Crianças recebem aulas sobre consentimento sexual em escola no bairro de Hounslow, oeste de Londres
Foto: BBC News Brasil
A noção de que parceiros precisam consentir antes de qualquer atividade sexual vem sendo enfatizada em campanhas que visam a diminuir os índices de violência sexual na Grã-Bretanha.
Como parte desse movimento, em caráter voluntário (cabe às escolas decidir se adotam ou não o programa) crianças de 11 anos de idade terão aulas sobre consentimento sexual na Inglaterra.
A BBC visitou uma delas para observar como professores enfrentam o desafio de abordar o tema em sala de aula. "Precisamos oferecer aos jovens oportunidades de refletir sobre o que significa consentir, porque eles vão viver experiências em suas vidas que podem envolver violência sexual e até estupro. São fatos da vida", disse Phil Ward, diretor da Heston Community School, no bairro de Hounslow, oeste de Londres.
Crianças a partir de 14 anos de idade já estudam o assunto, mas agora o tema poderá ser inserido também no currículo dos alunos mais novos.
A iniciativa acontece em um momento "crucial", segundo a organização que elaborou o guia de ensino do tema que deverá ser seguido pelos professores.
A entidade, Personal, Social and Health Education Association, (PSHE, na sigla em inglês), disse que o objetivo é tentar manter jovens com menos de 16 anos que já são sexualmente ativos "saudáveis e protegidos de abuso e exploração", porém, "sem encorajar atividade sexual antes do limite legal". Esse limite, na Grã-Bretanha, é 16 anos.
Professora faz mapeamento de assédio sexual em Toledo:
Dados do Office for National Statistics (ONS, instituto nacional de estatística da Grã-Bretanha) para a Inglaterra e País de Gales mostram que nos 12 meses anteriores ao mês de setembro do ano passado a polícia registrou mais de 7 mil casos de violência sexual contra crianças com idades de 13 anos ou menos e mais de 4 mil estupros de crianças com até 16 anos de idade.
Essa é uma questão que a professora Natalie D'Lima aborda no início da aula, fazendo uma conexão explícita entre consentimento e estupro para que os alunos entendam por que é relevante aprender sobre esse assunto.
No caso dos alunos de 11 anos, ela explica, a noção de consentimento não é discutida em conexão com um relacionamento sexual, mas tende a ser abordada em contextos diferentes, como, por exemplo, "pedir consentimento para fazer algo fora das regras ou para olhar o telefone do outro".
De acordo com a orientação da PSHE Association, alunos com idades entre 11 e 16 anos devem aprender o que é consentimento no contexto de "um relacionamento saudável", onde é preciso pedir permissão e onde a permissão pode ser retirada a qualquer momento.
Aula de consentimento
No decorrer da aula, D'Lima tenta melhorar a compreensão das crianças sobre o que significa dar e receber consentimento.
Aulas fazem parte de campanha mais ampla de combate a estupro e abuso
Foto: BBC News Brasil
Sob sua orientação, os alunos se agrupam em pares. Partindo de um ponto a três metros de distância do seu par, uma criança se aproxima progressivamente da outra, até que a outra lhe peça para parar. Como parte do exercício, a outra criança deve pedir ao colega que pare no momento em que ela começa a sentir desconforto com a proximidade dele.
Durante o exercício, fica claro que os estudantes entendem a importância do espaço individual e dos limites de cada pessoa. Por outro lado, eles não parecem saber a quem cabe a responsabilidade de reconhecer se existe ou não consentimento.
Apenas um aluno parece entender esse conceito, percebendo que cabe à pessoa que se move a tarefa de obter o consentimento. "Talvez ela precise saber como a outra pessoa está se sentindo", diz o aluno.
A professora se diz surpresa com a falta de compreensão das crianças. "Muitos (dos alunos) sentem que o consentimento é responsabilidade conjunta de ambas as partes", ela diz.
D'Lima explica que pretende voltar ao tema em aulas futuras. E embora os alunos não tenham entendido que a ideia de consentimento se aplica à situação vivenciada no exercício (quando uma pessoa se aproxima da outra), ela espera que, quando o conceito for abordada no contexto de relacionamentos sexuais, os alunos "captem a ideia".
