PUBLICIDADE

Relembre a história de 15 jovens negros mortos por policiais

Casos acirraram tensão racial nos Estados Unidos e provocaram ondas de protestos por todos o país

8 jun 2015 09h44
| atualizado às 18h22
ver comentários
Publicidade

O fato de os Estados Unidos serem representados por um presidente negro definitivamente não impediu seus cidadãos de viverem sob forte tensão racial. Casos recentes de mortes de jovens negros por agentes da lei repercutiram nas redes sociais, estamparam as manchetes dos principais jornais do mundo e reabriram uma antiga discussão sobre preconceito e racismo, militarização e truculência da polícia. Indignada com a violência e a falta de punição aos agressores, a população têm tomado as ruas de cidades de todo o país para mostrar que a inaceitável segregação, que divide negros e brancos, nunca deixou de existir na América.

Relembre, a seguir, quinze das dezenas de trágicas histórias que abalaram os Estados Unidos e o mundo nas últimas décadas e que evidenciam como o despreparo e a intolerância racial se perpetuam na sociedade americana.

Freddie Gray
Freddie Gray, de 25 anos, sofreu uma ruptura de vértebra no momento da sua detenção, em Baltimore, no estado de Maryland, em 12 de abril deste ano. O jovem morreu uma semana depois, provocando uma onda de protestos por toda a cidade. Quatro dias após o início das manifestações, a promotora Marilyn Mosby comunicou que a morte de Freddie Gray havia sido um homicídio.

Em 1º de maio, os seis agentes envolvidos no caso foram denunciados e, em 21 do mesmo mês, acusados formalmente pelo grande júri. Um policial enfrenta a acusação de homicídio culposo e poderá pegar uma pena de até 30 anos de prisão. Seus companheiros de farda correm o risco de uma pena máxima de 10 anos.

Marilyn Mosby disse a jornalistas que o grande júri considerou haver indícios consistentes para acusar os policiais - três brancos e três negros -, acrescentando que sua apresentação perante a corte é aguardada para julho.

Freddie Gray
Freddie Gray
Foto: Twitter

A autópsia, por sua vez, comprovou que a lesão da vítima foi resultante de uma pancada sofrida dentro do carro, ou seja, Gray foi ferido em algum momento entre a sua prisão e a sua chegada à delegacia.

Walter Scott
Walter Scott, de 50 anos, estava desarmado quando levou um tiro nas costas no momento em que fugia de um policial na cidade de North Charleston, na Carolina do Sul, em de abril deste ano. De acordo com a polícia, o policial Michael Slager deteve Scott por causa de uma lanterna de freio quebrada. Um vídeo gravado por uma testemunha e exibido no site do jornal New York Times mostra que os dois tiveram uma discussão antes de Scott sair correndo e Slager disparar oito vezes contra as suas costas. De acordo com a versão do policial, a vítima havia tomado sua pistola de choque elétrico, embora, em nenhum trecho da filmagem seja possível ver Scott armado. Além disso, as imagens mostram o policial algemando a vítima, caminhando a um local próximo de onde abriu fogo e, em seguida, pegando algo antes de voltar para junto de Scott e depositar um objeto próximo ao seu corpo. 

Vídeo mostra Walter Scott sendo baleado por policial
Vídeo mostra Walter Scott sendo baleado por policial
Foto: Reuters

O agente foi destituído de suas funções e acusado de assassinato pela morte de Scott. O prefeito Keith Summey prometeu equipar os policiais de North Charleston com câmeras nos uniformes.

Se condenado por assassinato, Slager pode pegar entre 30 anos e prisão perpétua sem possibilidade de condicional. Ainda não há data para o julgamento.

