Guerra no Irã: Macron manifesta 'solidariedade' a Sánchez, após ameaças comerciais dos EUA
O presidente francês, Emmanuel Macron, expressou nesta quarta-feira (4) a "solidariedade" da França ao primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, após as recentes ameaças comerciais de Donald Trump contra a Espanha, que negou o acesso de aeronaves americanas a bases em seu território.
"O presidente acaba de conversar com o primeiro‑ministro Sánchez para transmitir o apoio europeu da França diante das ameaças de coerção econômica dirigidas à Espanha", informou o Palácio do Eliseu.
Na terça‑feira, o presidente dos Estados Unidos criticou duramente o governo espanhol por impedir o uso de bases militares no sul do país pela aviação americana, no contexto da campanha militar contra o Irã iniciada no sábado.
"A Espanha agiu de forma terrível", declarou Trump, ameaçando "encerrar" as relações comerciais entre os dois países.
O impasse envolve as bases de Rota (naval) e Morón (aérea), cujo uso é regulamentado por um acordo de 1953 firmado entre Washington e Madri, ainda durante a ditadura de Francisco Franco.
Diante das declarações de Trump, a Comissão Europeia saiu em defesa da Espanha, a quarta maior economia da zona do euro, afirmando, em comunicado, estar "pronta para reagir" e "defender seus interesses".
Madri "não será cúmplice"
Em discurso nesta quarta‑feira, Pedro Sánchez afirmou que seu país "não será cúmplice" dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã "por medo de represálias de alguns", numa referência direta ao líder americano.
O premiê também criticou a falta de clareza nos objetivos militares de Washington e Tel Aviv contra Teerã, classificando como "inaceitável" o uso da "cortina de fumaça da guerra para encobrir fracassos internos".
Desde sábado, a Espanha vem pedindo a cessação das hostilidades e uma solução diplomática para o conflito, postura que contrasta com o tom mais cauteloso adotado por Paris, Londres e Berlim nos últimos dias.
Há meses, Trump intensifica ataques verbais contra Sánchez, desde que Madri rejeitou elevar seus gastos militares a 5% do PIB, conforme a nova meta defendida pela Otan.
"Não à guerra"
Dentro da Espanha, a firmeza de Sánchez é vista por alguns analistas políticos como uma tentativa de mobilizar sua base eleitoral em torno de um tema que tradicionalmente une a esquerda espanhola.
O momento político do premiê é delicado: derrotas em eleições regionais, investigações envolvendo aliados próximos e denúncias de assédio sexual dentro do Partidos Socialista Espanhol (PSOE) fragilizam o governo a um ano das próximas eleições gerais.
Nesta quarta‑feira, o líder do Partido Popular (direita), Alberto Núñez Feijóo, pediu a Trump que "respeite" a Espanha, ao mesmo tempo em que acusou Sánchez de usar a política externa para fins "partidários".
Até o jornal El País, alinhado historicamente à esquerda, alertou o premiê na edição desta manhã, antes de seu discurso, sugerindo que evitasse "a tentação de explorar a forte rejeição a Trump na sociedade espanhola para obter ganhos políticos".
O lema pacifista "Não à guerra" remete aos protestos de 2003 contra a intervenção dos EUA no Iraque, então apoiada pelo governo de direita de José María Aznar. As tropas espanholas chegaram a participar temporariamente da operação.
Meses depois, em 11 de março de 2004, ataques jihadistas em quatro trens de Madri deixaram 192 mortos. O atentado foi amplamente interpretado como represália à participação espanhola na guerra e contribuiu para a vitória eleitoral da esquerda três dias depois.
Com AFP