'A fotografia me levou a lugares maravilhosos', diz a fotógrafa brasileira Isadora Tricerri em Paris
Entre Brasil e Europa, a fotógrafa, filmmaker e diretora de fotografia Isadora Tricerri, 28 anos, constrói uma trajetória que combina pesquisa estética, projetos autorais, moda, retrato e cinema independente. Jovem, mas já com quase uma década de carreira, ela se afirma como um dos nomes sensíveis e inquietos de sua geração.
Maria Paula Carvalho, da RFI
No Instagram, a paulista sintetiza o resultado dessa jornada:
"A Isadora de 10 anos atrás jamais imaginaria quantos sonhos seriam possíveis através da fotografia. E, acima de tudo, provar que é possível viver de arte. Não só viver. Viver e existir das formas mais lindas, loucas, inspiradoras e inesperadas."
A fotografia também surgiu como um espaço íntimo de elaboração emocional. "Eu tenho depressão, eu tenho ansiedade, então ela veio como uma forma de externalizar isso para o mundo através do meu olhar", conta. "Fiz conexões incríveis, conheci pessoas que vou levar para a vida, fiz projetos que sou apaixonada e ela está me levando a lugares maravilhosos, inclusive Paris", completa.
Entre os trabalhos recentes, Isadora desenvolve um filme inspirado na obra de Marguerite Duras, dirigido por sua mãe, Christiane Tricerri, e protagonizado por Viviane Fuentes. Um trabalho que aborda o silêncio, imagem e a presença feminina, temas frequentes no seu olhar. "Eu atuo com fotografia e cinema desde 2016, já são quase dez anos de carreira", explica. "O filme é uma homenagem à Marguerite Duras, sobre silêncio, fotos, memórias e o feminino no audiovisual. Está sendo um projeto muito especial", disse em entrevista à RFI.
Filmar em Paris, ao lado da mãe, tem uma dimensão afetiva profunda. "Eu venho de uma família de artistas, então sempre tive esse apoio. Estar aqui com a minha mãe, trazendo esse olhar feminino em conjunto, é magnífico."
Bastidores da moda
Durante sua temporada em Paris, Isadora integrou a cobertura de 15 desfiles realizados no Palais Garnier, ao lado da renomada fotógrafa Celin May, para a Moda Productions. "Foi uma experiência incrível", relembra. "Transitávamos entre backstage e passarela. Registramos não só o momento final, mas todo o processo. Fizemos imagens muito poéticas e uma revista de Nova York já publicou algumas das fotos", comemora.
A estética de Isadora nasce da fusão entre cinema e retrato. A luz natural, a atmosfera intimista e a composição narrativa são marcas constantes. "Meu estilo de foto vem muito do cinema. Eu sempre tento pensar a imagem estática para além dela mesma, trazendo movimento. E gosto de representar mulheres da forma como elas querem ser vistas. É sobre elas estarem confortáveis, e isso transparece", continua.
Ainda em Paris, Isadora Tricerri realizou uma série de retratos com o ex-jogador Raí, com styling de Marcela Pontara e Dione Occhipinti. "A experiência com o Raí foi excepcional", diz. "Ele tem projetos sociais e culturais muito importantes. Ele falou que ninguém tinha conseguido registrar essa relação dele com Paris dessa forma. As fotos ficaram lindíssimas", avalia.
Olhares Delas: a força de uma rede feminina
Em 2017, Isadora fundou o coletivo Olhares Delas, uma iniciativa que mapeia, divulga e conecta fotógrafas brasileiras.
"Eu via fotógrafos homens se divulgando o tempo todo, mas não via isso entre mulheres", conta. "Resolvi mapear essas fotógrafas espalhadas pelo Brasil. Hoje somos mais de 150 mulheres em um grupo de WhatsApp, fomentando eventos, exposições, encontros. Virou uma grande rede de apoio."
Para ela, o olhar feminino carrega experiências que atravessam a imagem. "O olhar feminino traz nossas vivências como mulher na sociedade. Quando vou fotografar outra mulher, já sei as inseguranças que ela tem. Estamos acostumadas a ver a fotografia por um olhar masculinizado, então trazer novas perspectivas é muito especial", explica.
Foto digital
Embaixadora da fabricante de máquinas fotogróficas Canon, Isadora cresceu já inserida no universo digital, mas guarda carinho pela fotografia analógica.
"Comecei a fotografar quando ganhei meu primeiro celular com câmera, em 2012. Adorava pensar em sombra e luz. Depois comprei minha primeira câmera, uma Canon T5, que uso até hoje", lembra. "O mundo digital é muito imediatista, então às vezes a gente perde essa relação com o analógico. Eu sinto falta disso."
Entre filmes, editoriais, retratos, viagens e projetos independentes, Isadora Tricerri constrói uma obra guiada pela sensibilidade e pela força das imagens. O seu trabalho continua se expandindo entre Brasil e Europa e as múltiplas histórias que ela encontra pelo caminho.