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Fé, conservadorismo e futebol: as polêmicas do alemão Felix Nmecha

19 jun 2026 - 12h00
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Craque da seleção alemã de futebol é um cristão fervoroso que exibe sua crença de forma ostensiva. Fora dos campos, porém, ele é acusado de endossar transfobia e a homofobia.Nenhum jogador da seleção alemã de futebol demonstra sua fé cristã tão abertamente quanto Felix Nmecha. O meio-campista, que marcou o primeiro gol da Alemanha na estreia contra Curaçao na Copa do Mundo - vitória por 7 a 1 em jogo disputado no último domingo em Houston -, é um cristão devoto e fervoroso seguidor de Jesus.

Durante a comemoração do primeiro gol alemão nesta Copa do Mundo, Nmecha fez referências a Jesus
Durante a comemoração do primeiro gol alemão nesta Copa do Mundo, Nmecha fez referências a Jesus
Foto: DW / Deutsche Welle

"O futebol é minha paixão, Jesus é meu alicerce", é possível ler em sua página no Instagram. "Sempre que entro em campo, não se trata de mim, mas de glorificar a Deus", disse ele certa vez ao canal do YouTube de seu clube na época, o Wolfsburg.

Quando a seleção alemã chegou ao estádio para a partida contra Curaçao, Nmecha desceu do ônibus com uma Bíblia na mão. Após marcar o gol que abriu o placar, ele se ajoelhou no gramado, apontou para o céu e, em seguida, fingiu tirar uma coroa da cabeça para colocá-la aos pés de Jesus. Após o apito final, formou um círculo junto com o zagueiro alemão Jonathan Tah e quatro jogadores de Curaçao, e todos rezaram juntos.

"Durante a partida, somos adversários, mas depois somos todos cristãos, somos todos irmãos e estamos muito gratos. No geral, acreditamos que Jesus é glorificado por meio do jogo. Por isso nos reunimos e rezamos juntos", explicou Nmecha sobre a iniciativa em entrevista à televisão alemã.

Conteúdos transfóbicos e homofóbicos

A fé é uma questão privada. O grau de fé, o motivo e em qual Deus se acredita são decisões livres de cada pessoa e são, inclusive, garantidos pelo Artigo 4 da Lei Fundamental Alemã, a Constituição do país. Nmecha, porém, não professa sua crença apenas na esfera privada, mas sim ostensivamente em público, o que lhe rende aprovação e também rejeição e críticas.

Algumas declarações e atitudes do jogador, como sua comemoração ou o fato de carregar uma Bíblia, podem parecer exageradas ou até mesmo excêntricas para quem é menos ou nada religioso. O problema é quando pessoas ou grupos são difamados, com direitos humanos sendo-lhes negados.

Quando Nmecha saiu do Wolfsburg para o Borussia Dortmund, em 2023, houve protestos da torcida do novo clube, pois no passado o jogador havia compartilhado ou curtido várias vezes conteúdos transfóbicos e homofóbicos em sua conta do Instagram.

Em uma das postagens, o movimento LGBTQ+ e o termo "Pride" foram comparados ao diabo. Em outra, um extremista de direita americano zombou de uma criança transgênero.

Diante das fortes críticas, Nmecha excluiu algumas postagens e divulgou uma declaração: "Ao longo da minha trajetória no futebol, conheci pessoas das mais diversas origens, etnias e crenças. É importante para mim enfatizar que amo verdadeiramente todas as pessoas e não discrimino ninguém".

Mas nem todo mundo acredita nessa mudança, a exemplo de um usuário que escreveu o seguinte: "Essa postagem não é sincera. Sinceras eram as postagens excluídas de certos pregadores extremistas que, a propósito, não têm nada a ver com a fé cristã".

Presidente do Dortmund: "Um jogador bem normal"

Mesmo em meio às polêmicas, a transferência para o Borussia Dortmund ocorreu. A diretoria do clube se reuniu com Nmecha e conversou extensivamente sobre seus valores e pontos de vista.

Posteriormente, o presidente do Dortmund, Hans-Joachim Watzke, declarou: "É um rapaz bem normal. Um jogador de futebol normal". E não houve objeções à transferência. Mas ele foi orientado a não assumir uma postura missionária no clube.

Em setembro de 2025, ele voltou a chamar atenção após lamentar, no Instagram, o assassinato do ativista conservador americano Charlie Kirk. Sem endossar as ideias dele, lamentou a morte violenta de um marido e pai de dois filhos.

"Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Comemorar o assassinato de um pai de dois filhos e marido, um homem que defende pacificamente suas convicções e valores, é realmente maligno e mostra o quanto precisamos, de fato, de Jesus Cristo", escreveu. Mais tarde, acabou excluindo a postagem.

Mentor religioso na Inglaterra

Uma referência importante para Nmecha é o ex-jogador profissional de futebol John Bostock, que, durante sua carreira, entre 2007 e 2024, jogou, entre outros lugares, na Bélgica, na França, na Turquia e na segunda divisão inglesa.

O inglês, que tem raízes em Trinidad e Tobago, fundou e desenvolveu a partir de 2015 a rede BIG, sigla para Ballers in God (Jogadores de Deus, em tradução livre). Cristão convicto, Bostock desejava criar uma comunidade na qual jogadores de futebol profissionais pudessem se fortalecer mutuamente por meio da fé, orar juntos e ler a Bíblia.

O BIG cresceu e se tornou uma comunidade internacional que une os jogadores e os ajuda a viver sua fé no dia a dia profissional. Entre eles está Nmecha, que considera Bostock seu mentor, e também o goleiro brasileiro Alisson Becker.

Na rede social X, com 24,6 mil seguidores, e no Instagram, com 757 mil, o BIG publica fotos e vídeos de jogadores que, ao comemorarem ou rezarem em campo, prestam homenagem a Jesus como o maior dos reis, ou que falam sobre sua fé em entrevistas.

Nmecha aparece com frequência nos canais do BIG. A sua comemoração contra Curaçao é um exemplo - aparentemente, a celebração é usada também por outros jogadores para demonstrar veneração a Jesus.

Companheiro de equipe aceito e querido

No fim das contas, será que Felix Nmecha é, como disse o presidente do Borussia Dortmund, "um jogador de futebol normal"? Na seleção, sua fé é praticada abertamente e não parece ser um problema. Nmecha é aceito e considerado um companheiro querido.

"Ele é um excelente jogador de futebol que vai nos trazer muita alegria", afirmou o técnico da seleção alemã, Julian Nagelsmann.

"É muito divertido jogar com o Felix, ele é um jogador de primeira", elogiou Aleksandar Pavlovic, do Bayern de Munique, companheiro de Nmecha na seleção.

Um fato, no entanto, também é certo: ele é definitivamente o mais religioso entre os participantes alemães da Copa do Mundo. E se destaca por isso.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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