Controle da Groenlândia: União Europeia condena ameaças tarifárias de Trump e prepara retaliação
Horas após o anúncio do presidente norte-americano, Donald Trump, sobre a imposição de novas tarifas a oito países europeus que se opõem à anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos, lideranças do bloco reagem neste domingo (18). O presidente francês, Emmanuel Macron, classificou a situação de "inaceitável" e se reúne com dirigentes das nações que serão afetadas pelas medidas.
Com informações de Pierre Benazet, correspondente da RFI em Bruxelas, e agências
Na mira do líder republicano estão oito países europeus: Dinamarca, da qual a Groenlândia faz parte, França, Alemanha, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda. Os oito países fazem frente aos planos de Trump de se apoderar do território autônomo no Ártico e enviaram à Nuuk durante a semana militares para participar do exercício dinamarquês "Arctic Endurance", organizado junto a aliados da Otan.
Na rede social Truth Social, Trump declarou no sábado que essas nações serão penalizadas com sobretaxas de 10% sobre suas exportações aos Estados Unidos "até a completa e total venda da Groenlândia". As tarifas também darão um novo salto a partir de 1° de junho, passando para 25%.
Diante das ameaças, uma reunião de emergência dos embaixadores da União Europeia (UE) está prevista para este domingo em Bruxelas.
Já o presidente francês, Emmanuel Macron, deve conversar com líderes das outras nações afetadas por essa crise inédita entre membros da Otan. Na rede social X, ele explicou que a participação da França nos exercícios militares na Groenlândia ocorre em nome do "respeito à segurança no Ártico e nos limites da nossa Europa". Macron também garantiu que os europeus "responderão de maneira unida e coordenada" se as medidas anunciadas por Trump entrarem em vigor.
La France est attachée à la souveraineté et à l'indépendance des Nations, en Europe comme ailleurs. Cela préside à nos choix. Cela fonde notre attachement aux Nations unies et à notre Charte.
C'est à ce titre que nous soutenons et continuerons de soutenir l'Ukraine,…
— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) January 17, 2026
Paralelamente, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, iniciou um giro diplomático à Noruega, ao Reino Unido e à Suécia — três aliados próximos e membros da Otan — para discutir o fortalecimento do papel da Aliança na segurança da região ártica. Ele estará em Oslo neste domingo, antes de seguir para Londres na segunda‑feira (19) e para Estocolmo na quinta (22).
Em comunicado, Rasmussen afirmou que a Dinamarca, "em colaboração com vários aliados europeus", aderiu recentemente a uma declaração conjunta sobre a Groenlândia, que estabelece que essa imensa ilha faz parte da Otan. Segundo o ministro, a segurança do território é uma "responsabilidade comum" dos membros da aliança atlântica.
Defesa do direito internacional
O primeiro a reagir aos anúncios de Trump, no sábado, foi o presidente do Conselho Europeu, António Costa. "A UE será sempre muito firme na defesa do direito internacional, começando pelo território dos Estados‑membros da União", declarou.
Em seguida, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez um apelo por diálogo e alertou sobre o risco da degradação das relações transatlânticas no caso de imposição de novas tarifas. "A integridade territorial e a soberania são princípios fundamentais do direito internacional. Elas são essenciais para a Europa e para a comunidade internacional como um todo", publicou na rede social X.
Já o ministro das Relações Exteriores da Holanda, David van Weel, classificou a decisão de Trump de "chantagem". Em entrevista a um canal de televisão holandês, ele disse que "isso não ajuda a aliança [Otan] e também não ajuda a Groenlândia".
Embora a Itália não faça parte da lista de países citada pelo presidente americano, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni afirmou neste domingo ter conversado sobre a questão com Trump. Para a premiê, a iniciativa do líder republicano é "um erro".
Instrumento anticoerção da UE
Entre as possíveis linhas de ação da União Europeia, está a reativação das tarifas alfandegárias de retaliação, atualmente suspensas, ou ainda o acionamento de um instrumento anticoerção do bloco. O mecanismo, que entrou em vigor em 2023, permite adotar represálias contra países que utilizam a pressão econômica sobre membros da UE para influenciar suas políticas.
O objetivo desta ferramenta de dissuasão é lançar contramedidas, incluindo uma ampla gama de restrições relacionadas ao comércio, a investimentos e financiamentos. Sob anonimato, um membro do governo Macron afirmou à AFP que o presidente francês tem intenção de recorrer ao instrumento anticoerção.
Um pouco antes, a associação alemã de fornecedores de máquinas e equipamentos industriais VDMA fez um apelo à Comissão Europeia para ativar o mecanismo. "Se a UE ceder, isso só encorajará o presidente americano a fazer o próximo pedido absurdo e a ameaçar com novas tarifas", escreveu Bertram Kawlath, presidente da entidade, em um comunicado.