Anthony Hill
Anthony Hill, um veterano da Força Aérea de 27 anos, estava nu e desarmado quando foi morto por um policial no condado de Dekalb, em Atlanta. O agente dirigiu até o apartamento de Hill após receber ligações de vizinhos. Eles diziam que o homem estava agindo de forma estranha, batendo nas portas e engatinhando sob o chão de seu apartamento, totalmente desorientado. O encontro se deu no estacionamento, de acordo com o chefe de polícia, Cedric Alexander.  Ainda sem roupas, Hill correu em direção ao policial, que ordenou ao civil que ficasse imóvel. A vítima não cumpriu a ordem e levou dois tiros. Nenhuma arma foi encontrada com Hill na cena do crime.

Manifestantes exibem foto de Anthony Hill
Manifestantes exibem foto de Anthony Hill
Foto: Twitter

Semelhante ao que aconteceu em 2014, quando um agente matou um homem negro que havia chamado a polícia após a sua namorada ser esfaqueada por uma pessoa que havia invadido seu apartamento, a polícia do condado de Dekalb foi alvo de protestos.

Foi definido que o policial responsável pela morte de Anthony Hill, Robert Olsen, na corporação há sete anos, faria serviços administrativos até a conclusão das investigações, conduzidas pelo Georgia Bureau of Investigation.

Antonio Martin
Antonio Martin, de 18 anos, foi morto em 23 de dezembro de 2014 em um posto de gasolina de Berkeley, St. Louis, no Missouri, após, segundo a polícia, apontar uma arma a um oficial que fazia uma abordagem de rotina durante a madrugada. Entretanto, segundo a namorada do rapaz, que estava junto com ele no momento de sua morte, foi a polícia que o agrediu. "Quando ele tentou se levantar e correr, eles começaram a atirar", declarou.

Antonio Martin
Antonio Martin
Foto: Twitter

Embora o policial responsável pela ação não tivesse uma câmera instalada no uniforme, como era previsto, várias testemunhas reforçaram a história contada pelo agente, a de que o morto teria lhe apontado a arma primeiro.

A polícia apura o que, de fato, aconteceu, e quem são os culpados.

Michael Brown
"Eu não tenho arma nenhuma. Parem de atirar". A súplica não foi ouvida e Michael Brown, de 18 anos, foi morto com dois tiros na cabeça, na cidade de Ferguson, no Missouri, em 9 de agosto de 2014. A morte do jovem provocou uma onda de protestos em 170 cidades de 37 estados americanos.  Dezenas de pessoas foram presas e o debate sobre a discriminação racial por parte das forças de segurança americanas foi retomado.

Michael Brown havia roubado um pacote de cigarros e agredido fisicamente o operador de caixa de uma loja de conveniência. Após ser localizado pelo policial Darren Brown, ambos teriam entrado em luta corporal pela janela da viatura policial, antes de o agente perseguir o assaltante.

Michael Brown
Michael Brown
Foto: Twitter

Em novembro do mesmo ano, o grande júri concluiu que não havia provas suficientes para condenar o policial que matou Brown e ele ganhou a liberdade. O chefe da polícia local, o prefeito de Ferguson e o principal juiz municipal, entretanto, foram demitidos.

A família do adolescente processou a cidade em uma ação de "morte por negligência".

Kajieme Powell
Kajieme Powell, de 25 anos, foi morto por dois agentes do Departamento de Polícia Metropolitana de St. Louis, em 19 de agosto de 2014. Ele era suspeito de furtar energéticos e donuts de uma loja de conveniência do Misssouri. O proprietário do estabelecimento, acreditando que ele estava armado, chamou a polícia. Outra testemunha, a dona de um salão de beleza da região, notou o comportamento estranho de Powell e também chamou a polícia. Ela disse aos agentes ter visto uma segunda faca com o agressor, embora apenas uma arma tenha sido encontrada no local. Ao se deparar com os policiais, Powell ignorou os comandos para que ele soltasse a faca e ordenou que os policiais o matassem. Em seguida, 12 tiros foram disparados. As ligações feitas à polícia, o vídeo que mostra o furto e uma gravação feita com um celular por uma testemunha e que mostra o exato momento dos disparos, foram divulgados pela mídia local.

