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França prepara Museu Memorial do Terrorismo com objetos que contam 50 anos de atentados

Por ocasião do Dia Nacional de Homenagem às Vítimas do Terrorismo na França, celebrado em 11 de março, a RFI revela algumas das peças que farão parte do Museu Memorial do Terrorismo, previsto para abrir por volta de 2030 em um antigo quartel de bombeiros em Paris. Entre os itens estão uma lousa de restaurante com marcas de balas de fuzil kalashnikov e a fivela de um cinto de segurança de um avião derrubado em pleno voo.

11 mar 2026 - 15h45
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Laura Martel, da RFI

No acervo do futuro Museu Memorial do Terrorismo, a lousa com o cardápio do bar La Belle Équipe, marcado por balas durante os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris.
No acervo do futuro Museu Memorial do Terrorismo, a lousa com o cardápio do bar La Belle Équipe, marcado por balas durante os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris.
Foto: © Laura Martel / RFI / RFI

Trata-se de uma das muitas lousas de restaurante ("ardoises", em francês) que se encontram nas calçadas de Paris, nas quais aparecem os preços de drinks como mojito ou caipirinha, os "plat du jour" - destaque do cardápio, ou a habitual menção aos "happy hours", traduzida para o francês como "heures heureuses". Entre as letras, surgem buracos: marcas de balas de fuzil que interromperam aqueles momentos de tranquilidade. A lousa pertence ao bar La Belle Équipe, uma das áreas ao ar livre em que dezenas de pessoas foram mortas durante os atentados de 13 de novembro de 2015.

"É um dos primeiros, se não o primeiro objeto que os visitantes poderão ver no percurso permanente do memorial, porque é especialmente significativo", explica Claire Lartigue, responsável pelas coleções da missão de preparação do Museu Memorial do Terrorismo, guiando a reportagem da RFI pelos depósitos. "Em um único objeto está a vida cotidiana daqueles parisienses que queriam aproveitar as horas felizes na varanda e que receberam toda aquela violência, visível a olho nu. Ele conta toda a história."

O museu permanente ocupará cerca de mil metros quadrados no antigo quartel de bombeiros de Lourcine, com abertura ao público prevista, no mínimo, para 2030. Com a denominação dupla, Museu e Memorial, o objetivo declarado no manifesto é "dar sentido ao sofrimento vivido", evocando a história do terrorismo e, ao mesmo tempo, sendo um espaço de homenagem às vítimas.

"A maioria dos museus, memoriais ou centros se concentra em um período ou tema específico. Nosso projeto é único porque tem a ambição de traçar 50 anos de história do terrorismo na França e atentados que afetaram franceses no exterior, por meio de três eixos de reflexão", explica Claire Lartigue.

Desde o início da coleta em 2021, mais de 2.500 objetos foram reunidos. Eles são armazenados em um galpão na região parisiense, cujo endereço é mantido em segredo. Ali, estão protegidos por segurança reforçada e por um ar com baixo teor de oxigênio que favorece a conservação. Ao final de um labirinto de corredores frios, encontra-se uma sala de 60 metros quadrados. Nas prateleiras metálicas, caixas numeradas de diferentes tamanhos contêm os objetos preciosos.

Uma característica da coleção é que cerca de 70% são provas judiciais: itens coletados por investigadores e utilizados durante processos judiciais. Essas peças se encaixam perfeitamente no projeto, pois testemunham tanto o atentado quanto seu impacto e a forma como a sociedade o trata por meio do sistema judicial, desde a investigação até o julgamento.

"Esses elementos de investigação podem ser de qualquer tipo, o que dá uma diversidade particular à nossa coleção", afirma Lartigue. "Há muitos documentos em papel e digitais, mas também tecidos, armas e até objetos do cotidiano."

No terço restante do acervo, há algumas compras, como desenhos feitos durante o julgamento dos atentados de 13 de novembro. Mas predominam as doações de sobreviventes e familiares das vítimas. "Esses objetos, muito variados, são extremamente queridos pelos doadores e importantes para nós", explica Lartigue. "Enquanto as provas judiciais contam a investigação, a doação conta a história do objeto, que é o que realmente dá sentido."

Alguns sobreviventes entregam objetos inicialmente banais, mas que adquiriram significado especial por estarem consigo durante o atentado. Outras famílias doam objetos que representam o ente querido falecido e suas paixões. Também existe um sistema de depósito, uma espécie de empréstimo em vez de doação definitiva.

Resquícios de um avião destruído por terroristas

Entre os itens, destaca-se a fivela de um cinto de segurança, com metal danificado e tiras rasgadas, proveniente do atentado ao voo UTA 772, destruído por uma bomba colocada pela Líbia em 19 de setembro de 1989, sobrevoando o deserto de Ténéré, no Níger. "A história é impressionante", conta Lartigue. "Guillaume Denoix de Saint-Marc, filho de uma das vítimas, foi até o local do acidente e encontrou o objeto no deserto, 17 anos depois." É uma das peças mais impactantes relacionadas a esse atentado: um elemento de segurança arrancado violentamente, com a inscrição da extinta companhia UTA, com a singularidade de sua descoberta.

Todos esses objetos funcionam como peças de um quebra-cabeça que permitem compreender as múltiplas facetas do terrorismo e o sofrimento que provoca ao longo do tempo e do espaço. As peças mais antigas evocam atentados dos anos 1970, como fichas de busca emitidas pela polícia alemã para membros do Exército Vermelho, organização de extrema esquerda responsável, entre outros atos, pelo ataque com granada à drogaria Publicis em Paris, em 1974. Também estão previstos empréstimos e intercâmbios com instituições memorialistas e museus europeus e norte-americanos.

Muitos itens abordam atentados que causaram vítimas francesas, mas que "estão menos presentes na memória coletiva porque ocorreram no exterior", explica Lartigue. "Quando a lembrança desaparece, o objeto está lá para lembrar uma realidade concreta." É o caso de um terço multicolorido doado por um sobrevivente francês do atentado com veículo em Las Ramblas, Barcelona, em 17 de agosto de 2017. Henri Desmoulins o carregava consigo — havia sido presente de sua avó — quando ocorreu o atentado. Refugiado em um bar, ele retirou o terço para buscar consolo, e várias pessoas começaram a rezar com ele.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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