Pichações refletem o desespero nas ruas da Grécia
As mensagens são fortes: o primeiro-ministro é um fantoche do FMI, a vida dentro do euro é uma sentença de morte e não votem.A poucos dias de uma eleição que pode definir a permanência ou exclusão da Grécia na zona do euro, as pichações cobrem de raiva as paredes de Atenas, e às vezes seus monumentos históricos.
"É por causa do desespero", disse Theodosis Pelegrinis, reitor da Universidade de Atenas, cuja elegante fachada neoclássica não escapou dos pichadores. "Se você não tem esperança pelo futuro, tenta destruir tudo."
O inconclusivo pleito anterior, em 6 de maio, puniu os dois partidos mais tradicionais do país, Pasok (socialista) e Nova Democracia (ND, conservador), que se revezavam no poder desde o fim do regime militar, em 1974. Não por acaso, a maior parte das pichações tende ao extremismo.
"Queimem as urnas", grita a tinta preta na parede do Museu de Numismática, um casarão branco e amarelo. "Queimem o Parlamento", conclama outra pichação. As árvores da praça Sintagma e as plantas no caminho da Acrópole ostentam símbolos do movimento anarquista, uma letra A dentro de um círculo.
Os pichadores são praticamente ignorados pela polícia, que diz ter outras preocupações - como o aumento na criminalidade. Mas eles são sintoma de uma sociedade que começa a se esgarçar. Em alguns pontos onde os grafites brotam como musgo, matilhas de cães vadios se aquecem ao sol, e viciados se drogam abertamente. Algumas pichações são mais sofisticadas, mas a maioria é feia e desbocada. Para desgosto dos turistas, as atrações históricas não são poupadas.
"Está em todo lugar", disse o turista australiano David Grove, que tirava uma foto de uma igreja numa das principais artérias atenienses. "É desagradável, hostil, vandalismo puro." Na histórica Academia de Atenas, por exemplo, as estátuas de Platão e Sócrates estão agora cobertas por endiabradas pichações vermelhas e pretas.
"Durante as décadas de 1970 e 80, havia muitas pichações inteligentes", disse Pelegrinis, cuja reitoria é vizinha à academia. "Mas, hoje em dia, as pessoas escrevem nas paredes sem dizerem nada. É um tipo de moda." Mas há um tipo de pichação, em prédios fadados à demolição, que é admirada por moradores e autoridades, por divertirem e avivarem as ruas.
Um pichador que se identifica como "Bleeps.gr" diz que quer fazer as pessoas refletirem sobre a crise e seus efeitos sobre o cotidiano da população. "Eu gostaria que as pessoas interpretassem mais o que está acontecendo", disse ele por telefone. Num de seus murais, uma prostituta de biquíni representa "o próximo modelo econômico grego". Em outra, "o sono do resgate", uma Grécia algemada está num túmulo. "Fúria na gaiola constitucional" mostra um homem com cabeça de leão, atrás de grades.
Fontes policiais dizem que não adianta reprimir as pichações, porque elas voltam. "É como o mármore da praça Sintagma", disse um policial. "Os manifestantes o arrancam e ele é substituído. Mas duas semanas depois está quebrado de novo. A cidade está esperando que a estabilidade volte, antes de limpar."
Muitos gregos dizem que, embora não gostem das pichações, as veem como reflexo da agonia grega. "O tempo em que vivemos é agressivo", disse a recepcionista de hotel Katarina Adam. "A arte expressa a vida, então, se seguirmos essa definição, é razoável que o grafite seja agressivo."
Mas outro tema recorrente nas pichações é o desespero. Em frente a um prédio da prefeitura, no centro de Atenas, alguém desenhou uma venda negra sobre os olhos da estátua de Atena, deusa grega da sabedoria.
E, no bairro turístico de Plaka, um irônico anúncio de emprego apareceu numa esquina dilapidada: "Procura-se, vivo ou morto - primeiro-ministro grego. Não é preciso ter qualificações nem cérebro".