Canadá anuncia medidas de retaliação de US$ 20 bilhões contra sobretaxas dos EUA
O Canadá anunciou nesta terça-feira (25) que um conjunto de sobretaxas alfandegárias de 15% a 50% sobre diversos produtos americanos entrará em vigor em 8 de setembro. Otawa também vai liberar US$ 5,4 bilhões (quase R$ 28 bi) para apoiar setores fortemente afetados pela guerra comercial que se intensifica entre os dois países vizinhos, outrora aliados próximos.
O Canadá anunciou retaliações de US$ 20 bilhões em sobretaxas contra produtos dos EUA a partir de 8 de setembro, respondendo na mesma moeda às tarifas americanas. A decisão do premiê Mark Carney ocorreu após romper negociações consideradas injustas e que ameaçavam a cultura francófona. Em resposta à escalada de Donald Trump, Ottawa lançou um pacote de US$ 5,4 bilhões para apoiar empresas locais e diversificar mercados, visando reduzir sua dependência econômica histórica do país vizinho.
As sobretaxas canadenses vão atingir o aço, os produtos lácteos, além de equipamentos agrícolas, a indústria de papel, produtos eletrônicos e eletrodomésticos. As linhas gerais das medidas de retaliação haviam sido anunciadas no sábado pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, O valor corresponderá, "dólar por dólar", às tarifas americanas impostas ao Canadá desde o último sábado.
O país está "unido em sua resposta" a esse "desafio sem precedentes", declarou nesta terça-feira o ministro das Finanças, François-Philippe Champagne, ao apresentar as medidas durante uma entrevista coletiva que reuniu diversos ministros. Elas passarão a valer à 0h01 de 8 de setembro.
O premiê Mark Carney decidiu na sexta-feira enfrentar Donald Trump. Ele rompeu as negociações comerciais com os Estados Unidos ao considerar "injustas" as condições impostas por Washington.
Aposta arriscada
A aposta pode se mostrar economicamente arriscada. Os Estados Unidos são, de longe, o principal parceiro comercial do Canadá. As exportações canadenses para o país representam 70% do total exportado.
Para enfrentar "os tempos difíceis", o governo canadense também anunciou nesta terça-feira medidas de apoio aos setores mais afetados pelas tarifas americanas. Um pacote total de 7,5 bilhões de dólares canadenses (US$ 5,4 bilhões) será disponibilizado para reforçar o caixa das empresas, ampliar os benefícios ao desemprego e criar um "Fundo de Diversificação para um Canadá Forte", destinado a ajudar os setores afetados a encontrar novos mercados de exportação.
Desde o último sábado, Washington aplica sobretaxas punitivas sobre um total de US$ 20 bilhões em produtos canadenses importados, incluindo cimento, bebidas alcoólicas e tacos de hóquei. Inicialmente previstas para 19 de agosto, essas tarifas americanas haviam sido adiadas por Donald Trump, quando um acordo entre os dois países parecia próximo. No entanto, Carney acabou rompendo as negociações.
'Lago da América'
Na segunda-feira, o presidente americano elevou ainda mais a tensão ao anunciar que as tarifas sobre o setor automotivo e o aço canadenses subirão para 50% a partir de 1º de janeiro do próximo ano. A maior parte do aço canadense exportado para os Estados Unidos já é taxada em 50%, mas Washington havia sinalizado uma possível redução da alíquota caso houvesse uma trégua comercial.
Donald Trump considera que o Canadá se beneficia há anos da generosidade americana nos campos comercial e militar.
O presidente dos Estados Unidos afirmou na manhã desta terça-feira que também está pensando, "seriamente, em mudar o nome do Lago Ontário para Lago da América". Ele defendeu a iniciativa dizendo que "não pretendemos mais fazer muitos negócios com Ontário", rica província canadense onde o setor automobilístico tem grande relevância.
Defesa da língua francesa
O governo canadense justificou, entre outros motivos, sua decisão de romper as negociações na sexta-feira pelas exigências de Washington relacionadas à língua francesa. O tema é politicamente sensível em um país oficialmente bilíngue. Segundo Ottawa, o projeto de acordo comercial afetaria subsídios à cultura francófona, a presença de veículos de mídia em francês na internet e a exigência de rotulagem bilíngue para produtos vendidos no Canadá.
"Jamais me meteria nos assuntos dos canadenses francófonos", rebateu Donald Trump nesta terça-feira, negando qualquer interferência. O republicano ainda acusou Mark Carney, em sua rede Truth Social, de mentir para assegurar o apoio da província francófona de Quebec.
Canadá tenta reduzir dependência americana
Na segunda-feira, o primeiro-ministro canadense reiterou que seu país não aceitará um acordo comercial com Washington "a qualquer preço". "Estamos prontos", afirmou. "Temos tudo de que precisamos" no Canadá, salientou, em referência especialmente às riquezas minerais e energéticas do país, como petróleo.
Desde que chegou ao poder em março de 2025, Carney, ex-presidente de banco central, vem tentando reduzir a dependência canadense em relação aos Estados Unidos. Ele busca novos parceiros comerciais na Ásia e na Europa. O premiê do Partido Liberal também lançou uma série de grandes projetos de infraestrutura e pretende construir um novo oleoduto ligando os campos petrolíferos de Alberta à costa do Pacífico, para ampliar as exportações canadenses de petróleo para a Ásia.
Em uma pesquisa realizada no Canadá durante o fim de semana, 76% dos entrevistados disseram apoiar o rompimento das negociações, enquanto 62% afirmaram ser favoráveis às medidas de retaliação anunciadas pelo primeiro-ministro canadense.
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