Igreja irlandesa não tem credibilidade, diz arcebispo anglicano
- John F. Burns
- Do New York Times
Numa época de relações já tensas com o papa Bento XVI após sua oferta de conversão fácil ao catolicismo romano a anglicanos insatisfeitos, o arcebispo de Canterbury aprofunda a crise em torno dos casos de abuso por padres católicos, escolhendo o fim de semana de Páscoa para descrever a Igreja Católica da Irlanda como "sem qualquer credibilidade" após a maneira precária pela qual a instituição lidou com a crise.
Em entrevista para a rádio da BBC, parcialmente transmitida no sábado, o arcebispo, reverendíssimo Rowan Williams, descreveu o escândalo dos abusos como um "trauma colossal¿ para a Irlanda em particular. Ele não fez nenhuma referência direta à controvérsia pessoal em torno do papa após acusações de que ele não agiu de forma firme o bastante contra os padres pedófilos.
Mas Williams, líder da Comunhão Anglicana mundial, que alega ter 70 mil fiéis, demonstrou franqueza incomum. "Conversei com um amigo irlandês recentemente que me disse que, em certas partes da Irlanda, é bem difícil alguém passar na rua usando um colarinho clerical hoje em dia", disse. "E uma instituição tão profundamente arraigada à vida de uma sociedade ficar, de repente, sem qualquer credibilidade ¿ isso não é um problema apenas da igreja, é um problema de todos na Irlanda."
Seus comentários aparentemente enfureceram igualmente líderes das igrejas católica e anglicana na Irlanda, que criticaram Williams por insensatez ao exacerbar uma situação já tensa entre os católicos do país.
As manifestações, por sua vez, geraram um pedido de desculpas por parte de Williams, que, segundo seu escritório, telefonou no sábado à noite para o arcebispo católico de Dublin, Diarmuid Martin, expressando seu "profundo pesar e arrependimento" sobre qualquer ofensa que seus comentários tenham causado e garantindo que não fora sua intenção.
De acordo com a BBC, o escritório de Martin confirmou a ligação, mas agradeceu pontualmente somente os líderes anglicanos na Irlanda que haviam se manifestado contra as declarações de Williams, não Williams.
As declarações originais de Williams não podiam ter ocorrido em pior momento para a Igreja Católica na Irlanda, onde o cardeal Sean Brady, primaz de toda a Irlanda, é amplamente pressionado a renunciar. O escândalo irlandês, que cresce há anos, ganhou nova dimensão após a revelação no mês passado das ações de Brady como jovem clérigo 35 anos atrás, quando, ao participar de um inquérito interno da igreja, ajudou a encobrir um padre da polícia após dois rapazes adolescentes acusarem-no de abuso.
Antes das desculpas de Williams, Martin, chefe da maior diocese católica na Irlanda e a mais poderosa voz da igreja no país depois de Brady, fez uma feroz repreenda.
"Aqueles que trabalham pela renovação da Igreja Católica na Irlanda não precisavam desses comentários neste final de semana de Páscoa, nem o mereciam", disse Martin em nota. "O comentário inequívoco e inadequado numa entrevista de rádio do arcebispo de Canterbury, dr. Rowan Williams, de que a Igreja Católica na Irlanda 'perdeu toda a credibilidade' me surpreendeu.
"Preciso dizer que, em todos os meus anos como arcebispo de Dublin, raras vezes me senti pessoalmente tão desencorajado num momento difícil como quando tomei conhecimento dos comentários do arcebispo Williams", disse ele.
Martin foi direto em seus pedidos de total prestação de contas na igreja a respeito do abuso infantil e foi designado para a Sé de Dublin com um mandato de reconstruí-la após as revelações sobre abusos disseminados na arquidiocese.
Conversando com repórteres após celebrar uma missa em Dublin no sábado, ele disse que "líderes religiosos" deveriam ser mais cuidadosos em seus comentários sobre o escândalo dos abusos.
"Obviamente, a igreja perdeu credibilidade", reconheceu. "Mas é muito prejudicial para aqueles que estão tentando recuperar essa credibilidade ser obliterado por um comentário como esse."
