Proposta antisistema: Colômbia autoriza candidatura representada por IA nas eleições legislativas
A menos de três semanas das eleições legislativas na Colômbia, uma candidatura inédita disputará uma vaga no Congresso: Gaitana, uma inteligência artificial. Nas cédulas, ela aparece como candidata independente, identificada pela sigla "IA". Gaitana é uma plataforma comunitária que já conta com mais de 10 mil apoiadores. Se eleita, ela poderá ser representada no plenário por seu criador Carlos Redondo, membro da comunidade zenú, na costa caribenha da Colômbia.
Melissa Barra, da RFI em Paris
Com voz robótica e pele azul, Gaitana IA concorre simultaneamente ao Senado e à Câmara de Representantes, na Circunscrição Especial Indígena. Seu criador, Carlos Redondo, explicou à RFI como surgiu o projeto da candidata Gaitana.
"Nas nossas comunidades, o ego do líder, do personagem, não existe. Cacique é o ancião que vai de casa em casa, de família em família, buscando consenso, buscando colocar as pessoas de acordo. Começamos a estudar toda essa nossa cosmovisão. O único passo que faltava era digitalizá-la", conta Redondo.
Registrar uma IA como candidata não é legal na Colômbia. Por isso, o Conselho Nacional Eleitoral autorizou que Redondo e outro representante humano ocupem os assentos e repitam as decisões de consenso geradas por Gaitana.
Redondo explica que a plataforma é participativa. Os usuários enviam temas, a IA os sintetiza e, em seguida, coleta as opiniões de todos. Com base na maioria, ela toma uma decisão e da mesma forma atuará ao votar projetos de lei, caso seja eleita.
"Se há um projeto de lei, a Gaitana compartilha, reduz o conteúdo. Se for uma lei de 200 páginas, ela reduz a cinco infográficos, compartilha com toda a comunidade de Gaitana - que hoje já reúne mais de 10 mil integrantes, entre indígenas e afrodescendentes - e essas pessoas começam a opinar", detalha. O criador acrescenta que a IA contabiliza as opiniões e o lado que tiver 50% mais um alcança consenso.
Proposta antisistema
Mas o que aconteceria se a maioria dos usuários decidisse boicotar? "Se o próprio consenso decidir que sim, que é o correto, nós, como legisladores, teremos que respeitar. É possível que isso aconteça, embora precise ser uma maioria bastante significativa - seriam necessárias cerca de 6 mil pessoas tentando sabotar Gaitana para que isso ocorresse", responde seu criador.
Com apenas três pequenos servidores, Redondo afirma que o impacto ambiental da IA será mínimo. Ele reconhece que a tecnologia ainda é limitada em termos de segurança de dados e na capacidade de lidar com um grande volume de opiniões divergentes. Segundo ele, o projeto é, sobretudo, uma proposta antisistema.
"Nós analisamos, nos últimos quatro anos, todos os projetos de lei apresentados na Colômbia, e os mais escandalosos são homenagens à arepa com ovo [,um prato típico da culinária colombiana]. É uma vergonha a maneira como essas pessoas legislavam. Então, está bem: desumanizar isso e começar a humanizar com dados. Dentro da unidade de trabalho de um congressista, há uma equipe inteira que Gaitana não precisará, e já colocamos nos estatutos que ela renuncia a todos esses benefícios", afirma Redondo.
Ainda é difícil medir o alcance da iniciativa, muito apoiada por jovens. Pesquisas indicam que apenas um terço dos eleitores com menos de 24 anos pretende votar.