada em outros conflitos civis recentes, e comparável à registrada entre soldados americanos no Iraque e no Afeganistão.
"A gravidade, a distribuição e o caráter militar das lesões ultrapassam tudo o que foi relatado em conflitos modernos", aponta o estudo.
Omar El-Taji relata ter visto "um número chocante de crianças com queimaduras tão profundas que era possível ver o músculo e o osso".
Uma população ainda encurralada
Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), cerca de 400 mil pessoas permanecem na Cidade de Gaza, concentradas na região oeste, em uma área de apenas dez por cinco quilômetros. Elas vivem sob constantes bombardeios, em um território onde os recursos estão se esgotando rapidamente.
"As pessoas estão desesperadas", relata Mathieu Bichet. "Há cada vez menos comida nos mercados. Muitos não têm outra opção a não ser ficar. O sul está superlotado, e alguns chegam até a fazer o caminho inverso, voltando para o norte."
ONU declara oficialmente a fome em Gaza, a primeira no Oriente Médio
No dia 22 de agosto, a Organização das Nações Unidas declarou oficialmente a existência de fome em Gaza, a primeira registrada no Oriente Médio, após especialistas alertarem que 500 mil pessoas se encontram em situação "catastrófica".
Profissionais de saúde internacionais relatam condições de trabalho extremas, com hospitais completamente sobrecarregados. Em meio à escassez de suprimentos, alguns médicos chegaram a doar seu próprio sangue para compensar o esgotamento dos estoques.
(Com RFI)