Imagem retirada de vídeo mostra Kajieme Powell sendo abordado por policiais
Imagem retirada de vídeo mostra Kajieme Powell sendo abordado por policiais
Foto: Youtube

De acordo com o chefe de polícia, Sam Dotson, seus agentes agiram conforme o protocolo. Contudo, imagens feitas pela testemunha ocular apresentaram disparidades entre o que a polícia havia informado e o que, de fato, havia acontecido. Ao contrário do que os policiais descreveram, Powell não estava a cerca de um metro dos agentes e também não estava com o braço levantado, ameaçando-os com a faca. Testemunhas questionaram por que os agentes não usaram armas Taser ao invés de armas de fogo.

O caso gerou protestos e permanece mal explicado.

John Crawford
John Crawford tinha 22 anos quando foi morto pelo agente Sean Williams, na cidade de Beavercreek, no Ohio. O americano foi atingido na sessão de videogames de um supermercado. Ele segurava uma espingarda de ar comprimido.

De acordo com os policiais, Crawford não respondeu às ordens para baixar a arma e deitar no chão. Ao contrário, fez movimentos que sugeriram uma tentativa de fuga. Acreditando que a espingarda de ar comprimido fosse uma arma de verdade, um dos policiais atirou duas vezes em Crawford, que acabou morrendo em decorrência dos ferimentos. O vídeo de segurança do mercado mostrou que a vítima falava ao telefone e segurava a arma em uma das mãos quando foi baleada, sem ter recebido nenhuma advertência dos policiais.

John Crawford
John Crawford
Foto: Twitter

O jornal britânico The Guardian revelou, logo após o tiroteio, que a polícia agiu de forma agressiva ao interrogar a namorada de Crawford. Durante as perguntas, os policiais sugeriram que Tasha Thomas estava sob o efeito de álcool ou drogas quando contou que o americano havia entrado na loja desarmado - os policiais checaram a ameaçá-la de prisão. Tasha não sabia que Crawford estava morto no momento do interrogatório.

O grande júri decidiu não indiciar os oficiais envolvidos. O Departamento de Justiça, por sua vez, está conduzindo uma investigação independente. O policial que baleou Crawford permanece realizando trabalhos administrativos.

A mãe de Crawford assegura que o vídeo de vigilância mostra que a polícia mentiu em seu relato dos acontecimentos. A família da vítima entrou com uma ação por negligência contra o Walmart e o departamento de polícia de Beavercreek e criou uma petição na Change.org. para que o policial que atirou em Crawford seja punido. A deputada Alicia Reece propôs a criação da Lei John Crawford, que prevê uma mudança no formato das armas de brinquedo para que tragédias semelhantes sejam evitadas.

Eric Garner
Eric Garner, de 43 anos, foi morto em 17 de julho, ao ser contido a força por vários policiais por ser suspeito de vender cigarros ilegalmente em Stanten Island, Nova York. Um vídeo, que caiu na internet, mostra como Garner disse várias vezes "Eu não posso respirar" após ser imobilizado pelo agente Daniel Pantaleo. No atestado de óbito, consta que Garner, que era obeso e asmático, morreu em decorrência da compressão do pescoço e do peito, e que seus problemas de saúde contribuíram para o seu falecimento.

Eric Garner
Eric Garner
Foto: Twitter

O policial Pantaleo foi absolvido pelo júri em um julgamento pela morte de Garner, provocando a ira de centenas de pessoas que se manifestaram contra a decisão em Nova York, Atlanta e Washington, entre outras cidades. Ele disse à imprensa que não tinha a intenção de machucar a vítima e prestou condolências à família por sua perda". "Tornei-me policial para ajudar as pessoas e proteger aqueles que não podem se proteger sozinhos. Nunca foi minha intenção machucar ninguém, me sinto muito mal pela morte de Garner".

Embora o policial tenha sido absolvido de qualquer acusação, o Departamento de Justiça conduz uma investigação independente sobre o caso.

