Depois da ameaça dos EUA, China põe em xeque estratégia para isolar o Irã
Os Emirados Árabes Unidos já suspenderam transações comerciais com o Irã enquanto o Paquistão tenta assumir um papel de mediador. Depois de acusar o Irã de estar "colapsando", Donald Trump escolheu o silêncio sobre o assunto, pelo menos momentaneamente.
O governo dos EUA lançou um ultimato com a ameaça de sanções secundárias contra parceiros comerciais do Irã, visando isolar o país. Enquanto os Emirados Árabes suspenderam negócios e o Paquistão busca mediação, a China rejeitou a pressão e prometeu defender seus interesses. Principal compradora de petróleo iraniano, Pequim é o maior teste da estratégia americana, deixando Washington diante do dilema de punir gigantes chineses e arriscar uma crise financeira global ou perder sua credibilidade.
Patrícia Vasconcellos, de Washington, especial para a RFI
Em um evento na Casa Branca, na tarde de segunda-feira (24), o presidente dos Estados Unidos falou sobre as reformas na Casa Branca, mas não sobre o Oriente Médio. Horas antes, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, havia concedido uma coletiva de imprensa cercada de expectativa, já que se esperava o anúncio de sanções sem precedentes no chamado "Dia D". Ao fim, os Estados Unidos usaram a data para ameaçar os parceiros comerciais de Teerã.
"Ninguém está acima das sanções norte-americanas", disse Bessent, afirmando que a implementação das sanções secundárias não ocorreu porque o foco é "dar uma oportunidade aos que estejam agindo errado para que possam corrigir o comportamento".
Em Pequim, a postura oficial foi de rejeição à pressão americana. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China prometeu que o país defenderá seus interesses, em uma reação que expõe o principal desafio da estratégia do governo Donald Trump: transformar a ameaça de sanções secundárias em isolamento efetivo de Teerã sem provocar uma crise econômica com alguns dos maiores parceiros comerciais do Irã.
O governo chinês afirmou que sanções e pressão não são capazes de solucionar o conflito e podem aumentar ainda mais as tensões. A China é o principal destino do petróleo iraniano e uma peça fundamental para qualquer tentativa americana de reduzir drasticamente as receitas de Teerã.
A ameaça e os limites das sanções secundárias
O governo Trump deixou claro que a nova ofensiva não pretende atingir apenas empresas e setores dentro do Irã. Washington ameaça usar as chamadas sanções secundárias para punir empresas, bancos e outras instituições estrangeiras que continuarem mantendo determinadas relações econômicas com Teerã.
Na prática, os Estados Unidos tentam colocar empresas e governos diante de uma escolha: continuar negociando com o Irã ou preservar o acesso ao mercado americano e ao sistema financeiro baseado no dólar. O anúncio de segunda-feira, porém, também revelou os limites dessa estratégia.
Apesar do tom duro adotado pelo secretário do Tesouro, grandes instituições financeiras chinesas não foram atingidas nesta primeira etapa. Questionado sobre por que Washington não aplicou imediatamente sanções secundárias aos principais parceiros comerciais iranianos, Bessent respondeu com uma frase que expõe o dilema americano:
"Por que eu iria querer explodir o sistema financeiro global?"
O secretário indicou que Washington pretende dar aos países a oportunidade de interromper determinadas operações antes de aplicar as punições.
Na frente internacional, o "Dia D econômico" funcionou, neste primeiro momento, também como um ultimato: os Estados Unidos mostraram as ferramentas que podem utilizar e deram aos parceiros de Teerã a oportunidade de mudar de comportamento antes de serem atingidos.
Emirados já interromperam transações com o Irã
Um exemplo concreto de um país árabe que já se afastou economicamente de Teerã é o dos Emirados Árabes Unidos. Na semana passada, antes do anúncio do "Dia D econômico", os Emirados suspenderam o comércio, os intercâmbios comerciais e as transações financeiras com o Irã após um ataque de míssil.
Ao comentar a decisão dos Emirados, Bessent afirmou que o movimento "não foi uma coincidência", sugerindo que Washington considera a decisão de Abu Dhabi um resultado da pressão que já vinha sendo exercida sobre os parceiros econômicos de Teerã.
O caso dos Emirados oferece uma primeira indicação do efeito que a ameaça americana pode produzir: alguns países podem concluir que o custo de manter negócios com o Irã se tornou alto demais.
Por outro lado, a capacidade de Washington de obter o mesmo resultado de potências como a China é uma questão diferente e envolve outros elementos. A Casa Branca e o Departamento do Tesouro também monitoram Índia, Rússia e Turquia, que ainda não reagiram formalmente à ameaça de sanções secundárias.