Ainda assim, os estudantes parecem ter entendido uma mensagem central sobre a importância de dar, ou não dar, consentimento.
"Se uma pessoa estranha caminha até você e faz algo de que você não gosta, acho que você deve ter a confiança de dizer 'Não' a ele ou a ela. Dizer 'Não' não significa que você está sendo grosseiro, significa que você não gosta quando alguém invade seu espaço individual", diz a aluna Ayesha, de 12 anos.
Jovens demais?
A inclusão do tema no currículo escolar de alunos de 11 anos provocou alguns questionamentos. Não seriam essas crianças jovens demais para aprender sobre esse assunto? E poderiam as aulas colocar pressão sobre as crianças para que se tornem sexualmente ativas mais cedo ainda?
Crianças a partir de 14 anos de idade já estudam o assunto.
Foto: BBC News Brasil
O diretor da Heston Community School responde que não.
"(As aulas) levam os estudantes a refletir. As pessoas vão viver situações imprevisíveis, isso é um fato da vida", diz Phil Ward.
Campanha combate assédio sexual nos ônibus em Marrakech:
"Meus alunos vão crescer e fazer parte do mundo real, onde essas coisas acontecem, e eles precisam ter um espaço de reflexão onde possam tomar suas decisões sobre consentimento, caso se vejam nesse tipo de situação."
Ward enfatiza a importância de que o assunto seja discutido no ambiente seguro e encorajador que a educação oferece.
A inclusão das aulas de consentimento sexual no currículo escolar é facultativa.
Bibi Aisha: a jovem afegã Bibi Aisha tornou-se mundialmente conhecida após seu rosto ter sido desfigurado aos 18 anos pelo marido, na província de Uruzgan, Afeganistão. O homem era simpatizante do Talibã e cortou a orelha e o nariz dela por ter reclamado aos seus pais sobre maus tratos dos sogros. Ela havia protestado contra o costume de seu país, adotado por sua família, que a deu como presente ao noivo quando tinha apenas 12 anos. Em agosto de 2010, Bibi Aisha foi capa da Time. Ela passou por uma cirurgia de reconstrução do nariz após o incidente
Foto: Time / Divulgação
Banaz Mahmod: a morte da jovem Banaz Mahmod, pelo chamado crime de honra, causou comoção mundial após a produção do filme-documentário "Banaz: A Love Story", de 2012, dirigido por Deeyah Khan. A jovem curda, de 20 anos, foi estrangulada em janeiro de 2006 no sul de Londres pelo pai e tio, nascidos no Iraque. O corpo dela foi encontrado enterrado dentro de uma mala no jardim da casa da família. Antes da morte, ela procurou a polícia dizendo estar sendo perseguida. "Estão me seguindo. Se alguma coisa me acontecer, são eles", disse aos oficiais. Banaz foi morta por ter se apaixonado por um homem, que não era aquele para quem estava prometida
Foto: Daily Mail / Reprodução
Cartaz do filme-documentário "Banaz: A Love Story", de 2012, dirigido por Deeyah Khan. O filme conta a história da jovem de 20 anos que foi assassinada pela família por, supostamente, ter se apaixonado por um homem
Foto: Wikipédia
Waris Dirie: assim como 99% das meninas da Somália, a somaliana Waris Dirie teve a genitália mutilada quando tinha apenas 5 anos. Ela conta que aquele foi o pior dia de sua vida e que quase morreu por causa do sangramento após o corte. Dirie fugiu da Somália quando tinha 13 anos, pois teria de se casar com um homem bem mais velho, em troca de 5 camelos. Ela fugiu para Londres onde, aos 18 anos, iniciou carreira de modelo. Depois de contar sua história publicamente, a ex-top model foi convidada a ser Embaixadora da ONU contra a prática de mutilação. Em 2002, ela abriu uma fundação que luta contra a mutilação genital feminina em vários países do mundo - a Desert Flower Foundation (Fundação Flor do Deserto)
Foto: Arquivo Fundação Flor do Deserto / Divulgação
Filme "Desert Flower" conta a história de Dirie, uma mulher somaliana que foge de seu país para Londres, por causa de um casamento forçado aos 13 anos; ela se tornou top model e causou uma "revolução" ao levantar o tema da mutilação genital pelo mundo
