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As Principais Notícias da Europa

Por que a Europa está esquentando duas vezes mais rápido que o resto do planeta?

Elaborado por 100 cientistas, o 9º relatório do Copernicus, o programa europeu de observação da Terra, publicado neste 29 de abril, sintetiza as observações bioclimáticas no Velho Continente para o ano de 2025. Novos recordes foram batidos: ondas de calor terrestres e marinhas, incêndios, derretimento, insolação e uma biodiversidade ameaçada.

29 abr 2026 - 09h36
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Em nível mundial, o ano passado foi o terceiro mais quente da história dos registros meteorológicos, lembra o relatório: a temperatura média do ar foi superior em +1,47°C em relação à era pré‑industrial. Ela fica logo atrás de 2024 (que ultrapassou 1,5°C de aquecimento, com +1,6°C) e 2023.

Para a Europa especificamente (que se estende até a Turquia e parte da Rússia), 2025 figura no trio dos anos recordes: o mais quente, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), parceira do relatório; o terceiro, segundo os parâmetros e dados utilizados pelo serviço Copernicus sobre mudança climática (C3S).

De qualquer forma, em 2025, a quase totalidade do continente europeu (entre 95% e 99%) viveu sob temperaturas mais altas do que a média das três décadas anteriores (1991‑2020). A mudança climática é, portanto, observada tanto no espaço, em toda a Europa, quanto nos anos mais recentes, sinal de uma piora, destaca Samantha Burgess, responsável estratégica para o clima do Serviço Copernicus de Mudança Climática (C3S), que comentou o relatório durante uma coletiva de imprensa online.

A Europa também é o continente que mais rapidamente se aquece desde os anos 1980, confirma a síntese do programa espacial da União Europeia. Mais de duas vezes mais rápido que a média mundial: +0,56°C por década desde 1996, contra +0,27°C. Para comparação, a África se aquece a uma média de 0,36°C, a Ásia de 0,46°C, a América do Norte de 0,42°C e a América Central e do Sul de 0,27°C.

Mas por quê?

Quatro fatores explicam esse aquecimento claramente mais rápido na Europa do que em outras regiões.

"A primeira razão é geográfica", destaca Samantha Burgess. "A Europa inclui uma parte da região Ártica. E o Ártico está se aquecendo três a quatro vezes mais rápido que a média mundial", puxando a média europeia para cima. Essa região polar ganhou 0,75°C por década.

Assim, a Fenoscândia, uma região que engloba a Noruega, a Suécia, a Finlândia e a península russa de Kola, registrou 21 dias acima de 10,2°C em julho, de um total de 30. Um episódio inédito por sua severidade, sua duração (o recorde anterior era de 11 dias) e sua extensão geográfica. "De modo geral", contextualiza a cientista, "a maior parte dessa região experimenta até dois dias de forte calor por ano, quando a temperatura percebida atinge 32 graus ou mais." Um pico de 34,9°C foi registrado em 17 de julho em Frosta (Noruega), logo abaixo do círculo polar ártico.

Outro fator: "as mudanças na circulação atmosférica favorecem as ondas de calor. Elas são mais frequentes e mais intensas, do Mediterrâneo ao círculo polar ártico". Para a pesquisadora, o fato de observar três semanas consecutivas de forte estresse térmico na região da Fenoscândia "evidencia o impacto da mudança climática".

A terceira razão é contraintuitiva: é a redução da poluição do ar. "Temos menos poluentes atmosféricos ou aerossóis. Ora, esses aerossóis formam nuvens que agem como um espelho: elas impedem que a energia solar atinja a terra. Agora que melhoramos a qualidade do ar, a refletividade das nuvens está reduzida. Portanto, recebemos mais radiação solar."

A última explicação segue o mesmo princípio: a diminuição da cobertura de neve na Europa. Em março de 2025, no fim do inverno, essa cobertura havia diminuído 30% em relação a 1991‑2020, o equivalente à França, Alemanha, Itália, Suíça e Áustria. É a terceira cobertura mais baixa já registrada.

Essa retração também reduz a refletividade das superfícies brancas. Com cada vez menos neve e mais rocha escura, que absorve mais energia, as regiões alpinas da Europa se aquecem mais rapidamente que a média do continente. O derretimento dos glaciares, tanto nas montanhas quanto na calota polar, também se acelera. A Groenlândia perdeu 139 gigatoneladas de gelo no ano, o equivalente a 100 piscinas olímpicas; a Islândia perdeu a segunda maior massa glacial de sua história. Isso contribui para a elevação do nível do mar.

Um iceberg em Nuuk, em 7 de março de 2025. A Groenlândia perdeu 139 gigatoneladas de gelo no ano passado, o equivalente a 100 piscinas olímpicas.
Um iceberg em Nuuk, em 7 de março de 2025. A Groenlândia perdeu 139 gigatoneladas de gelo no ano passado, o equivalente a 100 piscinas olímpicas.
Foto: RFI

O aumento da temperatura também é medido na superfície da água. A quase totalidade (86%) das águas europeias experimentou pelo menos uma forte onda de calor marinha, fenômeno que agora ocorre anualmente. Para a região oceânica, é um recorde de temperatura pelo quarto ano consecutivo. Para o Mediterrâneo, é o segundo ano mais quente, logo atrás de 2024. Em 2025, metade da bacia experimentou condições de calor severas ou extremas.

Questionada durante a coletiva de imprensa sobre o provável retorno do fenômeno climático El Niño, Celeste Saulo, secretária‑geral da OMM, não esconde seu receio de vê‑lo retornar este ano: "A última atualização mensal do clima sazonal mundial da OMM mostra uma mudança clara no Pacífico equatorial. Isso significa que as temperaturas da superfície do mar estão aumentando rapidamente e sugerem um retorno provável das condições de El Niño já em maio ou julho de 2026. Mas o nível de previsibilidade não é muito alto. É preciso esperar até maio para ver se esse El Niño evolui para um El Niño forte ou fraco. E todos nós conhecemos suas consequências. 2024 foi o ano mais quente já registrado por causa do El Niño."