Kimani Gray
O jovem Kimani Gray, de 16 anos, morreu em 9 de março de 2013 após, segundo as autoridades, apontar uma arma para os policiais que o haviam abordado no Brooklyn, Nova York. De acordo com a corporação, quando Kimani viu os agentes, ele mexeu em algo que estava preso a sua cintura e se separou do grupo de adolescentes com o qual caminhava. Achando o comportamento do jovem suspeito, os policiais pararam a viatura próximo a Kimani e foram surpreendidos por uma pistola calibre 38 apontada para suas cabeças. Foi então que os dois policiais abriram fogo contra o adolescente. Contudo, de acordo com testemunhas, a vítima não estava armada.

Kimani Gray
Kimani Gray
Foto: Twitter

Investigações apontaram que Kimani tinha passagem pela polícia por invasão, posse de propriedade roubada, apropriação indébita e perturbação da ordem pública.

Os policiais não foram punidos pelo assassinato de Kimani. Um deles, o sargento Mourad Mourad, foi indicado pela Sociedade de Oficiais Muçulmanos do Departamento de Polícia de Nova York como o “Policial do Ano”, em 2014, mas ele não apenas se recusou a participar da cerimônia de entrega da condecoração, como também se recusou a recebê-la

Jonathan Ferrell   
A polícia da Carolina do Norte atirou e matou o ex-jogador de futebol americano Jonathan Ferrell em 14 de setembro de 2013. Os agentes atendiam uma ocorrência de invasão em uma casa na cidade de Charlotte após um morador reclamar que um homem batia incessantemente em sua porta. De acordo com os policiais, ao chegar no local, uma pessoa com as características do suspeito correu ao encontro deles. Quando a Taser, dispositivo desenhado para imobilizar com choques elétricos, de um dos policiais falhou, o segundo agente abriu fogo várias vezes. Ferrell foi baleado e morreu no local.

Jonathan Ferrell
Jonathan Ferrell
Foto: Twitter

Após a tragédia, a polícia “descobriu” que Ferrell estava desarmado e buscava ajuda depois de seu carro ter quebrado A vítima tinha 24 anos e havia sido atleta na Universidade de Agricultura e Mecânica da Flórida. A polícia também encontrou um carro quebrado próximo à região do incidente, indicando que Ferrell realmente estava buscando ajuda.

Embora houvesse vários policiais na cena do crime,  Randall Kerrick foi o único que abriu fogo. Ele foi condenado por homicídio culposo – sem a intenção de matar -, mas foi liberado após pagar US$ 50 mil de fiança. Os outros três agentes cumprem licença remunerada. A corporação classificou o caso de “infeliz”.

Trayvon Martin
Em 26 de fevereiro de 2012, o adolescente Trayvon Martin perdeu a vida após ser baleado pelo ex-vigia George Zimmerman, em Stanford, na Flórida. Zimmerman, um latino-americano de 28 anos, trabalhava como segurança de um condomínio onde vivia a noiva do pai de Martin e a quem o garoto de 17 anos fora visitar.

A tragédia teria ocorrido após uma discussão entre os dois. Após ter sido interrogado por cinco horas, Zimmermam  acabou sendo liberado sob a alegação de que o tiro havia sido disparado em legítima defesa, o que desencadeou uma série de manifestações por todo o país.

Trayvon Martin (à esquerda) e George Zimmerman (à direita)
Trayvon Martin (à esquerda) e George Zimmerman (à direita)
Foto: Twitter

Em 2013 ele foi absolvido no julgamento que se seguiu após o assassinato. De acordo com o Departamento de Justiça, as investigações se concentraram em determinar se havia evidências de que o vigia havia se aproximado de Martin de forma ameaçadora e atirado nele motivado por questões raciais.

Os investigadores determinaram, contudo, que “não havia evidências suficientes para provar, além de qualquer dúvida razoável, a violação dos estatutos sobre os direitos civis” e a investigação foi encerrada..

