França julga tutor de pitbull por morte de companheira grávida durante ataque do animal
O julgamento de Christophe Ellul começou na terça-feira (3), mais de seis anos após a morte de Elisa Pilarski. O réu, de 51 anos, responde por homicídio culposo por ataque de cachorro. Em 16 de novembro de 2019, ele permitiu que sua companheira grávida de seis meses fosse sozinha à floresta passear com seu pitbull mesmo sabendo que ele representava um perigo para ela, segundo a investigação. A jovem foi encontrada sem vida com dezenas de mordidas pelo corpo. O destino do animal é um dos pontos centrais do processo.
No segundo dia do julgamento, nesta quarta-feira, Ellul admitiu que Curtis foi responsável pelas mordidas que mataram Elisa. "O juiz me deu provas de que ele é culpado", declarou. "As medições das mordidas falam por si. Hoje, sim, eu aceito e acredito nisso."
A perícia confirmou que os ferimentos da jovem correspondiam às características físicas do pitbull, descartando o envolvimento dos cães de caça que estavam na floresta naquela tarde. Curtis, então com dois anos, havia sido comprado nos Países Baixos e importado ilegalmente para a França. Elisa passeava sozinha com o animal quando foi atacada.
Durante a audiência, o juiz lembrou que o pitbull também havia mordido violentamente o próprio dono dois dias após a morte da jovem e atacado um voluntário do canil onde estava alojado. "Um cão não morde até que morda. Cabe aos humanos tomar precauções para se protegerem e protegerem os outros de comportamentos imprevisíveis", afirmou.
No início do julgamento, Ellul chegou a dizer: "Se Curtis for culpado, sacrifiquem-no ou eu mesmo o farei, mas apresentem as provas." Ele afirmou lutar "pela memória de Elisa e de Enzo", o nome escolhido para o bebê que o casal esperava.
A hipótese dos cães de caça
Antes de admitir a culpa do próprio animal, Ellul insistia que cães de caça poderiam ter provocado a morte da companheira. Ele disse ter visto "quatro ou cinco cães" ao chegar ao local e relatou que o corpo de Elisa teria sido encontrado cercado por uma matilha.
A investigação, porém, determinou que a caçada só começou após a morte da jovem, por volta das 13h30, e em outra área da floresta. A hipótese chegou a alimentar protestos de opositores da caça, e até Brigitte Bardot interveio em 2020, alertando o governo francês para "o perigo real" de matilhas soltas. Contudo, análises posteriores, incluindo testes de DNA, apontaram exclusivamente para Curtis, descartando a participação dos cães de caça.
Os investigadores coletaram material genético de 67 cães: os cinco pertencentes ao casal e mais 62 do canil Rallye La Passion. Apenas Curtis apresentou correspondência com as mordidas que causaram a morte de Elisa. Além disso, o laudo indicou que o pitbull havia sido treinado para morder em competições proibidas na França.
O destino de Curtis
Peritos descreveram o comportamento de Curtis como uma "predação desviada", caracterizando uma forma de abuso animal. O relatório descarta a possibilidade de que o pitbull tenha tentado defender Elisa de outros cães, já que não foram encontradas pegadas de matilha ou marcas de briga no local. Fotos tiradas pela vítima pouco antes da tragédia também mostraram que o cão estava sem focinheira, contrariando o que Ellul havia afirmado.
Curtis, hoje com oito anos, permanece em um canil no sul da França, desde o final de 2019. Todos os objetos foram retirados de sua jaula, que ele destruía sistematicamente, segundo o relatório veterinário mais recente. O animal circula em um espaço de 10 m², cercado para evitar fugas ou roubos, e é acompanhado semanalmente por um veterinário. Dependendo da decisão judicial, o pitbull pode ser sacrificado.
Christophe Ellul também responde por ter treinado o cão e pela importação ilegal do animal quando ele tinha pouco mais de três meses. Ele afirma ter comprado um mestiço de Patterdale Terrier e Whippet, mas a avaliação veterinária identificou Curtis como um American Pit Bull Terrier, raça cuja entrada na França é proibida.
Elisa e Christophe se conheceram em um grupo de Facebook dedicado a cães e iniciaram um relacionamento em março de 2019. "Elisa não gostava de pessoas; para ela, todas eram idiotas. Os animais eram tudo na vida dela. E com Curtis, simplesmente eles se deram bem", contou Ellul no tribunal. "Era incrível, eles eram muito próximos. Nos esportes, era sempre ela quem ele obedecia mais. Todos diziam: 'Curtis ouve mais a Elisa do que você'. Ele era o queridinho dela."
Caso condenado, Ellul pode pegar até dez anos de prisão e multa de €150 mil.
RFI e AFP