Portugal e Espanha, das chuvas aos mega‑incêndios

A Europa enfrentou uma onda de eventos extremos em 2025. Tempestades e inundações causaram 21 mortes e afetaram 14.500 pessoas no continente. A tempestade Eowin, que atingiu a Irlanda, o Reino Unido e a Noruega, foi classificada pelo serviço meteorológico britânico como a mais poderosa vivida no país em mais de uma década.

No verão, os incêndios queimaram um milhão de hectares de territórios europeus no ano passado, um recorde. É como se a ilha de Chipre tivesse virado cinzas.

O norte da Europa não foi poupado: os incêndios nunca foram tão numerosos nos Países Baixos, na Inglaterra e na Alemanha. "A temporada de incêndios começou excepcionalmente cedo", observa Samantha Burgess, já em fevereiro para o Reino Unido e a Irlanda.

Em 2025, as condições gerais foram mais secas que a média na maior parte da Europa, mas com fortes contrastes regionais. Em contrapartida, o sudoeste e algumas partes do nordeste da Europa registraram precipitações acima da média. Esse dado está correlacionado aos incêndios. Por quê?

A explicação está na Península Ibérica, onde a transição entre a estação úmida e a estação seca é a mais brusca. "Portugal e Espanha tiveram uma primavera incrivelmente úmida. Houve muitas tempestades e inundações. A vegetação regional cresceu muito rapidamente." Esse período foi seguido por ondas de calor. Assim, os espanhóis suportaram um recorde de mais de 50 dias com temperaturas acima dos 32°C de sensação. As regiões do sul desses dois países chegaram a viver seis dias extremos acima de 46°C.

Bombeiro tenta conter o fogo na floresta de Veiga das Meas, na Espanha, em 16 de agosto de 2025.
Bombeiro tenta conter o fogo na floresta de Veiga das Meas, na Espanha, em 16 de agosto de 2025.
Foto: RFI

Secando mais rápido, a flora se transforma e constitui um reservatório de combustível ideal para alimentar grandes focos de incêndio: 65% da área queimada na Europa em 2025 ocorreu nesses dois países.

Declínio da biodiversidade

A mudança climática provoca o declínio da biodiversidade, que por sua vez acelera a mudança climática. A natureza está submetida a um estresse crescente.

As turfeiras, zonas úmidas cobertas por vegetação densa e baixa, estão sofrendo. Durante períodos de seca, a queda do nível dos lençóis freáticos resseca a turfa. A área torna‑se então altamente inflamável.

"Os incêndios podem se espalhar rapidamente e, sobretudo, arder sob a terra durante semanas ou até vários meses, sendo muito, muito difíceis de apagar", insiste Claire Scannell, meteorologista irlandesa.

Ora, esses ecossistemas são de importância crucial por sua função de sumidouros de carbono, cuja capacidade é muitas vezes muito superior à das florestas. Sua degradação os transforma em fontes de emissões de gases de efeito estufa. Mais uma vez, a Europa se destaca pela perda massiva de suas turfeiras.

No mar, a biodiversidade também é pressionada. O relatório faz um foco sobre as posidônias do Mediterrâneo, pradarias submarinas que se estendem por quase 20 mil quilômetros quadrados ao longo das costas. Elas estão particularmente ameaçadas devido à sua sensibilidade às temperaturas.

Mais radiação solar na Europa, a hidreletricidade em questão

A radiação solar foi superior à média em 2025. "Isso não é uma tendência nova, nós a observamos desde os anos 1980", comenta Samantha Burgess. "Desde a lei europeia sobre a qualidade do ar, as concentrações de aerossóis diminuíram. A cobertura de nuvens também se reduziu."

Em grande parte do continente, o aumento de insolação resultou em uma produção de energia solar superior à média, num momento em que a Europa acelera sua transição para a energia limpa.

As energias eólica e solar contribuíram sozinhas com 30,5% (12,5% para a solar). Na UE, 14 países entre 27 produzem mais eletricidade a partir de energias renováveis do que de combustíveis fósseis.

Parque eólico no mar da Bretanha, na França.
Parque eólico no mar da Bretanha, na França.
Foto: RFI

Por outro lado, no aspecto hidrológico, a tendência é menos favorável. As vazões da rede fluvial europeia ficaram abaixo da média em 11 dos 12 meses do ano passado. Daí decorrem inúmeras consequências, especialmente sobre a resiliência das infraestruturas energéticas: funcionamento das barragens hidrelétricas e resfriamento das usinas nucleares.

A hidreletricidade, enquanto forma de energia renovável, é um dos setores em que a ligação com o clima é mais importante. Portanto, é preciso se preparar para uma pressão maior durante os períodos de pico de demanda. Vimos isso há alguns anos com a seca no norte da Itália", comenta Carlo Buontempo. A temperatura aumenta, a evaporação também. Em contrapartida, as precipitações, especialmente na região mediterrânea, não aumentarão, assim como o manto de neve.

Diante de todas essas constatações, é necessário acelerar as políticas de mitigação e adaptação em escala europeia, admite Dusan Chrenek, conselheiro da Direção‑Geral de Ação Climática da Comissão Europeia.

Em 2024, a avaliação europeia dos riscos climáticos destacou uma falta de preparação em vários setores, como energia, saúde, ecossistemas, agricultura e economia. O Quadro Europeu para a Adaptação à Mudança Climática é esperado para o segundo semestre de 2026.

Com RFI

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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