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América Latina

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Corrida ao governo da Califórnia testa os limites da polarização no estado mais populoso dos EUA

A disputa pelo governo da Califórnia ganhou contornos inesperados após a primária que colocou frente a frente um discreto veterano democrata e um conservador midiático alinhado ao trumpismo. O primeiro aposta na experiência acumulada em décadas de vida pública; o segundo, na visibilidade conquistada na TV e no apoio direto da Casa Branca. O embate sintetiza a polarização que marca a política dos EUA e transforma a eleição estadual em vitrine nacional.

10 jun 2026 - 14h27
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A primária para o governo da Califórnia terminou com um duelo que sintetiza bem o momento político dos EUA: de um lado, um democrata veterano e discreto; do outro, um conservador midiático que virou o queridinho de Donald Trump. O resultado encerrou semanas de tensão entre os democratas, que temiam ver sua fragmentação abrir espaço para dois republicanos no segundo turno.

O republicano em questão, Steve Hilton, tem uma trajetória que foge ao padrão californiano. Nascido no Reino Unido, ex-conselheiro de David Cameron e naturalizado norte-americano em 2021, ele se reinventou como apresentador da Fox News. O candidato ganhou visibilidade ao atacar medidas de confinamento durante a pandemia, chamou a atenção de Trump e recebeu o endosso presidencial em 2026, o que bastou para impulsionar sua campanha entre conservadores, analisa a  doutora em história, especialista em Estados Unidos, México e na história da Califórnia, Emmanuelle Perez Tisserant, ouvida pela RFI.

Hilton defende cortes de impostos, redução de regulações e um Estado mais "eficiente", inspirado no departamento criado por Elon Musk no governo federal. A agenda cultural segue o manual MAGA: promessas de endurecimento moral e oposição à participação de atletas trans em competições. Ele também quer transformar a Califórnia na "cripto-capital do mundo", proposta que agrada a parte do Vale do Silício - não por acaso, sua campanha recebeu apoio de figuras como Sergey Brin, um dos cofundadores do Google, e o magnata da mídia Rupert Murdoch.

Longe dos holofotes

Do outro lado está Xavier Becerra, que fez carreira longe dos holofotes. Filho de imigrantes mexicanos, formado em direito por Stanford e com mais de três décadas na política, foi eleito em 1990 para a Assembleia da Califórnia e, depois, para o Congresso, onde permaneceu por 24 anos antes de se tornar o primeiro latino-americano nomeado procurador-geral do estado.

Xavier Becerra também espera se tornar o primeiro governador latino-americano da Califórnia. O sexagenário, no entanto, recusou-se a "jogar com o lado identitário" durante sua campanha, preferindo destacar sua experiência política, explica Emmanuelle Perez Tisserant. No governo federal, Becerra comandou o Departamento de Saúde e Serviços Sociais durante a administração Biden, defendendo a expansão do seguro social público Medicare e enfrentando a Casa Branca de Trump em temas ambientais e migratórios.

Becerra tenta se apresentar como o candidato da estabilidade em um estado que enfrenta uma das crises habitacionais mais graves dos EUA, marcada por preços exorbitantes e aumento da população em situação de rua. Ele votou contra restrições ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, apoia o controle de armas e defende o direito ao aborto. Sua campanha aposta em sindicatos, organizações comunitárias e grupos de defesa de direitos civis para unir progressistas e moderados.

Mas o democrata carrega um ponto sensível: reportagens de 2023 revelaram que milhares de menores migrantes desacompanhados não foram localizados após deixarem abrigos federais durante sua gestão no Departamento de Saúde.

Críticos afirmam que o órgão falhou no acompanhamento; Becerra diz que o governo não pode ser responsabilizado por situações ocorridas após a saída dos abrigos. O tema deve voltar com força no segundo turno, especialmente porque adversários conservadores já o transformaram em arma política.

Apoio dos chefões do Vale do Silício

A disputa também expõe o peso crescente da tecnologia na política californiana. Hilton tem apoio de grandes nomes do setor e uma plataforma que agrada investidores e startups. Becerra, por sua vez, tenta equilibrar demandas sociais com a pressão de um mercado imobiliário inflado por décadas de crescimento acelerado do Vale do Silício. 

Com perfis tão distintos, o segundo turno promete atrair atenção nacional. A Califórnia, que costuma ditar tendências políticas e econômicas nos EUA, agora se torna palco de um embate entre continuidade institucional e um conservadorismo midiático em ascensão. A campanha deve ser marcada por contrastes fortes - e por um eleitorado acostumado a decidir o futuro do país. 

A Califórnia é considerada um termômetro político nas eleições presidenciais dos Estados Unidos porque combina fatores demográficos, institucionais e eleitorais que ajudam a revelar tendências nacionais antes de elas aparecerem em outros estados.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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