Justiça francesa aumenta pena de único acusado de estuprar Gisèle Pelicot que recorreu da sentença
A Justiça francesa condenou nesta quinta-feira (9) a 10 anos de prisão o único acusado de estuprar Gisèle Pelicot que recorreu da sentença inicial. O julgamento do recurso foi realizado esta semana em Nîmes, no sul da França, um ano após a repercussão mundial do caso dos estupros coletivos. Em primeira instância, Husamettin Dogan havia sido condenado a 9 anos de prisão.
A Justiça francesa condenou nesta quinta-feira (9) a 10 anos de prisão o único acusado de estuprar Gisèle Pelicot que recorreu da sentença inicial. O julgamento do recurso foi realizado esta semana em Nîmes, no sul da França, um ano após a repercussão mundial do caso dos estupros coletivos. Em primeira instância, Husamettin Dogan havia sido condenado a 9 anos de prisão.
"O tribunal e o júri condenam Husamettin Dogan a 10 anos de prisão", anunciou Christian Pasta, presidente do Tribunal de Apelação de Nîmes, após quase três horas de deliberação. Dogan foi o único dos 51 homens condenados em dezembro de 2024 a recorrer da sentença. A promotoria havia pedido uma pena de 12 anos.
O acusado, que alegou repetidamente não ter tido "intenção" de estuprar Gisèle Pelicot e que teria sido manipulado pelo ex-marido dela, Dominique Pelicot, não reagiu ao anúncio da sentença.
O julgamento do recurso encerra o capítulo judicial de um caso que comoveu o mundo e transformou Gisèle Pelicot em um símbolo feminista e da luta contra o estupro, por ter dito às vítimas para "nunca sentirem vergonha".
Relembre o caso
Em dezembro, no Tribunal de Avignon, Dominique Pelicot, considerado o mentor dos crimes, foi condenado à pena máxima de 20 anos de prisão. Durante uma década, ele drogou a ex-mulher Gisèle com ansiolíticos para que ela fosse estuprada por ele e por dezenas de homens recrutados pela internet. Os estupros ocorreram principalmente na casa do casal, em Mazan, no sudeste da França.
O caso extraordinário tornou-se um símbolo global das violências sexuais contra mulheres, especialmente após Gisèle Pelicot recusar que o julgamento ocorresse a portas fechadas, afirmando que "a vergonha deveria mudar de lado".
Além de Dominique Pelicot, 50 acusados foram condenados a penas que variaram de 3 a 15 anos de prisão. Dos 16 homens que inicialmente recorreram da sentença, Husamettin Dogan foi o único a manter o recurso até o fim.
Durante os quatro dias do julgamento do recurso, iniciado na segunda-feira (6), o comportamento do acusado, que negou até o último minuto ter estuprado a vítima, gerou indignação na sala do tribunal. Já Gisèle Pelicot, que participou de todas as sessões, geralmente acompanhada por um de seus filhos, foi aplaudida a cada aparição.
"Bravo", "obrigada"
Após o anúncio da sentença, ela fez um discurso emocionado ao júri, composto por nove cidadãos e três magistrados, sob uma chuva de aplausos e gritos de "bravo" e "obrigada".
"Tenho a sensação de ter chegado ao fim dessa provação que durou cinco anos. Espero nunca mais voltar a um tribunal. O mal já foi feito. Agora preciso me reconstruir sobre essas ruínas. Estou no caminho certo", declarou a mulher de 72 anos.
"Que as vítimas nunca sintam vergonha do que lhes foi imposto pela força", acrescentou. Gisèle Pelicot também pediu aos cerca de 100 jornalistas presentes que parem de chamá-la de "ícone", lembrando que isso aconteceu sem querer. "Sou uma mulher comum que levantou o sigilo de um processo", afirmou.
Na primeira instância, ela renunciou ao direito de um julgamento a portas fechadas para que "a vergonha mudasse de lado", tornando-se um símbolo global da luta contra a violência sexual.
Um processo marcante
O processo foi incomum também por conter provas em vídeo, gravadas e arquivadas por Dominique Pelicot. No segundo julgamento, a corte assistiu a cerca de doze gravações curtas feitas na noite de 28 de junho de 2019, quando Husamettin Dogan foi à casa dos Pelicot.
Nas imagens, ele aparece tendo relações sexuais com Gisèle Pelicot, que está de roupa íntima, usando sandálias e, por vezes, uma venda nos olhos — completamente imóvel e roncando. Dogan e Dominique Pelicot cochicham para não acordá-la.
A defesa do ex-operário de 44 anos alegou que Dogan acreditava estar participando de uma relação "libertina", onde "toda transgressão é possível".
Gisèle Pelicot rebateu com firmeza: "que ele tenha acreditado que eu estava consentindo é absolutamente abjeto. Assuma seu ato, tenho vergonha por você!"
O advogado-geral Dominique Sié também criticou a postura "desesperadora" do acusado, que negou constantemente qualquer intenção de estupro. "Enquanto você se recusar a admitir, não é apenas uma mulher que você desrespeita, mas todo um sistema social sórdido que você endossa", salientou Sié.
O caso trouxe uma "tomada de consciência coletiva sobre um funcionamento social arcaico e destrutivo, que coloca o homem como centro do universo", ressaltou. Para ele, "não é possível, em 2025, considerar que porque a mulher não disse nada, ela estava de acordo. Isso é um pensamento de outra era!"
Nas grades do tribunal de Nîmes, uma faixa resume a importância desse processo:
"Gisèle, as mulheres te agradecem."
(RFI com AFP)