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'Me prostituí para pagar meus estudos e hoje me arrependo'

Pesquisa com estudantes no Reino Unido apontou que 1 em cada 25 universitários já tentou ganhar dinheiro com algum tipo de atividade sexual, incluindo sexo por dinheiro, encontros com homens mais velhos e venda de calcinhas ou cuecas usadas.

23 out 2019
11h06
atualizado às 11h28
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Quando ficou sem dinheiro e passou a furtar leite de outros estudantes, decidiu que só havia uma opção para conseguir obter renda.

Silhouetted characters on beach
Silhouetted characters on beach
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ele, que concedeu seu relato sob condição de anonimato, se prostituiu para outros homens quando era um estudante adolescente a fim de ganhar entre 20 e 120 libras por programa (algo entre R$ 105 e R$ 630).

"Essa possibilidade de trabalho meio que sempre esteve no meu radar como uma forma fácil de ganhar dinheiro em tempos difíceis. Mas eu só fiz isso quando realmente precisava", afirmou.

Quando seus pais descobriram, puseram um fim na atividade. Ele, que nunca falou sobre isso com ninguém, agora tem emprego, mas afirma não julgar estudantes sem dinheiro que buscam sobreviver.

"Eu me arrependo ao olhar para trás. Mas se eu me visse novamente na mesma situação, talvez eu fizesse o mesmo", disse.

Dinheiro emergencial

Uma pesquisa com estudantes no Reino Unido apontou que 1 em cada 25 universitários já tentou ganhar dinheiro com algum tipo de atividade sexual, incluindo encontros com homens mais velhos, venda de calcinhas ou cuecas usadas e transar em troca de dinheiro.

Segundo o site Save the Student, que realizou o levantamento com mais de 3 mil universitários, a proporção de estudantes que disseram ter ganhado dinheiro com esse tipo de atividade dobrou nos últimos dois anos.

Outros 6% disseram que estariam dispostos a fazer algum tipo de atividade de cunho sexual caso precisassem emergencialmente de dinheiro.

Quase 4 em cada 5 estudantes temem não ter dinheiro suficiente para pagar as contas todo mês, segundo o mesmo levantamento da Save the Student.

Uma estudante ouvida pela BBC afirmou, sob condição de anonimato, ficar chocada com a quantidade de colegas que ganham dinheiro desse jeito.

"Eu nunca fui tão pobre na minha como quando era estudante, porque o aluguel era muito caro. Eu só tinha o suficiente para comprar uma pizza pré-pronta por dia", relatou.

Desesperada, ela encontrou informações em redes sociais sobre como ganhar dinheiro em sites de fetiche. Passou a ganhar mais de 100 libras (quase R$ 530) por semana vendendo fotos e vídeos de seus pés.

"Eu era transparente sobre isso. Meu pai sabia, meu namorado sabia. Não me arrependo porque eu achei um jeito de ganhar dinheiro para comer."

"Mas o difícil é a vida universitária ter me empurrado para isso, o que é injusto. Sempre me ressenti disso."

O levantamento da Save the Student deste ano identificou que 57% dos entrevistados afirmam que preocupações financeiras afetaram sua saúde mental, uma alta de 11 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

Para a psicoterapeuta Hannah Morish, a atividade econômica de cunho sexual também pode levar a quadros de ansiedade e depressão.

Mulher na cama de sutiã segura cédulas de dinheiro
Mulher na cama de sutiã segura cédulas de dinheiro
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Pode haver uma sensação de isolamento por causa do estigma em torno disso. Assim, se um estudante passa por uma experiência negativa ou perigosa, pode se sentir incapaz de falar sobre isso e agravar seu isolamento social."

Ela defendeu que faculdades e entidades estudantis ofereçam acompanhamento e espaço físico e digital para apoiar estudantes que considerem ganhar dinheiro com esse segmento.

Jake Butler, da Save the Student, cobrou que as políticas de financiamento estudantil sejam prioritárias.

"É preocupante que a parcela de estudantes envolvidos em atividades de cunho sexual e prostituição tenha dobrado nos últimos dois anos, mas não é surpreendente, dada a situação financeira que os estudantes enfrentam", disse.

Há quase 2,3 milhões de estudantes no ensino superior do Reino Unido, sendo 20% estrangeiros.

O governo britânico estipula o valor máximo da anuidade que as universidades podem cobrar e o aluno pode optar por contrair o empréstimo oficial ou simplesmente bancar o custo com recursos próprios.

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