Kendrec McDade
Quando Oscar Carrillo ligou para a polícia ele foi claro: dois homens haviam roubado sua mochila e seu computador e pelo menos um deles havia apontado uma arma para a sua cabeça. Momentos depois, a polícia cruzou com dois adolescentes que suspeitavam ser os autores do crime cometido nos becos de Pasadena, na Califórnia. Quando um deles, Kendrec McDade tentou pegar algo na cintura, foi atingido. Nenhuma arma foi encontrada junto do corpo do estudante de 19 anos.

A polícia atribuiu parte da culpa da morte de McDade à vítima do roubo, que teria admitido ter mentido ao dizer que o homem que o abordou estava armado. De acordo com a polícia, seus agentes teriam agido mais rápido se não tivessem tido acesso a uma informação incorreta. A advogado da família de McDade acusou a polícia de tentar eximir os agentes da culpa e atribuí-la à outra vítima. “Ele poderia ser processado por apresentar falso testemunho a polícia, mas não foi ele que puxou o gatilho”, disse Caree Harper após o incidente. “Eles não podem culpar quem fez a ligação porque atiraram em um homem negro desarmado”, completou.

Kendrec McDade
Kendrec McDade
Foto: Twitter

De acordo com a polícia, os jovens se encaixavam na descrição fornecida por Carrillo, pelas testemunhas e pelas câmeras de segurança. Além disso, McDade foi morto a apenas dois quarteirões do beco onde ocorreu o roubo.

A autópsia constatou que o jovem morto levou oito tiros. Sua família entrou com uma ação contra a cidade de Pasadena e cinco oficiais.

Os dois policiais envolvidos diretamente no crime, Jeffery Newlen e Mathew Griffin, cumprem licença remunerada e são alvo de quatro investigações, sendo uma delas conduzida pelo FBI.

Oscar Grant
Oscar Grant tinha 23 anos quando foi tirado à força de um vagão do metrô de Oakland, Califórnia, por um policial. Enquanto estava no chão, imobilizado, foi baleado por um segundo policial, que teria confundido um revólver com sua Taser. De acordo com a defesa do policial Johannes Mehserle, ele teria reagido ao perceber que Grant tentava alcançar a arma que estava em sua cintura. “Você atirou em mim. Você atirou em mim”, foram as últimas palavras ditas pelo jovem americano na noite de Reveillon de 2009.

Oscar Grant
Oscar Grant
Foto: Twitter

A trágica morte de Oscar Grant foi parar nas telonas, sendo exibida em alguns dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo, como Sundance e Cannes. O filme Fruitvale Station, lançado em 2013, mostra como Oscar foi alvejado após ser posto em isolamento junto de alguns amigos, logo depois de uma briga dentro do vagão do metrô. A cena foi registrada pelos celulares de vários passageiros que passavam no local no momento da tragédia.

Em novembro de 2010, Johannes Mehserle foi condenado a dois anos de prisão, cumpridos em uma cela separada para a sua própria segurança dentro de um centro de custódia em Los Angeles. Desde 3 de maio de 2011 ele está na liberdade condicional.

Sean Bell 
Sean Bell foi morto no dia de seu casamento, em 25 de novembro de 2006, no bairro do Queens, em Nova York. Ele e seus amigos foram alvo de cinquenta tiros disparados por policiais à paisana. “Era para ser o dia mais feliz da minha vida, mas acabou se tornando o pior. Todos que vieram para o casamento ficaram para o funeral”, declarou sua noiva, Nicole, naquele dia. Sean, que também era pai de seus filhos, foi enterrado com o terno que havia comprado para o casamento.