Williams fez suas declarações em entrevista para um programa da BBC que será transmitido na segunda-feira como parte da cobertura de Páscoa. Suas declarações, parte de uma discussão de 40 minutos com outros proeminentes anglicanos sobre uma ampla variedade de temas da igreja, foram gravadas no Palácio Lambeth, em Londres, considerado a principal sede da Comunhão Anglicana.
A BBC divulgou uma transcrição parcial dos comentários de Williams no sábado. Um porta-voz da BBC disse que nenhuma transcrição completa estaria disponível antes da transmissão de segunda-feira.
A decisão de Williams de opinar sobre a crise na Igreja Católica foi o mais recente atrito na relação tensa entre liderança anglicana e Vaticano, que também teve cunho pessoal. Tanto Williams quanto o papa disseram que dão importância especial aos esforços de superar o cisma histórico entre as duas igrejas, que tem sua origem no século XVI, quando o rei Henrique VIII e o papa discordaram sobre a determinação de Henrique de anular seu casamento com Catarina de Aragão.
Mas os eventos dos últimos meses, sem relação com os escândalos de abuso infantil, levaram a um brutal afrouxamento desses laços.
O primeiro divisor de águas veio em outubro, quando o papa, interferindo numa crise sobre direitos de gays e mulheres na Comunhão Anglicana, anunciou que uma seção especial da Igreja Católica seria criada para permitir que antigos anglicanos se convertam ao catolicismo, mantendo parte de suas tradições e cerimônias, com a liderança de antigos bispos anglicanos, alguns dos quais casados.
Williams disse na época que se surpreendeu com a iniciativa, que, segundo ele, soube apenas duas semanas antes do anúncio do Vaticano. Reportagens em jornais britânicos afirmam que ele telefonou para o chefe da Igreja Católica na Inglaterra e Gales, arcebispo Vincent Nichols, no meio da noite para protestar.
Defendendo a medida, Bento XVI disse que criava o novo espaço de convertidos em resposta a declarações de anglicanos tradicionalistas. Muitos deles manifestaram que não estavam dispostos a continuar numa igreja que sancionava a ordenação de mulheres como bispos e quase provocaram um cisma sobre a decisão da Igreja Episcopal dos Estados Unidos de ordenar bispos gays e lésbicas.
Williams tem trabalhado implacavelmente para manter unida a Comunhão Anglicana, rogando, até agora sem sucesso, aos líderes episcopais que suspendam a ordenação de padres gays e lésbicas e pedindo a bispos anglicanos tradicionalistas, particularmente na África, Ásia e América Latina, que sejam pacientes enquanto o assunto é resolvido.
Pouco antes do anúncio do papa em outubro, Williams foi a Roma para um breve encontro com o papa, descrito como "cordial" e renovador da ¿vontade conjunta¿ de estabelecer laços mais próximos.
Mas autoridades anglicanas dizem privadamente que Williams acredita que a iniciativa do papa atrapalhou seus esforços de impedir um rompimento na Comunhão Anglicana, considerando a medida oportunista e destinada a se aproveitar dos infortúnios anglicanos.
A nova controvérsia sobre o escândalo de pedofilia na Igreja Católica acontece enquanto a Grã-Bretanha se prepara para uma visita de Bento XVI em setembro, sua primeira como papa, quando se espera que ele aprofunde suas críticas sobre uma nova lei de igualdade apresentada pelo Partido Trabalhista no Parlamento. Católicos temem que a legislação possa criminalizar qualquer medida de instituições com comando católico de negar emprego ou discriminar gays e lésbicas.
Na entrevista da BBC, Williams parecia ter uma atitude de indiferença em relação à visita. "O papa virá para cá, no Palácio Lambeth", disse. "Reuniremos os bispos para um encontro com ele. Temo que ele tenha a chance de dizer o que quiser para e na sociedade britânica, que ele seja saudado como um parceiro valioso e, você sabe, acabe por aí."
Tradução: Amy Traduções