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Eleições nos EUA: os americanos que ainda acreditam que Trump ganhou, mesmo sem provas de fraudes

A desconfiança do processo eleitoral entre os partidários de Trump pode ter implicações para o país.

6 jan 2021
10h05
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Dillard Ungeheuer, em Mound City, diz acreditar que as cédulas de Biden foram infiltradas nos gabinetes eleitorais à noite. Vale lembrar que era uma cédula única para votar em deputados, senadores e presidente
Dillard Ungeheuer, em Mound City, diz acreditar que as cédulas de Biden foram infiltradas nos gabinetes eleitorais à noite. Vale lembrar que era uma cédula única para votar em deputados, senadores e presidente
Foto: BBC News Brasil

Semanas depois que o presidente eleito Joe Biden foi declarado vencedor do pleito de novembro, ainda existe uma profunda desconfiança no processo eleitoral entre muitos defensores fervorosos de Donald Trump. Isso reflete um sentimento mais amplo entre os conservadores que pode ter profundas implicações para a nação e suas instituições.

Na rua Main Street da cidade de Mound City, no Estado do Kansas, conversei com Dillard Ungeheuer, de 73 anos. Ele parecia irritado. Quando falamos sobre urnas, ele é enfático — muitas são falsas.

"Não vou discutir com ninguém sobre isso", diz ele, aumentando o tom de voz. "Eu acredito que o que estou dizendo é fato."

Sua indignação com a eleição presidencial e com o governo é palpável, e esse sentimento é comum na cidade.

"Não, não tenho muita fé no governo", diz ele.

O presidente dos EUA, Donald Trump, perdeu a eleição para seu rival democrata, Joe Biden, e seus esforços para derrubar esse resultado nos tribunais fracassaram. Nesta quarta-feira (6/1), os votos eleitorais de cada Estado serão contados no Congresso — um procedimento tido apenas como protocolar, sem chances de mudar o resultado.

Embora alguns republicanos tenham dito que contestariam essa etapa final do processo de certificação do vencedor da eleição, isso apenas atrasará, em vez de alterar, o resultado.

Em Mound City, no Condado de Linn, em Kansas, 80% das pessoas votaram em Trump. E muitos duvidam dos resultados das eleições
Em Mound City, no Condado de Linn, em Kansas, 80% das pessoas votaram em Trump. E muitos duvidam dos resultados das eleições
Foto: BBC News Brasil

Conversas com cerca de duas dúzias de eleitores republicanos no Estado do Kansas, no Meio-Oeste americano, revelam como eles enxergam o mundo. A maioria sentiu que foi enganada, e que as instituições democráticas, especialmente o processo eleitoral, não funcionam.

A maioria dos eleitores republicanos, seja no Kansas ou em outros lugares, acredita que Trump venceu a eleição ou não tem certeza do vencedor, sugere uma pesquisa da Northeastern University.

Jackie Taylor, de 59 anos, editor do Linn County News, em Pleasanton, diz que a eleição foi roubada: "A coisa toda é suja. Você tem um cara que foi eleito em circunstâncias sujas e agora ele é presidente".

Quando questionados sobre por que achavam que a eleição foi fraudada, muitos disseram ter recebido notícias da Newsmax, One America News e outros meios de comunicação que divulgaram reportagens sobre supostas fraudes de eleitores. Essas empresas de mídia eram relativamente obscuras até Trump assumir o cargo.

O presidente frequentemente as menciona e isso deu notoriedade a elas.

Tyler Johnson acredita que algumas das cédulas foram fraudadas
Tyler Johnson acredita que algumas das cédulas foram fraudadas
Foto: BBC News Brasil

Outros dizem que não conheciam ninguém que apoiasse Biden e viam apenas placas apoiando Trump nos quintais das casas.

Para eles, era inconcebível que Biden pudesse vencer. Eles têm uma crença inabalável, apesar da falta de qualquer prova, de que os liberais roubaram a eleição. Suas opiniões se refletem nos programas que assistem e são discutidas em cafés, postos de gasolina e outros lugares da cidade.

Apoiadores de Trump pedem uma revisão do sistema, dizendo que controles mais rígidos deveriam ser impostos aos eleitores. Eles disseram que temiam que Biden demolisse o que restava da democracia americana, transformando o país em um Estado socialista.