China é o grande teste
Sancionar embarcações, intermediários ou empresas menores acusadas de ajudar Teerã a contornar as restrições tem um custo relativamente limitado para Washington. Atingir uma grande instituição financeira chinesa é uma decisão de outra dimensão.
Segundo Bessent, isso pode acontecer até o fim desta semana, embora ele não tenha revelado o nome de um eventual alvo. Uma medida desse tipo, se realmente tomada pelo governo Trump, poderia abrir uma nova frente de confronto econômico entre as duas maiores economias do mundo e produzir consequências muito além do comércio com o Irã.
O momento diplomático também pesa no cálculo da Casa Branca. Trump tem um encontro previsto com o presidente chinês, Xi Jinping, no próximo mês. Washington tenta aumentar o custo para Pequim de continuar oferecendo apoio econômico ao Irã sem comprometer outras negociações entre os dois governos.
Se a China mantiver as compras de petróleo iraniano e desafiar o ultimato, Trump terá de decidir se está realmente disposto a transformar a ameaça em punição.
Paquistão escolhe a mediação
Outro país importante para acompanhar é o Paquistão. Islamabad não anunciou adesão às sanções americanas, mas também não rejeitou publicamente a ameaça de Washington. Em vez disso, fez um movimento diplomático.
Uma delegação de alto nível paquistanesa viajou para Teerã na segunda-feira (24), liderada pelo chefe do Exército, Asim Munir, em uma tentativa de reduzir as tensões e incentivar os Estados Unidos e o Irã a retomarem as negociações.
Trump conversou com Munir antes da viagem. O movimento mostra Islamabad tentando preservar um papel de interlocutor entre os dois lados, em vez de aderir publicamente à campanha americana de pressão econômica. A posição é particularmente delicada pela proximidade geográfica com o Irã e pelos interesses estratégicos do Paquistão tanto na região quanto em sua relação com Washington.
O silêncio de outros importantes parceiros do Irã também chama a atenção. Até as primeiras horas desta terça-feira (25), Índia, Rússia e Turquia não haviam apresentado uma nova reação oficial especificamente sobre as ameaças de sanções secundárias anunciadas por Washington.
A ausência de uma resposta imediata não significa necessariamente apoio à estratégia americana. Esses governos precisam calcular o custo de manter determinadas relações com Teerã diante da possibilidade de serem atingidos por Washington.
Os Estados Unidos também não especificaram quais países poderão ser os primeiros alvos das sanções secundárias. Isso cria um período de incerteza no qual governos e empresas podem tentar negociar exceções, reduzir sua exposição ao Irã ou simplesmente esperar para saber até onde Trump pretende levar a ameaça.
Países sofrem pressão dos dois lados
A pressão não vem apenas dos Estados Unidos. Teerã advertiu que países que colaborarem com a campanha americana de isolamento econômico poderão enfrentar consequências e indicou que essa cooperação poderá ser interpretada como um ato hostil.
Os parceiros comerciais do Irã passam, assim, a sofrer pressão dos dois lados. Washington ameaça punir quem continuar oferecendo uma linha de sobrevivência econômica a Teerã. Já o Irã ameaça retaliar contra quem ajudar os Estados Unidos a fechar essa linha.
O dilema é particularmente sensível para países do Oriente Médio que mantêm relações econômicas com o Irã, mas também dependem dos Estados Unidos para comércio, investimentos ou segurança.
As diferentes respostas internacionais começam a desenhar o tamanho do desafio americano. Os Emirados já interromperam transações com o Irã, em um movimento que Bessent relaciona à pressão de Washington. O Paquistão tenta ocupar o espaço diplomático e mediar uma saída. Índia, Rússia e Turquia parecem evitar uma resposta pública específica, enquanto a China, o ator economicamente mais importante, rejeita a pressão e promete defender seus interesses.
É essa diferença de comportamento que determinará a eficácia da estratégia americana.
Se Pequim continuar comprando petróleo iraniano e mantiver as relações econômicas com Teerã, Trump terá diante de si uma escolha difícil: aplicar sanções contra empresas ou instituições chinesas de grande porte e correr o risco de ampliar o confronto com Pequim, ou evitar a punição e colocar em dúvida a credibilidade da ameaça.
A própria declaração de Bessent sobre não querer "explodir o sistema financeiro global" revela os limites desse instrumento. Depois do "Dia D econômico", a questão já não é apenas quais setores iranianos Washington decidiu sancionar. O teste é saber quais países vão ceder à pressão, quais vão resistir e até onde os Estados Unidos estarão dispostos a levar a ameaça contra aqueles que continuarem a fazer negócios com o Irã.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.