Títulos da dívida americana: o trunfo dos europeus que preocupa Donald Trump
Nos últimos dias, Donald Trump deu mais uma guinada em relação às intenções sobre a Groenlândia e às relações comerciais com a Europa. Nos bastidores, uma cartada discreta, porém estratégica, tem irritado o presidente americano: o futuro dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, detidos principalmente por investidores europeus.
Na quinta-feira, em Davos (Suíça), Donald Trump afirmou que lançaria uma "grande retaliação" caso os países europeus começassem a vender títulos ou ações da dívida dos Estados Unidos como forma de pressionar Washington. "Temos todas as ferramentas necessárias à nossa disposição", salientou ele, em entrevista à Fox Business nesta quinta-feira (22).
As tensões em torno da Groenlândia, acompanhadas de ameaças de Trump contra aliados dos EUA, abalaram os mercados americanos, incluindo o de títulos, que está sendo monitorado de perto pela Casa Branca.
Um importante fundo de pensão sueco, o Alecta, informou à AFP na quarta-feira que vendeu a maior parte de seus títulos do Tesouro americano devido à fragilidade das finanças públicas dos Estados Unidos. Este é o segundo fundo nórdico a tornar pública essa decisão, depois que o fundo dinamarquês AkademikerPension anunciou, na terça-feira, que estava vendendo todos os seus títulos do Tesouro devido à "má saúde das finanças públicas americanas". Outro fundo dinamarquês, Pædagogernes Pensionskasse (PBU), anunciou à televisão dinamarquesa TV2 que também venderia títulos do Tesouro dos EUA.
Os países europeus membros da Otan detêm coletivamente mais de US$ 2 trilhões em títulos da dívida dos Estados Unidos. O valor sobe para aproximadamente US$ 3 trilhões quando o Canadá, outro alvo recorrente de Trump, é incluído.
Dependência dos títulos
O tema pode parecer reservado a especialistas em finanças, mas é relativamente simples de entender. Um título do Tesouro americano representa um instrumento de dívida: quando os Estados Unidos precisam de recursos para financiar seu orçamento, recorrem a empréstimos. Como todos os países, não o fazem por meio de um banco tradicional, mas pelos mercados financeiros, emitindo títulos que os investidores compram individualmente. Ou seja, ao adquirir um título do Tesouro, um investidor empresta dinheiro a Washington.
Em troca, o governo dos Estados Unidos se compromete a reembolsar o valor na data de vencimento e a pagar juros. Esses títulos existem em prazos curtos, médios e longos. Os mais conhecidos são os títulos de 10 e 30 anos, considerados os mais seguros do mundo.
Essa reputação deriva de um fato simples: os Estados Unidos nunca deixaram de honrar suas dívidas. Assim, seus títulos se tornaram a pedra angular do sistema financeiro global. Além disso, Washington depende estruturalmente do crédito.
Para continuar operando, o Tesouro dos EUA toma empréstimos continuamente, tanto para rolar títulos que vencem quanto para financiar novas despesas. A Europa, atualmente a maior credora dos Estados Unidos, dispõe desse instrumento como potencial meio de pressão em meio às crescentes tensões entre os aliados.
Os títulos da dívida são detidos não apenas por Estados europeus, mas também por fundos de pensão, seguradoras, bancos e fundos soberanos. Aproximadamente 30% da dívida dos EUA é detida por investidores estrangeiros. Ao contrário da crença popular, a China não é a maior credora internacional do governo americano.
Essa dependência torna a economia americana vulnerável a alterações na confiança do mercado.
Qual seria o impacto da venda dos títulos para os EUA?
Quando o preço desses títulos cai — principalmente em função de vendas em grande escala —, as taxas de juros sobem. Na prática, se os europeus se desfizessem em massa de seus títulos do Tesouro, os Estados Unidos teriam que contrair novos empréstimos a taxas mais elevadas. O custo da dívida aumentaria, afetando negativamente a saúde econômica do país.
Entretanto, essa "cartada" não seria simples de implementar. Uma parcela significativa dos títulos do Tesouro é detida por entidades privadas, que têm total autonomia para gerir seus portfólios. Os Estados europeus não podem obrigá-las a vender.
Além disso, essa estratégia poderia desencadear uma escalada financeira, com tensões nos mercados, aumento da volatilidade e riscos de instabilidade do dólar. É por isso que muitos observadores pregam a cautela.
Mas o simples fato de essa hipótese estar sendo discutida marca uma virada. As finanças, por muito tempo relegadas a um papel estritamente técnico, estão gradualmente se tornando um instrumento de poder geopolítico.