Mattel lança Barbie 'autista'; iniciativa é criticada por associações francesas por estigmatização
A Barbie autista, lançada na segunda-feira (12), passa a integrar a coleção que já inclui Barbies com síndrome de Down (trissomia 21), uma Barbie cega e uma Barbie com diabetes tipo 1, informou a Mattel em comunicado. Segundo a empresa, trata-se de uma linha que celebra a diversidade.
O grupo norte-americano, sediado em El Segundo, na Califórnia, afirmou ter desenvolvido a boneca em parceria com a Autistic Self Advocacy Network (ASAN), organização que atua na defesa dos direitos e na melhoria da representação de pessoas autistas nos meios de comunicação.
"A boneca foi criada com a ajuda da comunidade autista para representar formas comuns pelas quais pessoas autistas podem viver, processar informações e se comunicar com o mundo ao seu redor", explicou a Mattel.
A Barbie autista tem articulações nos cotovelos e nos pulsos, diferentemente das Barbies tradicionais, para permitir "movimentos repetitivos, palmas e outros gestos que alguns membros da comunidade autista utilizam para processar estímulos sensoriais ou expressar excitação". Além disso, os olhos da boneca são levemente desviados para o lado, em referência ao fato de que algumas pessoas autistas evitam contato visual direto.
As bonecas acompanham ainda um brinquedo sensorial antisstress, fones de ouvido com cancelamento de ruído e um tablet. A empresa também prometeu doar mil unidades a hospitais pediátricos dos Estados Unidos que contam com serviços especializados em autismo.
"Uma série de sinais caricaturais"
Na França, a iniciativa não teve a repercussão esperada. Olivia Cattan, presidente da SOS Autisme France, entrou em contato com o grupo americano para denunciar o uso do autismo com fins comerciais. A associação decidiu ainda entrar com uma ação judicial contra a Mattel, com o objetivo, entre outros pontos, de mudar o nome "Barbie autista", considerado estigmatizante.
"O problema é pretender representar o autismo reduzindo-o a uma série de sinais caricaturais", afirma a carta enviada à empresa.
"Nem todas as crianças autistas evitam o olhar ou o barulho. O autismo não é um traço físico e não pode ser resumido assim, em três acessórios", protesta a dirigente, mãe de uma criança com TEA (transtorno do espectro autista). "Fazemos campanhas de conscientização para mostrar a diversidade do autismo, não para que esse trabalho seja reduzido a um clichê."
André Masin, presidente da associação AFG Autisme e pai de dois adultos autistas, compartilha dessa crítica e lamenta a banalização dos transtornos do neurodesenvolvimento. "A visão apresentada é muito reducionista e não representa em nada as pessoas com deficiências mais severas. O autismo é uma forma de funcionamento, e não algo que se possa identificar em uma boneca", afirma.
Ele também avalia que se trata de um brinquedo inadequado para crianças autistas, que são justamente o público-alvo da campanha. "Uma pessoa autista não terá, de forma espontânea, o impulso de brincar com bonecas como uma criança típica. Ela não consegue se colocar no lugar do outro. Isso é algo muito complexo para ela", diz. Apenas crianças com formas mais leves de autismo poderiam se reconhecer e se identificar com a boneca.
Mudar uma imagem pouco inclusiva
Outras vozes, porém, veem a iniciativa como um avanço em termos de inclusão. Rofrane Bambara, criadora de conteúdo e mãe de quadrigêmeos autistas, participou do lançamento da boneca ao lado da Mattel. "Estou muito feliz pelas minhas filhas, por todas as meninas no espectro do autismo que poderão pensar: 'Na verdade, ela se parece comigo, então não sou tão diferente, porque até a Barbie tem características do espectro autista'", afirmou em um vídeo publicado no Instagram.
Com essa boneca, a Mattel dá mais um passo na tentativa de transformar a imagem historicamente pouco inclusiva associada à Barbie e de revitalizar a marca. No segundo trimestre de 2025, o grupo registrou queda de 6% no faturamento em relação ao mesmo período do ano anterior. As vendas de bonecas recuaram 25% no mundo e 34% na América do Norte. A estratégia de marketing parece, portanto, especialmente voltada ao mercado norte-americano, onde a iniciativa foi amplamente recebida de forma positiva.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento complexo e de amplo espectro, de origem multifatorial, ligado principalmente a uma combinação de fatores genéticos — predominantes — e ambientais.
RFI com France 24