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Encontro da esquerda em Barcelona: ponto de inflexão?

Em Barcelona, a esquerda global ensaiou sair da defensiva e voltar a ousar. Resta saber se o encontro marcará um verdadeiro ponto de inflexão ou se ficará apenas no diagnóstico de uma crise que já dura tempo demais.

27 abr 2026 - 15h03
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Thomás Zicman de Barros, analista político

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, discursa na Mobilização Progressista Global em Barcelona, Espanha, em 18 de abril de 2026.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, discursa na Mobilização Progressista Global em Barcelona, Espanha, em 18 de abril de 2026.
Foto: REUTERS - Nacho Doce / RFI

Em 18 de abril, Barcelona sediou o encontro da Mobilização Progressista Global. Mais de cem organizações, oriundas de 72 países, reuniram-se na capital catalã sob os auspícios de Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol. O evento se inscreve na continuidade de encontros realizados em Nova York e Santiago, agora ampliados por iniciativa de Sánchez e do presidente Lula, em parceria com a aliança social-democrata europeia, com o objetivo de incorporar mais atores da sociedade civil. Muitos celebraram Barcelona como um ponto de inflexão. E, ao menos no diagnóstico que a esquerda faz da política global, há algo de novo.

Ao longo do último ano, critiquei diversas vezes o estado da esquerda no mundo. Disse aqui que partidos e lideranças progressistas têm se tornado, paradoxalmente, forças conservadoras. Sim, conservadoras: enquanto a extrema direita ocupa o lugar da ruptura, da transgressão, impondo uma espécie de revolução reacionária, a esquerda quer proteger as instituições, muitas vezes sem enfrentar seus limites estruturais.

Num contexto de erosão democrática, em que se coloca em xeque a luta pela igualdade, o pilar básico da democracia, a esquerda parece apenas atuar na redução danos. É como se administrasse cuidados paliativos a um paciente terminal: a própria democracia.

Líderes da esquerda latino-americana em destaque 

O encontro de Barcelona foi, por assim dizer, plural. Dos Estados Unidos, por vídeo, participaram vozes tão diversas quanto a moderadíssima Hillary Clinton e figuras "radicais" como Bernie Sanders e Zohran Mamdani. A presença de muitos representantes da África, como o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, também mostrou como a iniciativa buscou se abrir ao Sul Global. E foi precisamente no Sul Global, notadamente na América Latina, que o evento encontrou seu centro de gravidade: Claudia Sheinbaum, do México, Gustavo Petro, da Colômbia, e, sobretudo, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, foram estrelas do evento. Foram eles, ao lado de Sánchez, que deram a linha. A mensagem ficou explícita no discurso de Lula: é preciso que a esquerda saia da defensiva.

Em certo sentido, em Barcelona se viu a social-democracia assumir que precisa voltar a ousar. Isso dito, para saber se o evento será o tal ponto de inflexão para a esquerda global, resta descobrir se conseguirão transformar diagnóstico em ações. É fácil dizer que falta imaginação política. Muito mais difícil é produzir novas ideias.

O próprio Sánchez talvez sugira caminhos nesse sentido. No governo, ele conseguiu recompor a esquerda incorporando pautas e práticas que vinham de forças mais à esquerda, como Podemos e Sumar, hoje minoritárias diante de PSOE hegemônico neste campo. O espanhol denuncia o genocídio em Gaza, regulariza centenas de milhares de imigrantes em meio a uma onda de histeria racista na Europa e avança em reformas trabalhistas que ampliam direitos. 

Cúpula de Barcelona atacou as formas contemporânea do capitalismo

Transformar a vida das pessoas também passa por definir com clareza o adversário. A cúpula de Barcelona não atacou o capitalismo em si, mas suas formas contemporâneas. A defesa da taxação dos super-ricos como forma de enfrentar a concentração extrema de renda foi um ponto de destaque, assim como crítica às Big Tech. Essas empresas não apenas amplificam discursos de ódio e fragilizam o espaço público, como também aprofundam a precarização do trabalho, dissolvem formas de organização coletiva e corroem vínculos de solidariedade.

Uma política emancipatória passa, portanto, pela reconstrução de um tecido social comum. Isso envolve voltar a engajar as pessoas em torno de um horizonte compartilhado: uma vida sem exploração, num planeta habitável, que inclua aqueles que até hoje permanecem sem voz, invisíveis.

Esse novo mundo comum só poderá surgir numa luta global. Na última década, a extrema direita se organizou em redes internacionais, enquanto dinamitavam fóruns internacionais. 

Em Barcelona, talvez tenhamos visto uma importante resposta. Mas se será, de fato, esse ponto de inflexão, só saberemos quando - e se - esse diagnóstico se transformar em transformação concreta na vida das pessoas.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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