Chernobyl, 40 anos depois: médico ucraniano desafiou protocolos e salvou vítimas da radiação
A Ucrânia marca neste domingo (26) o 40º aniversário do acidente de Chernobyl, a pior catástrofe nuclear civil da história, em um momento em que a central volta a enfrentar riscos decorrentes da guerra com a Rússia. Em 26 de abril de 1986, a explosão do reator 4 da usina mudou de forma irreversível a vida de milhões de pessoas na Ucrânia e além de suas fronteiras. Quatro décadas depois, as consequências da tragédia seguem presentes, tanto nos impactos à saúde quanto na memória daqueles que estiveram na linha de frente da resposta ao desastre.
Com informações de Emmanuelle Chaze, da RFI.
Entre eles estava o professor Leonid Kindzelski, então chefe de radiologia da República Socialista Soviética da Ucrânia e um dos primeiros socorristas médicos a atuar após a explosão. Figura respeitada entre os sobreviventes de Chernobyl, Kindzelski teve papel decisivo no tratamento das vítimas da síndrome aguda da radiação, embora seu nome permaneça pouco conhecido fora da Ucrânia. Sua história é hoje reconstituída pelo filho, o médico Andrei Kindzelski.
No dia do acidente, a família não foi informada sobre o que havia ocorrido. Em vez disso, agentes do Estado levaram Leonid Kindzelski de casa, sem explicações. Apenas no dia seguinte ele conseguiu telefonar: disse que estava bem e deu uma orientação urgente — "coloquem duas gotas de iodo em um copo de leite e bebam imediatamente. Digam a todos que conseguirem para fazer o mesmo". Pouco depois, Andrei, então estudante do quinto ano de medicina, foi enviado à região de Chernobyl sob ameaça de não concluir o curso caso se recusasse.
A resposta ao desastre mobilizou centenas de milhares de pessoas — bombeiros, engenheiros, soldados e profissionais de saúde — em um esforço sem precedentes. A liberação maciça de material radioativo contaminou solo e atmosfera, provocando problemas de saúde que persistem até hoje. Para muitos historiadores, a catástrofe também acelerou o colapso da União Soviética, ao expor a fragilidade de um regime já em crise.
Nos dias seguintes à explosão, Leonid Kindzelski enfrentou o desafio médico e político de tratar pacientes gravemente irradiados dentro de um sistema rígido e profundamente politizado. Embora Moscou tivesse anunciado que todos os feridos estavam hospitalizados no Hospital nº 6, na capital russa, metade deles permaneceu em Kiev, na clínica onde ele trabalhava. A partir desse momento, esses pacientes se tornaram, na prática, "ilegais". Kindzelski foi proibido de registrar diagnósticos de radiação aguda e de realizar transplantes completos de medula óssea.
Ainda assim, desenvolveu abordagens próprias e inovadoras. Divergindo dos protocolos internacionais adotados em Moscou — baseados em imunossupressão intensa e transplante total de medula —, ele defendia que aqueles jovens bombeiros e trabalhadores "não tinham tumores, nem células malignas". Para ele, tratava‑se de pessoas saudáveis cuja medula óssea havia sido temporariamente inativada pela radiação.
Sua estratégia consistia em transplantes parciais, capazes de sustentar os pacientes até que a própria medula recuperasse a função, permitindo depois a rejeição controlada da medula do doador. O processo era "administrável, doloroso e desagradável", mas clinicamente controlável. Graças a esse método, quase todos os 35 pacientes tratados sobreviveram. Apenas um morreu — ele havia recebido uma dose de radiação várias vezes superior à letal.
Outra contribuição pioneira foi a introdução de técnicas de desintoxicação, como a hemossorção e a enterossorção, para remover radionuclídeos e metais pesados do sangue. O próprio Andrei foi submetido a esses procedimentos após ser irradiado durante sua missão em Chernobyl.
Controle do discurso sobre a tragédia
Todo esse trabalho foi realizado sob vigilância constante da KGB, a principal agência de segurança e espionagem da União Soviética durante a Guerra Fria. Kindzelski perdeu cargos administrativos, teve prontuários escondidos para evitar o desaparecimento de provas e viveu sob risco permanente de prisão. Ainda assim, recusou‑se a afirmar publicamente que "estava tudo bem" ou que não havia radiação, atitude que lhe custou isolamento ainda maior.
Os próprios pacientes tinham consciência da gravidade da situação. Ao receberem notícias da morte de colegas hospitalizados em Moscou, perguntavam: "Se meu colega morreu, quando eu vou morrer?". A resposta de Kindzelski era sempre a mesma: "Vocês não vão morrer. Vocês vão se recuperar". Poucos acreditavam.
Para reforçar a esperança, ele organizou uma arrecadação entre sua equipe para comprar roupas civis aos doentes, cujas vestimentas haviam sido enterradas por estarem contaminadas. Para eles, esse gesto simples tinha um significado profundo: "se alguém estava gastando dinheiro para nos vestir, era porque sairíamos vivos".
"Herói da Ucrânia"
Após o desastre, Kindzelski continuou trabalhando quase sozinho na medição da radiação em um raio de até 30 quilômetros da usina, constatando níveis extremamente irregulares. A exposição cobrou seu preço. Sua saúde se deteriorou ao longo dos anos, ele desenvolveu câncer e morreu em 1999, sem reconhecimento oficial.
Somente em 2021, mais de três décadas após Chernobyl, o Estado ucraniano concedeu‑lhe postumamente o título de "Herói da Ucrânia", a mais alta honraria civil do país. Para o filho, o reconhecimento tardio não apaga o sofrimento, mas preserva a memória de um homem que nunca acreditou ter agido de forma errada. "Os resultados falavam por si", diz.
Ao receber a medalha em 2022, na Embaixada da Ucrânia em Washington, Andrei resumiu o legado do pai: trata‑se de um país que, "mesmo em meio à guerra, ainda encontra uma maneira de honrar aqueles que merecem". E conclui: "Um país assim não pode perder uma guerra".
Com RFI
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