Ultradireitista assume presidência do Chile com promessa de deportar 340 mil migrantes
José Antonio Kast toma posse como presidente do Chile nesta quarta-feira (11) com Flávio Bolsonaro na lista de convidados, marcando a maior mudança política à extrema direita no país desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet em 1990. Sua chegada ao poder ocorre em um contexto de forte insatisfação popular com a criminalidade, percepções de insegurança e preocupações com a imigração irregular, temas que dominaram a campanha presidencial e que agora vão orientar as políticas do novo governo.
A transição representa não apenas a troca de governo, mas uma redefinição da agenda política chilena em direção a políticas de ordem e segurança, além de um debate intenso sobre migração e soberania territorial.
Kast, líder do Partido Republicano e figura alinhada a correntes conservadoras na América Latina, foi eleito em dezembro de 2025 com cerca de 58% dos votos no segundo turno, derrotando a candidata de esquerda Jeannette Jara. Sua campanha explorou a percepção de aumento do crime e a preocupação com a migração irregular, temas que se tornaram dominantes no debate público chileno.
Embora o país ainda mantenha taxas de homicídio mais baixas que muitos vizinhos sul-americanos, dados oficiais e análises de especialistas indicam aumento de certos crimes violentos em zonas urbanas, o que ajudou a impulsionar a narrativa de insegurança que favoreceu Kast nas urnas.
O governo de Kast anunciou que dará prioridade a um conjunto de medidas de curto prazo voltadas à segurança pública e ao controle migratório, sob uma lógica de "governo de emergência" voltado para restabelecer a ordem e responder às demandas de eleitores preocupados com criminalidade e fluxo de migrantes. Entre as propostas estão o reforço das fronteiras e maior presença policial nas áreas de maior risco, a criminalização da entrada irregular no país, aumento das deportações de migrantes sem documentação regular e sanções relacionadas ao emprego, moradia ou transporte de pessoas em situação irregular.
Deportação de vizinhos
Uma das promessas mais polêmicas é a intenção de deportar centenas de milhares de migrantes irregulares, em grande parte venezuelanos que entraram no país nos últimos anos. Essa abordagem é muito mais rigorosa do que a política migratória de administrações anteriores.
A questão migratória no Chile se tornou central no debate nacional. Dados de instituições regionais mostram que a população nascida no exterior cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionada principalmente por fluxos vindos da Venezuela e de outros países da América Latina.
O crescimento tem sido associado por parte da opinião pública a desafios sociais e de segurança, mesmo que análises mais amplas indiquem que muitos desses temores estejam mais ligados à percepção de insegurança do que a índices criminais elevados. Pesquisas de opinião indicam que a segurança pública é a principal preocupação dos eleitores chilenos, superando temas como economia ou saúde, reforçando um ambiente favorável ao discurso de Kast.
A posse de Kast ocorre em um momento de forte competição ideológica geopolítica na América Latina, com destaque para debates sobre imigração, segurança e relações com potências externas, como Estados Unidos e China. Observadores internacionais destacam que o novo presidente chileno adotou elementos de retórica e políticas semelhantes às de líderes de extrema direita em outras partes do continente, enfatizando segurança, controle migratório e reformas econômicas orientadas ao mercado.
Parlamento continua fragmentado
Apesar das promessas de reforçar a ordem interna, Kast enfrenta desafios institucionais: o Parlamento chileno permanece fragmentado, o que pode dificultar a aprovação de algumas de suas propostas mais duras sem negociações políticas significativas.
A chegada de Kast ao poder representa, portanto, uma mudança histórica rumo a políticas mais conservadoras, centradas em segurança pública e controle migratório, enquanto o país lida com desafios internos e pressões externas. A promessa de deportação de centenas de milhares de migrantes reflete a urgência com que o novo governo pretende responder às demandas de parte expressiva do eleitorado, ao mesmo tempo em que enfrenta um cenário político complexo tanto internamente quanto nas relações internacionais.
(Com agências)
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