'Posição frágil'

Para Tyler Johnson, de 35 anos, houve fraude eleitoral no processo.

Ele acha que os democratas não devem estar no poder: "Como há dúvidas sobre a eleição, isso me faz questionar tudo o que eles defendem".

Johnson cria bezerros como seu pai fazia — e da maneira que ele espera que seu filho de dois anos, Monroe, faça algum dia — e teme que os democratas sabotem a indústria da pecuária.

"Com todas as regras que a Presidência de Biden deseja impor a nós, eu fico pensando — será que meu estilo de vida será viável para meu filho, como foi para meu pai e para mim?"

Em Mound City, os eleitores expressam ceticismo em relação a Biden
Em Mound City, os eleitores expressam ceticismo em relação a Biden
Foto: BBC News Brasil

Sua cautela com o processo eleitoral pode levar a uma divisão mais profunda nos EUA, com alguns acreditando na Casa Branca de Biden e outros rejeitando-a.

"Os EUA estão em uma posição muito frágil", diz Edward Foley, um estudioso de direito eleitoral da Ohio State University em Columbus. Ele descreve a desconfiança no processo eleitoral como "um verdadeiro desafio à própria premissa do sistema".

Foley relembra outro momento na história quando estourou uma batalha por causa de uma eleição. Em 2000, o candidato republicano George W. Bush venceu na Flórida por apenas 537 votos, conquistando a eleição. Apoiadores de seu rival democrata, Al Gore, ficaram desesperados.

"Havia o medo de que as autoridades usassem o poder político para manipular as urnas", disse ele, embora não tenha havido nenhum esforço sério para minar o processo. Os democratas levaram o assunto à Suprema Corte, mas os juízes não aceitaram as contestações.

Mike Avery acredita que os democratas podem ter vencido por meios escusos
Mike Avery acredita que os democratas podem ter vencido por meios escusos
Foto: BBC News Brasil

Agora, no entanto, Trump e seus aliados lançam sérias dúvidas sobre a vitória de Biden.

Roger Marshall, um senador recém-eleito pelo Kansas, está planejando levantar objeções sobre a vitória de Biden na quarta-feira (6/1), quando os membros do Congresso se reunirem para uma sessão conjunta para certificar os resultados da eleição. Marshall e cerca de uma dúzia de outros senadores conservadores vão desafiar os votos em alguns Estados — uma tentativa de última hora para impedir a posse de Biden.

Quando questionado se contestar a eleição corrói a confiança no processo, Marshall diz que quer "dar às pessoas confiança em futuras eleições, então isso não vai minar a confiança das pessoas mais do que ela já está minada agora".

Suas preocupações são compartilhadas por muitos no Kansas, uma região profundamente conservadora. Aqui, o medo do socialismo e o pavor da Presidência de Biden são intensos.

"Acho que veremos os primeiros sinais de socialismo", disse Mike Avery, de 53 anos, dono de uma serraria na Main Street, no condado de Linn, onde 80% dos eleitores votaram em Trump.

Ungeheuer, que constrói cercas, diz sobre as políticas de Biden: "você não pode a dar um pouco para todo mundo, e enquanto isso eu tenho que trabalhar duro e tocar meu negócio. A Venezuela não anda muito bem, seguindo uma agenda socialista".

Conservadores do Kansas, como Julia Smith, estão pedindo uma revisão do sistema de votação
Conservadores do Kansas, como Julia Smith, estão pedindo uma revisão do sistema de votação
Foto: BBC News Brasil

Agora também há apelos no Kansas e em outros lugares para aumentar as restrições ao voto.

"Acho que a eleição foi fraudada, com cédulas pelo correio. Acho que só votaram pessoas que não estão mais entre nós", diz Julia Smith, 65, que é aposentada.

"Acho que vamos ter que voltar a votar pessoalmente, com identidade."

Para ela, a derrota de Trump foi a prova de que os democratas foram rápidos, e ela diz que seus esforços deveriam ser interrompidos. Em seguida, ela puxou seu casaco com força, se protegendo contra um vento gelado, e foi embora.

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