A vítima organizava, antes do trágico desfecho daquela noite, uma festa de solteiro em uma boate que era investigada por policiais por denúncias de prostituição. De acordo com o New York Post, um amigo de Sean, Joseph Guzman teria tido uma discussão com um homem fora da boate. Outro jovem que acompanhava o grupo teria pedido para que um companheiro lhe desse sua arma. Pensando que um tiroteio estava prestes a acontecer, o policial disfarçado, Gercard Isnora seguiu Sean e seus amigos, não sem antes pedir apoio pelo rádio. De acordo com Isnora, ele se identificou para o grupo e ordenou que o carro em que eles estavam fosse parado. Ao invés de cumprir as ordens do policial,  Sean teria acelerado, atropelando Isnora e batendo em uma minivan da polícia. O policial teria visto Guzman alcançar uma arma e dado sinal para os colegas abrirem fogo contra Sean e seu amigos. Os cinco policiais dispararam, no total, cinquenta tiros contra o carro em que estava o grupo.

Sean Bell e a noiva, Nicole
Sean Bell e a noiva, Nicole
Foto: Twitter

Entretanto, Joseph contradiz a versão do policial Isnora. Segundo ele, os policiais, que estavam disfarçados não se identificaram e abordaram o grupo com armas em punho. A versão foi confirmada pelo jornal New York Daily News.

Isnora revelou mais tarde que iniciou o tiroteio depois que viu um quarto homem, armado, dentro do carro, fugir do local. Críticos acusaram Isnora de inventar o quarto homem para justificar o tiroteio e evitar uma condenação pelo júri popular. Segundo o colunista do New York Daily News Juan Gonzalez, Isnora mencionou a existência do quarto homem apenas horas após o incidente.

Os cinco policiais envolvidos no tiroteio foram dispensados do Departamento de Polícia de Nova York após processo disciplinar de cinco anos. Três deles foram ao tribunal, mas foram considerados inocentes.

O caso despertou a ira da população e foi comparado à trágica morte do jovem Amadou Diallo, em 1999.

Amadou Diallo    
Amadou Diallo, de 22 anos, foi morto em frente ao seu apartamento, no Bronx, em Nova York, após ser confundido com um estuprador em série. Instantes antes da tragédia, em 4 de fevereiro de 1999, ele ligou para a mãe para dizer que estava indo para o colégio. Havia pouco mais de dois anos que Amadou, natural da Guiné, trabalhava como vendedor ambulante nas ruas de Manhattan. Assim como nos outros casos, Amadou não estava armado. Familiares e amigos descreviam a vítima como tímida, trabalhadora, sorridente e devota do Islã - ele não bebia e não fumava.

Todos os quatro policiais, que estavam a paisana no momento do crime, usaram suas pistolas semi-automáticas 9 milímetros empregadas durante o serviço.  Dois agentes, Sean Carroll e Edward McMellon, dispararam 16 tiros cada, Kenneth Boss abriu fogo cinco vezes e Richard Murphy, quatro vezes.

Amadou Diallo
Amadou Diallo
Foto: Twitter

Todos os homens, que pertenciam à extinta “Street Crimes Unit” – e dos quais três já haviam se envolvido em tiroteios - foram absolvidos da acusação de homicídio em segundo grau por um tribunal de Albany, em Nova York. Uma investigação conduzida pelo Departamento de Polícia de Nova York considerou que os agentes agiram conforme a política adotada pela polícia em circunstâncias semelhantes. De acordo com os policiais, eles se identificaram como policias de Nova York, mas Amadou, que estava na rua, em frente à sua casa, correu em direção ao seu apartamento, ignorando as ordens dos policias. Os disparos foram feitos no momento em que a vítima tirou uma carteira de seu bolso e jogou em direção aos policias. Os agentes teriam confundido o acessório com uma arma.

A morte de Amadou foi retratada em canções de cantores como Bruce Springsteen (“American Skin”) e Ziggy Marley (“I know You don’t care about me”), e séries de TV como NYPD Blue, Law & Order, além dos filmes Phone Booth e 25th Hour.

O corpo de Amadou foi enterrado na Guiana, junto dos corpos de seus familiares.

Obama quer investigação a fundo sobre morte de jovem negro:

 

Fonte: Terra
Publicidade
Publicidade