Foto: Arquivo Fundação Flor do Deserto / Divulgação
Malala Yousafzai: a estudante paquistanesa ficou internacionalmente conhecida por seu ativismo pelos direitos à educação e das mulheres, iniciado ainda quando criança. Em 2009, com quase 12 anos, Malala escreveu para a BBC, com um pseudônimo, detalhando sua vida dentro do regime do Talibã. Malala foi baleada na cabeça e pescoço em 9 de outubro de 2012, durante uma tentativa de assassinato, por talibãs armados, quando voltava para casa em um ônibus escolar. Ela passou inconsciente por quase dois meses, em estado crítico, porém, com a melhora do quadro, foi enviada para o Queen Elizabeth Hospital, em Birmingham, Inglaterra, para a reabilitação intensiva. Hoje, Malala vive no Reino Unido, após o Talibã reiterar desejo de matar ela e seu pai
Foto: AP
Hatun Surucu: era uma mulher curda que vivia na Alemanha, cuja família era originalmente de Erzurum, na Turquia. Surucu foi assassinada em Berlim em 2005, com 23 anos, por seu irmão mais novo, em um crime de honra, pois havia se divorciado do primo, a quem foi forçada a se casar aos 16 anos
Seu assassinato inflamou um debate público sobre o casamento forçado de famílias muçulmanas. Em outubro de 1999, Surucu fugiu da casa de seus pais em Berlim, encontrando refúgio em uma casa de cuidados a mães menores de idade. A curda frequentou a escola e se mudou para seu próprio apartamento no bairro de Tempelhof, em Berlim. Na época de seu assassinato, ela estava no final de um curso para se tornar um eletricista e namorava um alemão
Foto: Die Welt / Reprodução
Songol Surucu, irmão de Alpaslan e Mutlu Surucu, faz o sinal de vitória para os fotógrafos enquanto espera por seus dois irmãos fora de um tribunal em Berlim depois terem sido absolvidos da acusação da morte de sua irmã, Hatun Surucu, em 13 de abril de 2006. Um terceiro irmão, Ayhan Surucu, que era menor de idade na época do crime, confessou e foi condenado a 9 anos de prisão
Foto: Getty Images
Farzana Iqbal: a paquistanesa de 25 anos foi apedrejada até a morte por sua família do lado de fora de um dos principais tribunais do Paquistão no dia 27 de maio de 2014. Sua sentença de morte por honra aconteceu por ter se casado com o homem que amava.
Ela estava esperando a abertura da Alta Corte na cidade de Lahore, leste do país, quando um grupo de dezenas de homens a atacou com tijolos. O pai dela, dois irmãos e um ex-noivo (que é seu primo) estavam entre os agressores. Todos os suspeitos, exceto o pai, escaparam.
Farzana sofreu severos danos na cabeça e morreu no hospital. Seu marido disse que a polícia assistiu à cena e não fez nada para impedir os agressores. Ela estava grávida.
Foto: Reuters
Amina Bibi: a paquistanesa de 17 anos morreu no dia 14 de março de 2014 após atear fogo no próprio corpo depois de a polícia ter soltado 3 dos 5 homens que teriam a estuprado no mês anterior. A adolescente teria recorrido a ativistas de seu país para tentar recorrer à decisão do tribunal de Muzaffargarh, leste do país. Sem conseguir agir, ela colocou se imolou em frente a uma delegacia de polícia como forma de protesto.
Foto: Reuters
Meriam Yahia Ibrahim Ishag: a sudanesa de 27 anos foi condenada à forca em seu país por apostasia e adultério no dia 15 de maio de 2014. O tribunal deteve a mulher, que estava grávida e deu à luz na prisão, por ser cristã e não aceitar se converter ao islamismo. Ela terá a sentença cumprida dentro de dois anos. Meriam é casada com um homem cristão.
A condenação à morte da jovem por um tribunal de Cartum provocou uma onda de indignação e protestos. Segundo militantes de direitos humanos, a jovem, presa há 4 meses, permanecerá detida no presídio para mulheres de Ondurman, maior cidade do Sudão.
Foto: Daily Mail / Reprodução
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